
A inteligência artificial (IA) já escreve código, identifica erros, automatiza testes e ajuda desenvolvedores a executar em minutos tarefas que antes consumiam horas. Para quem começa na profissão, os juniores, as mesmas ferramentas também facilitam o aprendizado. O paradoxo é que parte dessas atividades servia justamente como porta de entrada para profissionais com pouca experiência.
Dados da Gupy obtidos pelo IT Forum mostram que essa porta não desapareceu, mas começa a mudar. As vagas de tecnologia da informação (TI) e Dados voltadas a profissionais em início de carreira passaram de 12.827 em 2023 para 15.069 em 2024 e 15.762 em 2025. Nos primeiros oito meses de 2026, foram 9.911 oportunidades.
Ao analisar as vagas cuja senioridade foi identificada, o movimento favorece profissionais mais experientes. As posições de entrada, que incluem júnior, estágio, trainee e outras categorias iniciais, representavam 34,4% das oportunidades em 2023 e passaram para 31,5% em 2026. Sênior e liderança fizeram o caminho contrário, avançando de 38% para 41,4%. O nível pleno permaneceu próximo de 27%.
O movimento se intensificou este ano. Entre janeiro e agosto, as vagas de entrada recuaram cerca de 11% na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto pleno e sênior permaneceram mais estáveis. A Gupy afirma, porém, que 2025 foi o melhor ano da série para profissionais em início de carreira e que o volume de 2026 ainda está acima do registrado em 2023. Um único ano, portanto, não permite afirmar uma tendência de fechamento das oportunidades.
Para o diretor de tecnologia da informação (CIO) e cofundador da Gupy, Robson Ventura, a principal transformação aparece menos na quantidade de vagas e mais no que as empresas esperam dos candidatos.
“A IA faz as duas coisas ao mesmo tempo: reduz a barreira para aprender e eleva a régua de quem seleciona”, afirma.
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IA chega às vagas de entrada em TI
A presença da tecnologia nos requisitos das vagas ajuda a dimensionar essa mudança. Em 2023, apenas 58 oportunidades de entrada em TI e Dados publicadas na Gupy mencionavam inteligência artificial, o equivalente a 0,45% do total. Até agosto de 2026, foram 581, ou 5,9% das oportunidades.
A IA generativa avança ainda mais rapidamente. Menções a tecnologias como ChatGPT, Gemini, OpenAI, modelos de linguagem de grande porte (LLMs) e assistentes de código apareciam em seis vagas de entrada em 2023, ou 0,05%. Nos primeiros oito meses deste ano, chegaram a 158, representando 1,59% das oportunidades.
Ainda é uma parcela pequena, de aproximadamente uma em cada 63 vagas, mas, segundo a Gupy, é o crescimento proporcional mais acelerado entre as competências acompanhadas pela plataforma.
Isso não significa que os fundamentos perderam espaço. SQL aparece em mais de 14% das vagas de entrada em TI, enquanto Python passou de 5% em 2023 para quase 8% em 2026. Cloud computing permanece perto de 7%, e linguagens como Java e JavaScript seguem entre as competências demandadas.
O que começa a aparecer ao lado dessa base é a capacidade de trabalhar com IA. Para profissionais iniciantes, isso não significa desenvolver um modelo do zero. As empresas buscam capacidade de criar bons prompts, revisar e otimizar código com copilotos, automatizar testes e, principalmente, entender e validar aquilo que a máquina entrega.
“A fluência que passa a contar na entrada é de uso crítico, não de desenvolvimento de base, e é aí que a régua vem subindo mais depressa”, diz Ventura.
Menos espaço para o “tarefeiro”
Essa mudança também chega às instituições responsáveis pela formação dos futuros desenvolvedores.
A diretora-acadêmica da SPTech, Vera Goulart, diz que atividades de geração de código anteriormente destinadas a estagiários ou profissionais júnior já podem ser executadas com IA. Isso não significa, segundo ela, que as empresas passaram a esperar que um júnior desempenhe funções de um sênior.
“Ele terá de assumir atividades diferentes na programação, porque a IA já incorporou parte do trabalho que antes era realizado por profissionais em início de carreira”, explica.
A SPTech não pode ser usada como parâmetro para medir a redução das oportunidades de estágio, já que a instituição garante vagas aos estudantes aprovados para o segundo ano. A experiência com empresas parceiras, entretanto, permite acompanhar mudanças nas competências procuradas.
Segundo Vera, uma expressão passou a aparecer com frequência nas conversas com as organizações: AI first. As empresas querem profissionais capazes de pensar em soluções considerando desde o início como a IA pode ser empregada.
As habilidades comportamentais, por sua vez, ganharam ainda mais importância. Comunicação, trabalho em equipe, compreensão do negócio e capacidade de analisar o contexto passam a diferenciar o profissional quando parte da execução pode ser auxiliada por uma máquina.
“Há pouco espaço para o profissional que apenas executa tarefas. A formação não pode se restringir à execução, mas deve preparar esse profissional de maneira mais ampla”, afirma Vera.
Análise crítica e capacidade de contextualização também ganham peso. Afinal, utilizar IA não significa apenas receber uma resposta, mas entender se ela está correta e se faz sentido para determinado projeto.
Experiência ainda importa
Para o technical fellow e sócio do Grupo FCamara, Joel Backschat, a maior dificuldade para entrar no mercado de tecnologia não pode ser explicada apenas pela ascensão da IA.
Ele afirma que o avanço da tecnologia coincidiu com um período de menor disponibilidade de capital, redução de investimentos e retração do mercado. Com menos vagas disponíveis, a competição aumentou e a régua de contratação subiu.
“A régua subiu, mas esse movimento não pode ser atribuído apenas à IA. Ele também está relacionado ao cenário macroeconômico”, afirma.
A IA, entretanto, já permite que determinadas etapas ou projetos sejam realizados por equipes menores. Segundo Backschat, esse ganho não ocorre de forma linear: para transformar ferramentas de IA em produtividade, empresas ainda precisam modificar processos, cultura e a própria organização do trabalho.
Também não é necessariamente o profissional menos experiente quem mais se beneficia da facilidade de gerar código. Na avaliação do executivo, conhecimento acumulado continua sendo uma vantagem para extrair resultados melhores da tecnologia.
“Existe uma percepção de que não seria mais necessário estudar porque a IA consegue executar essas tarefas. Na realidade, ocorre o contrário”, diz.
Um desenvolvedor experiente, diz Backschat, consegue especificar melhor o que deseja, incluir requisitos de arquitetura, privacidade e segurança e identificar problemas na resposta produzida pela máquina. A velocidade de uma IA pode superar a humana, mas isso não significa que a qualidade do resultado seja equivalente sem conhecimento por trás.
O próprio significado de programar, nesse cenário, começa a se deslocar. Arquitetura, design, revisão e capacidade de avaliar o código produzido ganham relevância. Ainda assim, Backschat rejeita a ideia de que saber programar tenha se tornado menos importante.
Para ele, a IA acelerou principalmente a etapa de escrever o código. Conhecer linguagens, estruturas, dependências e limitações continua sendo necessário para avaliar aquilo que a ferramenta produz.
IA avança mais rápido no topo
Os números da Gupy também mostram que a presença da IA aumenta conforme a senioridade:
- Entrada: 5,9% das vagas
- Pleno: 10,7% das oportunidades
- Sênior: 17,6% das vagas
Quando considerada especificamente a IA generativa, os percentuais são 1,6%, 3,9% e 7,6%, respectivamente, na mesma ordem de senioridade.
Os dados são compatíveis com um cenário no qual profissionais mais experientes incorporam cada vez mais IA à rotina, mas não permitem afirmar que seniores estejam simplesmente assumindo tarefas antes destinadas aos juniores.
Outras competências continuam diferenciando os níveis. SQL, por exemplo, aparece em aproximadamente 14% das vagas de entrada, 27% das de pleno e 30% das de sênior. Em cloud, a progressão vai de 7% para 22% e 34%.
A leitura da Gupy é, portanto, de uma elevação da régua em toda a pirâmide, e não de uma fusão entre níveis de experiência.
Também cresce o peso de competências que não se resumem ao domínio técnico. No relatório Panorama da Empregabilidade 2025/2026, da própria companhia, Criatividade e Inovação aparecem em 17,4% das vagas que exigem IA, Comunicação Efetiva em 10,3% e Responsabilidade e Integridade em 10,1%.
Sem juniores, quem serão os seniores?
A transformação traz um problema de longo prazo. Se as empresas conseguirem elevar a produtividade de seus profissionais mais experientes e, com isso, reduzirem continuamente a contratação na base, podem comprometer a formação dos profissionais de que precisarão no futuro.
É um ponto em que as três fontes ouvidas pelo IT Forum convergem.
“Se não houver profissionais júnior sendo formados hoje, quem serão os seniores de amanhã?”, diz Vera.
Na avaliação da diretora-acadêmica, organizações que enxergarem a IA apenas como oportunidade de cortar custos e abandonar programas para profissionais em início de carreira podem colocar em risco sua própria sustentabilidade futura.
Backschat também cita a sucessão como uma razão para continuar investindo na base. Além da necessidade de preparar futuros profissionais experientes, ele afirma que quem está começando pode trazer novas perspectivas, maior abertura a mudanças e capacidade de questionar processos estabelecidos.
A Gupy enxerga o mesmo risco em um horizonte de três a cinco anos. Profissionais plenos e seniores não são formados apenas por treinamento teórico, diz Ventura, mas pela experiência acumulada em projetos, desafios e mentorias nas organizações.
O problema pode ser ainda mais sensível no Brasil. Dados da Brasscom citados pela Gupy apontam que, entre 2019 e 2024, o setor de tecnologia demandou 665 mil profissionais, diante de uma formação de cerca de 464 mil no período anterior, diferença de 30,2% entre demanda e oferta.
A IA, portanto, pode mudar a primeira etapa da carreira sem necessariamente eliminá-la. Para quem pretende começar a programar, a porta permanece aberta, mas atravessá-la passa a exigir mais do que executar tarefas e reproduzir sintaxe.
“Não é que as empresas deixem de precisar de profissionais em início de carreira. Esses profissionais precisarão assumir outras atividades”, resume Vera.
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