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Vitor Olivier e Felipe Meneses, fundadores da Decade | Foto: divulgação
Vitor Olivier e Felipe Meneses, fundadores da Decade | Foto: divulgação

Democratizar a gestão de patrimônio é uma promessa que não é nova no mercado brasileiro. No boom das fintechs da última decada, várias empresas tentaram, mas não conseguiram criar o app de gestão financeira (o chamado Personal Finance Manager, ou PFM) capaz de ganhar o grande público. Entretanto, apoiada em inovações como Open Finance e o avanço exponencial da IA, a Decade sai do stealth mode pronta para encarar o desafio. De quebra, ela traz uma portentosa rodada seed para impulsionar seus planos.

Fundada pelo ex-CTO do Nubank, Vitor Olivier, e por um dos cofundadores da fintech AI-first Hyperplane (que foi comprada pelo Nu em 2024), a Decade se apresenta ao mercado embalada por um cheque de US$ 85 milhões (cerca de R$ 440 milhões), liderado pelos fundos gringos Benchmark, Diffusion e Greenoaks e os brasileiros Atlantico e Norte Ventures.

Em conversa com o Startups, Vitor revelou que a rodada foi fechada ainda no fim do ano passado e que parte dela sustentou o período de desenvolvimento e validação da solução durante os 11 meses de stealth mode. Trata-se da maior rodada seed levantada na América Latina, superando o recorde de US$ 40 milhões da brasileira Pax, que também captou com a Benchmark e a Greenoaks este ano.

“Os investidores olharam para a solução e os fundadores, que têm uma experiência muito relevante: eu como um funcionário que ajudou o Nubank a crescer por muito tempo, e o Felipe como fundador da Hyperplane, comprada pelo Nubank. Esse combo, junto com o fato de a gente ter ambições globais no futuro, fez com que os investidores ficassem animados com a oportunidade”, explica Vitor.

Apesar de todo o cacife, o destino do dinheiro, segundo Olivier, segue simples. “O foco neste primeiro ciclo é pessoas e IA, que são os grandes custos, e vai continuar sendo por um bom tempo”, pontua o CEO da Decade, revelando que a empresa ainda tem uma operação enxuta, com 26 funcionários.

Como funciona?

Nas palavras do CEO, a Decade é definida como um “AI First Wealth Management”, no qual o cliente conecta suas contas via Open Finance e ganha uma visão consolidada do patrimônio, distribuída por risco, geografia e classe de ativo, com o detalhe de tarifas e até da composição interna de cada fundo.

“A partir daí, uma camada de IA passa a monitorar investimentos e gastos 24/7, criando pontos de atenção: um produto com tarifa alta, um risco que mudou, uma assinatura esquecida, um gasto fora do padrão. Dá para simular cenários sobre a carteira real, como projetar quanto se vai gastar com um filho ao longo dos anos e, quando o assunto pede, falar com um advisor humano”, explica o executivo.

Para Vitor, essa interface mais simples no uso, mas aprofundada na análise financeira, é o que separa a Decade das tentativas anteriores de PFM e robo-advisory — incluindo o Olivia, que o próprio Nubank chegou a comprar, mas desativou alguns anos atrás.

“É a diferença entre o Palm e o iPhone”, resume Vitor, fazendo uma analogia com a corrida dos “computadores de mão” 20 anos atrás. “O Palm tinha todas as ótimas ideias, mas o 4G não estava lá, o hardware não estava lá”, pondera.

Para os fundadores da Decade, dois componentes mudaram o jogo nos últimos meses: uma IA capaz de “fazer conta e inferir padrões” num nível inédito e a maturação do Open Finance, sobretudo o Open Investments, que reduz o input manual e as “quebras na experiência” que travavam os produtos antigos.

O diagnóstico da Decade parte da própria história do Nubank. “O grande lance foi olhar a dor do cliente, olhar para as grandes ondas de tecnologia e criar uma empresa com isso no DNA”, diz Vitor. “A onda anterior, com nuvem e smartphone resolveu os produtos transacionais, como conta, cartão e pagamentos, as vários outros serviços financeiros continuaram crescendo via seres humanos e na mão dos incumbentes”, dispara, cutucando indiretamente a indústria que ainda é dominada por grandes como XP, BTG e outros “bancões”.

“Há um ano, seria impossível construir o que estamos construindo”, completa Felipe Meneses, cofundador e Head de AI da Decade. “Serviços financeiros são complexos e, muitas vezes, ganham dinheiro justamente nessa assimetria de informação. Nossas IAs desfazem essa assimetria: leem cada extrato, acompanham cada posição e monitoram todo o patrimônio 24 horas por dia”.

Por falar em democratização do acesso a ferramentas robustas de wealth management, isso também se reflete no preço da Decade. A empresa chega ao mercado com uma mensalidade fixa de R$ 200, uma decisão dos fundadores para diminuir a barreira de entrada para o grande público.

Metas de crescimento

Perguntado sobre os planos de crescimento da Decade, Vitor frisa que o momento ainda não é o de priorizar escala. Apesar da grana no caixa, adotar um playbook agressivo de aquisição de clientes vai ficar para depois. A Decade abriu uma lista de espera e diz priorizar qualidade sobre volume.

“Não temos projeções de clientes nem objetivos de crescimento neste momento; o foco é achar um produto de grande apelo para o usuário”, afirma Vitor, fazendo um paralelo com o próprio Nubank, que baseou seus primeiros anos de crescimento em uma estratégia orgânica. “O Nubank levou uns quatro anos para gastar o primeiro real em marketing”, pontua.

Além disso, a independência é parte da tese da Decade. A custódia e os produtos ficam com parceiros como BTG, XP, Avenue, Genial e C6, enquanto a Decade se posiciona como player independente representando o cliente. Ou seja, não está nos planos da fintech ter o mesmo destino de outros PFMs que acabaram absorvidos por bancos. Nessa toada, a empresa também tem planos de internacionalizar, embora o Brasil seja o ponto focal neste primeiro momento.

Na visão de Vitor, tudo se resume à visão de longo prazo, o que tem a ver inclusive com o nome da startup. “Vem da ideia de que você superestima o que consegue fazer em um ano, mas subestima o que consegue fazer em uma década”, diz. “Queremos mais pessoas investindo, mais gente acumulando capital, mais milionários e menos assimetria de informação”, finaliza.

O post Decade capta US$ 85M para ser o PFM que “deu certo” apareceu primeiro em Startups.