
Após seis anos de operação, a Gabriel, startup de segurança que mantém uma rede privada de câmeras inteligentes conectadas às autoridades policiais, atingiu o break-even operacional. O marco ocorre após três meses consecutivos de Ebitda positivo e acompanha uma expansão acelerada, com a companhia ampliando sua atuação de quatro para 45 cidades desde janeiro.
“Antes, se a gente não crescesse, a Gabriel quebrava, porque o custo fixo já estava contratado e o modelo dependia de escala. Agora, crescer virou uma opção”, diz Erick Coser, CEO e cofundador, em entrevista exclusiva ao Startups. Segundo o executivo, a companhia mantém a busca por escala, mas sem a mesma pressão de antes, quando expandir era uma condição para a sustentabilidade do negócio. “A coisa mais importante para a gente é crescimento”, completa.
A mudança dá à empresa liberdade para dosar o ritmo de expansão conforme as condições de mercado, sem depender de novos aportes para sustentar a operação. Antes de atingir o break-even, a startup precisava gerar receita suficiente todos os meses para cobrir seus custos. Com o modelo de assinatura recorrente, a base de contratos se acumula ao longo do tempo, descontados reajustes e cancelamentos, tornando a receita mais previsível.
Como funciona a operação
A Gabriel foi criada em 2020 para atuar na segurança pública com um modelo exclusivamente privado. A empresa instala câmeras, batizadas de Camaleões, em condomínios residenciais, casas e comércios, sempre voltadas para a rua. A soma das câmeras de vários imóveis forma uma malha de vigilância que cobre bairros e cidades inteiras.
Hoje são quase 22 mil câmeras instaladas em cerca de 8 mil prédios, distribuídas pelos estados de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Juntas, elas capturam 4 milhões de leituras de placas de veículos por dia. Os dados são repassados gratuitamente às polícias militares locais, que cruzam as placas com registros de veículos envolvidos em crimes. Quando há uma ocorrência, o sistema gera dois alertas por minuto e consegue despachar uma viatura em cerca de 15 segundos após a passagem do veículo pelo dispositivo.
A Gabriel também apoia investigações de crimes já ocorridos. Segundo a empresa, são 10 ocorrências recebidas por dia, o que já resultou em 802 indiciados, 16 pessoas desaparecidas localizadas e 11 pessoas inocentadas com o uso das imagens como álibi. Erick afirma que um crime de roubo ou furto registrado pela companhia tem sete vezes mais chance de ter desfecho do que a média de São Paulo para o mesmo tipo de ocorrência.
O modelo comercial é baseado em assinatura, com equipamentos em comodato. Erick compara a dinâmica à forma como operadoras de telecomunicações fornecem roteadores e decodificadores de TV. O ticket médio está na casa de R$ 800 por mês, variando de R$ 400 a R$ 20 mil no caso de condomínios-clube com ruas internas. Os contratos duram quatro anos, e a empresa está renovando agora sua primeira safra, firmada em 2022.

O caminho ao break-even
O break-even, de acordo com Erick, é resultado da combinação entre receita recorrente e uma operação altamente automatizada. A Gabriel cresceu 100% em receita no último ano e 200% no ano anterior, mas mantém uma equipe de tamanho semelhante à de 2022, quando a empresa operava em uma escala muito menor.
Essa capacidade de crescer sem ampliar na mesma proporção a estrutura depende da verticalização da tecnologia. A empresa desenvolve internamente o hardware das câmeras e do roteador que as conecta à internet, em parceria com o mesmo fornecedor chinês há seis anos. Segundo Erick, comprar um roteador equivalente pronto custaria o dobro do que a Gabriel paga hoje.
O executivo compara a lógica à da SpaceX: o diferencial não está na tecnologia em si, já disponível em países como China e Israel, mas no custo. A empresa afirma operar por cerca de 1% do custo do sistema público Smart Sampa, entregando metade da capacidade.
A retenção de clientes também reforça a previsibilidade da receita. Na renovação da primeira safra de contratos, firmados em 2022, a Gabriel registra uma taxa líquida de retenção (Net Dollar Retention) de 115%. Isso significa que o aumento dos contratos dos clientes que fazem upgrade de plano mais do que compensa a receita perdida com os que não renovam.
Expansão regional
Recentemente, São Paulo se tornou o maior mercado da Gabriel, superando o Rio de Janeiro, onde a empresa nasceu. Erick atribui a liderança ao tamanho do mercado paulista, mas reconhece que a empresa poderia ter chegado a esse ponto antes. Um erro na liderança comercial no início da operação na capital atrasou em cerca de um ano a consolidação da cultura de vendas da companhia na cidade.
Esse intervalo, segundo o CEO, deu tempo para empresas de facilities — que fazem gestão de portaria e limpeza de condomínios — reagirem e tentarem copiar o modelo de câmeras voltadas para a rua. No Rio de Janeiro, a Gabriel consolidou uma rede densa antes que os concorrentes pudessem reagir, dificultando a entrada de imitadores. Em Belo Horizonte e Vitória, onde entrou mais recentemente, a startup afirma ter repetido a estratégia de lançamento rápido e agressivo utilizada no Rio.
A expansão segue uma lógica de adensamento territorial, e não de pulverização. Erick chama isso de evitar “bater espalhado”: a Gabriel prioriza avançar na fronteira de onde já tem operação, adensando bairro por bairro antes de chegar a regiões mais distantes. Em pontos de grande circulação, como praças e ruas comerciais de bairro, costuma instalar câmeras gratuitamente para gerar familiaridade com a marca antes de negociar contratos com os condomínios da região.
Foi essa lógica que permitiu à empresa sair de quatro cidades no início do ano — Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói e Belo Horizonte — para 45 atualmente, impulsionada sobretudo pela expansão pela Grande São Paulo ao longo de 2026.
Próximos passos
Para o próximo ano, Erick elenca três prioridades. A primeira é manter a expansão geográfica, mas restrita ao Brasil, já que a empresa não tem planos de internacionalização. Hoje, a Gabriel opera com um modelo misto de equipe, que combina escritórios centrais por estado com profissionais dedicados a algumas regiões — caso de Santo André, na Grande São Paulo. Segundo Erick, encontrar um modelo de vendas viável para cidades menores, sem precisar manter uma equipe própria em cada uma delas, é um dos desafios para sustentar o avanço da companhia.
A segunda é avançar sobre novos segmentos do mercado privado, como o projeto batizado de “Bairro Seguro”, uma assinatura compartilhada entre vizinhos de um mesmo bairro de casas. O formato é voltado aos 90% dos brasileiros que, segundo a empresa, não moram em prédios.
A terceira frente é ampliar o uso dos dados captados pela rede de câmeras para além da leitura de placas, identificando características como cor e modelo de veículos e cor das roupas de pedestres. Esses atributos, aponta Erick, podem ajudar em investigações criminais sem a necessidade de reconhecimento facial. A empresa também planeja evoluir seu aplicativo, hoje voltado principalmente a síndicos, para um “super aplicativo” de segurança pessoal direcionado ao morador individual, combinando dados da própria Gabriel com informações de secretarias de segurança pública.
Embora não descarte uma nova rodada de investimento para financiar a expansão, Erick diz que a captação deixou de ser uma condição para a sobrevivência da empresa. “Não precisar levantar dinheiro a qualquer preço me dá tranquilidade de não precisar trazer gente que eu não gostaria de ter como sócio”, afirma.
A startup captou R$ 66 milhões em uma rodada Série A liderada pelo SoftBank em 2021, com participação de Canary, Norte Ventures, Globo Ventures, Indie Capital, QMS Capital, MontLacer Investments, CamelFarm Ventures, Endeavor ScaleUp Ventures e Wayra.
Em 2025, captou mais R$ 60 milhões, divididos em duas frentes. Os R$ 35 milhões em equity foram levantados em uma extensão da rodada liderada por Astella e Qualcomm Ventures, com participação da Globo Ventures e entrada do fundo norte-americano Alter Global. Os outros R$ 25 milhões vieram em dívida, com vencimento em 2029, estruturada como um título lastreado em recebíveis não performados e encarteirado por um grande banco de varejo.
E os M&As?
A Gabriel sinaliza uma mudança na estratégia de fusões e aquisições. Em 2022, a empresa fez sua primeira aquisição ao incorporar a Retina Vision, movimento que o Startups noticiou à época como a abertura de uma nova frente de atuação da companhia na prevenção do crime.
Segundo Erick, porém, a tecnologia adquirida acabou não sendo aproveitada, e a leitura de placas usada atualmente foi desenvolvida internamente, do zero. Para os próximos negócios, a empresa passa a mirar a compra de carteiras de clientes de empresas de facilities que tentaram emular seu modelo e desistiram, em vez da aquisição das companhias inteiras.
Regulação e transparência
Erick diz enxergar “com bons olhos” o aumento do escrutínio regulatório sobre câmeras privadas de segurança, tema que ganhou força após uma CPI das Câmeras na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A comissão investigou irregularidades envolvendo empresas de videomonitoramento em vias públicas e associações de proteção veicular.
“Para mim, o melhor remédio para o abuso de autoridade é a transparência. Se você souber exatamente o que as pessoas estão fazendo, o preço para abusar da autoridade fica muito maior quando você ultrapassa os limites”, afirma Erick.
Segundo o CEO, a empresa prepara uma seção no site com um detalhamento inspirado na “tabela nutricional de privacidade” da Apple na App Store, informando quais dados são coletados, por quanto tempo são retidos e como são compartilhados com o poder público.
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