
Em mais uma “Super Quarta”, o Banco Central e o Federal Reserve decidem neste dia 16 os rumos das políticas monetárias do Brasil e dos Estados Unidos. Mas a expectativa do mercado é de que aconteça hoje um movimento que até pouco tempo seria considerado improvável, com cortes de juros no Brasil, e alta nos EUA.
As apostas são de que o Comitê de Política Monetária (Copom) corte a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, enquanto o Federal Reserve (Fed) eleve os juros na mesma magnitude, levando a taxa dos Fed Funds para a faixa de 3,75% a 4%.
“No passado isso era impensável”, observou Luis Fernando Lopes, sócio e economista-chefe da Pátria, durante o VC Day, promovido pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), que aconteceu no Cubo nesta quarta-feira.
O executivo participou do painel Cenário Macro: Eleições e mercado de alternativos no Brasil, que discutiu a política monetária, entre outras questões que impactam o mercado de venture capital no Brasil.
Na avaliação dele, o movimento representa uma mudança importante em relação aos ciclos eleitorais anteriores, que costumavam vir acompanhados de crises cambiais, inflação elevada e desequilíbrios nas contas de estados e municípios.
“Nada disso está acontecendo. É importante a gente perceber: a falta dessa crise, desse ruído, significaria que a gente avançou bastante”, reconhece.
O painel contou ainda com a participação de Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, e André Maciel, fundador da Volpe Capital.
Para Rafaela, o principal entrave ao crescimento no curto prazo são os juros. O Brasil chegou a um nível de juro real que, na visão da economista, não seria justificado apenas pelo déficit fiscal. O prêmio de risco incorporado às taxas estaria relacionado principalmente à falta de confiança e à incerteza sobre a trajetória das contas públicas.
“Se a gente estabilizar a dívida em 80% a gente pode voltar a ter taxas de juros bem mais baixas do que a gente tem hoje. Muita gente hoje não consegue pensar a Selic em um dígito. Mas uma Selic neutra no Brasil de 7% é suficiente”, defende ela.
Luis Fernando acrescenta que o principal problema não é exatamente o tamanho da dívida, mas a velocidade com que ela cresceu nos últimos anos. Segundo ele, a relação dívida/PIB pode entrar em uma dinâmica mais favorável caso o país consiga combinar juros menores com maior crescimento econômico. O primeiro passo, porém, seria sinalizar uma mudança na condução fiscal.
A expectativa, segundo Rafaela, é que essa correção da política fiscal comece a ser implementada logo após as eleições, independentemente do vencedor.
“Talvez, no curto prazo, o principal impedimento para a gente crescer mais sejam os juros. A gente chegou a um patamar de juros real que há cinco anos a gente não pensava ser possível. A razão está por trás da falta de confiança e essa incerteza, e até mesmo essa ansiedade, acaba se refletindo nos prêmios de risco. Ao mesmo tempo, o câmbio está muito bem comportado, o Brasil tem uma balança comercial muito favorável e uma economia dinâmica. Mas esse equilíbrio de juros real muito alto com fiscal muito expansionista não é sustentável. A gente entende que alguma solução vem pós-eleição. Ano de eleição sempre é ano que se gasta mais, o fiscal não é um tema que entra na pauta de debate, mas ele vem”, aponta.
Um ciclo mais agressivo de cortes nos juros, somado a crescimento econômico, podem ajudar a trazer mais liquidez para o mercado de venture capital, que desde 2022 vem sofrendo com a falta de recursos. Os juros elevados reduziram os aportes na renda variável, o que se refletiu em um fechamento da janela de IPOs na bolsa brasileira – e, com isso, menos reciclagem do capital.
André Maciel descreveu o movimento de retomada do crescimento econômico como uma “espiral positiva”, em que a melhora de determinados indicadores abre espaço para novos investimentos e, consequentemente, para uma expansão maior da atividade.
Nesse sentido, a inteligência artificial foi apontada no painel como uma possível fonte de crescimento estrutural para o Brasil. Para Luis Fernando, do Pátria, a expansão da IA deve aumentar a disputa global por recursos como energia e minerais estratégicos – justamente dois segmentos nos quais o país tem uma posição relevante.
“Estamos numa ponta muito favorável no mundo globalizado em fragmentação e com [um cenário] geopolítico muito ruim”, destacou.
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