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Grupo de quatro pessoas reunidas em um ambiente de escritório moderno. Uma pessoa está sentada em frente a um notebook enquanto outras acompanham a discussão ao redor, uma delas segurando documentos. Sobre a mesa há papéis, cadernos e copos descartáveis. O ambiente possui janelas amplas, iluminação natural e estrutura industrial com tubulações aparentes no teto (liderança)

*Bruno Bolivar

Durante muito tempo, eu não percebi o quão improvável era a minha trajetória.

Negro, filho de uma costureira e de um soldador, ambos com ensino fundamental incompleto, cresci em uma realidade muito diferente daquela que hoje encontro nas salas de reunião, eventos internacionais e fóruns executivos de tecnologia dos quais participo. Meus pais nunca tiveram a oportunidade de concluir os estudos. A vida exigiu deles outras prioridades, como trabalhar e sustentar a casa, na esperança de que os filhos tivessem oportunidades que eles próprios não tiveram.

Mesmo sem diplomas ou cargos de destaque, eles me ensinaram algo que mudaria completamente o rumo da minha vida e foi desde muito pequeno que eu aprendi que a educação era o caminho para transformar nossa realidade.

Estudei em escola pública e cresci na periferia. Não havia atalhos, sobrenomes influentes ou portas abertas. O que existia era a convicção de que estudar poderia me levar mais longe do que as gerações anteriores da minha família. Foi essa crença que me acompanhou ao longo da vida.
Por meio dos estudos, entrei no setor de tecnologia, uma indústria que transformou minha carreira por completo e, junto com ela, as perspectivas da minha família. Vieram as certificações, a especialização contínua e mais de quinze anos de trajetória profissional, passando por diferentes funções até chegar a posições executivas.

Hoje, quando participo de reuniões estratégicas ou lidero equipes responsáveis por milhões de reais em negócios, muitas vezes percebo que continuo sendo uma exceção. E os números mostram que essa percepção ainda está longe de ser apenas uma impressão pessoal.

Um levantamento da consultoria Diversitera, divulgado em 2024, revelou que apenas 1% dos cargos de alta liderança no Brasil são ocupados por pessoas negras, enquanto profissionais brancos concentram 84,1% dessas posições.

No setor de tecnologia, que costuma sempre ser associado à inovação e à capacidade de antecipar mudanças, a realidade não é muito diferente. O Censo de Diversidade da Brasscom mostra que pretos e pardos representam 35% da força de trabalho das empresas de TIC, mas ocupam apenas 16,8% dos cargos de diretoria e gerência. Existe, portanto, uma diferença significativa entre a composição da base do setor e quem chega aos espaços de decisão.

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Essa distância não se explica apenas pela falta de representatividade nas empresas. Ela começa muito antes. O próprio levantamento da Brasscom aponta que há maior concentração de profissionais negros nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto sabemos que grande parte das oportunidades e das sedes das empresas de tecnologia continua concentrada na região Sudeste do país. Nesse contexto, para muitos profissionais, a mobilidade social quase sempre também exige uma mobilidade geográfica.

Ao mesmo tempo, o setor convive com outro desafio recorrente: a escassez de talentos. Empresas de tecnologia frequentemente relatam inúmeras dificuldades para contratar e formar profissionais qualificados, mas ainda concentram boa parte do recrutamento nos mesmos centros urbanos, nas mesmas universidades e nos mesmos círculos de relacionamento. Isso reduz a capacidade de encontrar talentos que já existem, mas que permanecem distantes dos ambientes onde as oportunidades costumam circular.

Minha trajetória é resultado da valorização da educação dentro da minha família, do trabalho de professores da escola pública que acreditaram no potencial de seus alunos e da possibilidade de acesso a uma carreira que, décadas atrás, sequer fazia parte da realidade dos meus pais. Mas ela também mostra que histórias como essa ainda são vistas como exceção, quando deveriam ser muito mais comuns.

A tecnologia mudou profundamente a forma como as empresas operam, como as pessoas se comunicam e como a sociedade produz conhecimento. O setor sempre encontrou caminhos para superar limitações técnicas e criar modelos de negócio. O desafio agora talvez seja garantir que essa capacidade de transformação também se reflita nas pessoas que ocupam os espaços de liderança.

Para ser justo, é válido ressaltar que os sinais de avanço já existem. Segundo a Brasscom, entre dezembro de 2023 e junho de 2024, a presença de mulheres negras nas empresas de TIC cresceu 7,3%, enquanto a de homens negros aumentou 6%. Mas o crescimento estatístico não significa que o problema esteja resolvido.
Quando olho para trás, vejo a distância percorrida e tenho muito orgulho dela. Mas também me pergunto quantos talentos continuam fora dessas salas de reunião porque nunca tiveram acesso às mesmas oportunidades. Se a tecnologia pretende construir o futuro, talvez seja hora de garantir que esse futuro se pareça mais com o Brasil que existe do lado de fora das empresas.

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