
Em 2012, o japonês Mitsuru Nakayama desembarcou no Brasil sem falar português e com o desejo de construir uma ponte entre o mercado latino-americano e o Japão. O resultado, alguns anos depois, foi a criação da gestora de venture capital BVC, que já está no seu terceiro fundo e coleciona saídas como a Espresso, vendida para a Sankya em 2024, e Cinnecta, adquirida pela Matera em 2023.
A escolha do Brasil, na época, foi estratégica. Ao analisar diferentes regiões, Mitsuru concluiu que poderia gerar mais impacto e se diferenciar em um lugar onde houvesse poucos japoneses atuando nos negócios. O Brasil, apesar de ter uma grande comunidade japonesa, tinha poucas pessoas fazendo essa ponte entre as empresas de cada país, segundo ele.
A ideia inicial, porém, não era criar um fundo de investimento. Ao chegar no país, Mitsuru trabalhou na consultoria Bain & Company, onde permaneceu por pouco mais de dois anos. Nesse período, passou a estudar o ecossistema brasileiro de startups e identificou uma lacuna que já era familiar: havia aceleradoras, mas poucos fundos dispostos a investir nas primeiras rodadas das empresas. A situação lembrava o Japão do início dos anos 2000, quando ele próprio buscava capital para sua startup – que chegou a ser investida do Softbank.
Foi então que ele decidiu levantar um fundo próprio. Para isso, voltou ao Japão e buscou recursos com amigos e antigos colegas de trabalho. “Achei que, se conseguisse mostrar o desempenho do fundo, poderia trazer mais recursos depois. E essas pessoas, colocando um pouco de dinheiro no meu fundo, também passariam a conhecer melhor o mercado daqui”, explica Mitsuru.
Foco no pré-Seed
Criada em 2014, a BVC atua principalmente no pré-Seed, priorizando negócios que já apresentam tração inicial, mas ainda estão na primeira rodada de captação. A tese da BVC é voltada para startups B2B, especialmente fintechs e empresas de inteligência artificial aplicada a nichos específicos. Em vez de apostar em modelos generalistas ou desenvolvedores de grandes modelos de linguagem (LLMs), a gestora busca soluções de IA voltadas para setores como varejo, recrutamento, concessionárias e outros mercados verticais.
O primeiro veículo da BVC nasceu como um fundo experimental, com menos de US$ 1 milhão, investidos em 12 startups brasileiras. Uma das principais apostas foi a Conta Simples, na qual a gestora entrou antes mesmo da passagem da fintech pelo Y Combinator. O portfólio também inclui dois exits de destaque: a Cinnecta, adquirida pela Matera em 2023, e a Espresso, comprada pela Sankhya em 2024.
O desempenho do primeiro fundo permitiu à BVC levantar um segundo veículo, de US$ 5 milhões, no fim de 2020. A operação deixou de olhar apenas para o Brasil e passou a investir em toda a América Latina.
Desde a criação, a gestora já investiu em cerca de 50 startups distribuídas por seis países da América Latina. Além da sede em São Paulo, a equipe está presente na Colômbia, no Peru e no Japão.
O terceiro fundo da casa ainda está em processo de captação, com o objetivo de chegar a um valor de US$ 8 milhões a US$ 9 milhões.
Os investimentos começam, normalmente, com cheques de US$ 150 mil, acompanhados da possibilidade de follow-on nas empresas que apresentam melhor desempenho.
Embora, inicialmente, a maior parte dos LPs fosse do Japão, hoje em dia também investem no fundo limited partners do Brasil, Colômbia e Peru. Para Mitsuru, apesar de o retorno ser importante, esse não é o maior atrativo do fundo para esses investidores.
“Quem pode investir no nosso fundo normalmente não precisa de retorno financeiro. Conta mais o compartilhamento de informações, o ponto de vista de mercado, entender quais são as startups mais interessantes que a gente está investindo”, afirma Mitsuru. “A gente faz três fóruns por ano, em que chamamos nossos investidores, que são basicamente empreendedores, para interagir com os ecossistemas locais da América Latina. Além disso, a gente faz uma ou duas viagens trazendo empreendedores japoneses”.
Mas a aproximação com o Japão não é o único diferencial da gestora. Segundo Mitsuru, a BVC também tem o objetivo de ajudar os founders a organizarem seu captable desde o início.
“A gente entra na primeira rodada porque falta recurso. Eu sofri nessa fase como empreendedor. Cap table é muito difícil de arrumar depois. Tem que estar arrumado desde o início. Essa talvez seja a nossa contribuição para os empreendedores em geral”, diz.
Programas para empreendedores
Além dos investimentos, a BVC criou dois programas para ampliar seu acesso a empreendedores em diferentes estágios da jornada de captação.
O primeiro é o Open Call, uma chamada aberta para startups de toda a América Latina. Diferentemente dos formulários tradicionais, todas as empresas inscritas passam por uma conversa com a equipe da gestora. As startups que despertam interesse seguem por um processo acelerado de diligência, reduzindo o tempo entre o primeiro contato e uma eventual decisão de investimento.
Já o Samurai é voltado exclusivamente para empreendedores seriais. O programa foi criado para simplificar o fundraising de fundadores que já construíram e venderam empresas anteriormente, oferecendo um processo de análise mais rápido e a possibilidade de aportes de até US$ 1 milhão. A iniciativa reflete a aposta da BVC de que empreendedores com histórico de execução conseguem encurtar parte do processo tradicional de avaliação de um fundo de venture capital.
O post Essa gestora de venture capital quer conectar o Brasil ao Japão apareceu primeiro em Startups.

