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Ilustração conceitual sobre inteligência artificial e gestão de pessoas. Em um fundo azul-claro, três blocos empilháveis exibem ícones de perfil profissional. Dois blocos estão empilhados verticalmente no centro, enquanto um terceiro bloco com um ícone em vermelho aparece inclinado ao lado. Na parte superior direita, uma mão segura um bloco decorado com símbolos de inteligência artificial e a sigla “AI”, como se estivesse posicionando a peça sobre a estrutura. Um círculo claro ao fundo destaca os elementos centrais da composição. A imagem representa a integração da inteligência artificial em processos de trabalho, recrutamento, formação de equipes ou tomada de decisões relacionadas a recursos humanos. (revolução industrial)

Tem sido muito comum, nas rodas de conversa, escutarmos debates sobre o impacto da inteligência artificial ser superior ao da Revolução Industrial.

Como ainda não conseguimos tangibilizar algo grandioso a olho nu, todo esse papo pode parecer elucubração. Vamos lembrar que, na época da Revolução Industrial, tivemos cidades redesenhadas, desenvolvemos uma classe trabalhadora moderna, desenhamos as escolas para formar mão de obra para as indústrias. Naquele momento, multiplicamos a produtividade por ordens de magnitude e reorganizamos o mundo em torno da fábrica. Como algo pode ter a audácia de ser maior que isso?

Na minha opinião, o grande impacto é que, dessa vez, a revolução atinge uma outra camada da nossa existência como ser humano.

A Revolução Industrial multiplicou a nossa força física. As máquinas passaram a fazer o que os músculos faziam (mais rápido, mais barato, sem cansar). Mas o raciocínio, o julgamento e a decisão continuaram exclusivamente humanos. A máquina executava enquanto a pessoa pensava.

E agora vou dizer o óbvio que emerge dessas rodas de conversa: a IA atua em outra camada: a cognitiva. Pela primeira vez, a tecnologia não amplia apenas o que fazemos com as mãos. Dessa vez, a tecnologia amplia (e em algumas situações substitui) o que fazemos com a cabeça, com o intelecto, com o pensar. Análise, síntese, escrita, código, diagnóstico, decisão e até cartas de amor. E aqui está o ponto que torna a comparação plausível: a camada física tem limites conhecidos, já a cognitiva, ainda não conhecemos.

O ser humano sobreviveu até hoje principalmente por causa da sua capacidade de pensar. Nós não somos rápidos como o guepardo, ou fortes como o gorila, nem caçadores como os felinos. Então o que nos fez sobreviver por milhares de anos? A nossa capacidade de pensar. E vamos lembrar de outra coisa: como conseguir alimento não era o nosso forte, nosso corpo se desenvolveu aprendendo a poupar energia de todos os modos possíveis. Nosso corpo foi feito para poupar energia. E, pela primeira vez, a energia que estamos poupando é a do nosso cérebro, e ainda não sabemos mensurar o impacto disso na capacidade que nos fez sobreviver até hoje.

Essa é a discussão que mais me preocupa. Se a revolução é maior, o que dizer das capacidades e instituições que temos para atravessá-la?

No curto prazo vejo um desafio duplo e na minha avaliação, estamos atrasados nos dois.

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O primeiro desafio: a pirâmide do talento vai virar.

Passamos a última década falando do apagão de profissionais de tecnologia. No Brasil, os números contam a história: segundo a Brasscom, o setor demandaria 797 mil profissionais entre 2021 e 2025, mas o país forma cerca de 53 mil por ano para uma demanda média de 159 mil. Um déficit de mais de 100 mil talentos por ano, meio milhão no acumulado de cinco anos. A maioria, historicamente, em funções técnicas. Sobretudo desenvolvedores.

Agora observe o que a IA está fazendo exatamente com essas funções. Escrever código, a principal competência que definiu o gap, é uma das primeiras que a IA aprendeu a amplificar. O que chamamos de humano aumentado: um desenvolvedor instrumentado produz hoje o que antes exigia uma equipe.

Isso não significa que o gap desaparece. Significa algo mais sutil e mais difícil de endereçar: o gap sobe na pirâmide. À medida que a base técnica é amplificada pela máquina, a escassez migra para o que a máquina não fornece: experiência, julgamento, capacidade de fazer as perguntas certas, de conectar disciplinas, de decidir sob ambiguidade, de orquestrar. E esse tipo de profissional não se forma em bootcamp de seis meses. Forma-se em anos de operação real.

A pergunta que deveríamos estar fazendo não é “como formar mais profissionais de tecnologia?”. É “como formar julgamento em escala?”

O segundo desafio: nossas instituições foram desenhadas para a revolução anterior.

Comece pela escola. O modelo educacional que domina a maior parte das escolas ao redor do mundo: turmas por idade, disciplinas separadas, horários rígidos, sinal tocando entre aulas, avaliação padronizada. Esse padrão foi concebido no século XIX, para cumprir uma função específica: preparar grandes contingentes para a vida industrial.

Pontualidade, obediência a instruções, tarefas repetidas, conhecimento em silos. A escola foi a linha de montagem que alimentava as outras linhas de montagem.

Quase dois séculos depois, a maioria das escolas não passou por transformação estrutural. E o que estamos discutindo, na era da IA? Tempo de tela, se o aluno pode ou não usar IA, quais aplicativos são liberados ou não. Com todo o respeito ao debate: é discutir a fechadura enquanto a casa muda de endereço.

Ouso afirmar que a maioria das instituições está preparando jovens para a era cognitiva com uma pedagogia desenhada para a era do vapor, e tratando a maior mudança na relação entre humanos e conhecimento desde a imprensa como uma questão de regulamento interno.

Agora olhe para as empresas: o espelho é igualmente incômodo.

A corporação moderna, como a conhecemos, foi moldada no pós-guerra. Quando as organizações precisaram de um modelo para coordenar milhares de pessoas em torno de objetivos, copiaram a estrutura que a humanidade conhecia melhor: a militar. Hierarquia, cadeia de comando, front office e back office (a própria linguagem denuncia a origem), competir e destruir o concorrente para vencer. Funcionou? Sim, e por muitos anos, para o problema daquela era: coordenar trabalho físico e repetitivo em escala.

O problema é que seguimos para um mundo ecossistêmico, em que nenhuma organização tem, sozinha, todas as competências de que precisa. O valor migrou para as conexões: parceiros, redes, plataformas (e até concorrentes que colaboram). A inteligência que a máquina não fornece, a coletiva: a capacidade de montar, para cada problema, a combinação certa de competências que moram no ecossistema.

E, enquanto o mundo caminha para o ecossistema, muitas empresas ainda operam com o mindset da revolução industrial: comando e controle, com aprovações em cascata para decisões que a informação já tornou óbvias. Competição em ambientes onde a coopetição entregaria mais valor ao cliente. Falta de governança para decisão descentralizada. Departamentos que otimizam suas partes enquanto o problema atravessa o todo. Conhecimento preso em silos e em camadas hierárquicas.

Mesmo as empresas que dizem cascatear autonomia vivem, na prática, uma autonomia disfarçada de comando e controle. Foram desenhadas para um mundo em que a informação era escassa e subia lentamente a pirâmide, mas agora operam em um mundo em que a informação é abundante e instantânea.

Quantas empresas conseguiram, de fato, evoluir seu modelo operacional para além dessa herança? Na minha experiência (e passei os últimos anos dentro de transformações, integrações e construções de empresas), pouquíssimas. A maioria adotou as tecnologias da nova era sobre a arquitetura organizacional da anterior.

Por isso, pode ser maior.

É por isso que acredito que a IA pode ser maior que a Revolução Industrial, mas não pelo motivo que costuma aparecer nos palcos. Não porque os modelos são impressionantes. E sim porque, desta vez, a revolução não pede apenas que troquemos as máquinas.

Pede que usemos os copilotos para as tarefas automáticas sem nos privarmos do ato de pensar. Pede que redesenhemos as instituições que construímos em torno das máquinas antigas: a escola que forma pessoas, a empresa que as organiza, a hierarquia que decide, a carreira que as desenvolve. A Revolução Industrial nos deu um século e meio para isso. Esta não vai dar.

Precisamos digerir, o mais rápido possível, que a nova era não entra pelas nossas ferramentas, pelos novos softwares ou pelas novas máquinas. A nova era entra pelas nossas entranhas e desafia a forma como aprendemos, decidimos, nos organizamos e lideramos.

E essa é a parte que nenhum modelo de linguagem vai resolver por nós. Sobreviver é não delegar o ato de pensar, de criar, de julgar. A capacidade de imaginar o futuro continua sendo inerente ao ser humano, o que mantém suas sinapses bem treinadas como um ato de sobrevivência.

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