
A Anthropic montou discretamente um laboratório físico de biologia na região da Baía de São Francisco, nos Estados Unidos, como parte de sua expansão no setor de ciências da vida e desenvolvimento de fármacos com uso de inteligência artificial (IA). A informação foi confirmada pelo próprio chefe de ciências da vida da empresa em entrevista à Reuters publicada nesta sexta-feira (18).
A iniciativa vai além das simulações computacionais até então conhecidas da empresa. Segundo a Reuters, duas fontes familiarizadas com o assunto confirmaram a existência da estrutura, descrita como um wet lab, ou seja, um espaço para experimentos físicos com materiais biológicos. A Anthropic afirma querer desenvolver tratamentos para doenças raras que a indústria farmacêutica vem negligenciando.
Eric Kauderer-Abrams, chefe de ciências da vida da Anthropic, confirmou a existência do laboratório. “Acreditamos que, para fazer biologia, o teste final ainda é e será por algum tempo o trabalho em laboratório físico”, diz. “Absolutamente estamos fazendo isso hoje, e descreveria nossa abordagem como típica do que se vê na maioria das empresas de biotecnologia, onde há uma parte que realizamos em nossas próprias instalações e uma parte que desenvolvemos com parceiros externos.”
Um porta-voz da companhia acrescentou, no entanto, que o laboratório não se destina especificamente à descoberta de medicamentos, sem dar mais detalhes.
Robótica e automação no laboratório
Uma das metas da Anthropic é usar sua inteligência artificial Claude para comandar unidades robóticas na execução de experimentos científicos com intervenção humana reduzida. A supervisão e o envolvimento humanos continuam sendo considerados essenciais para a segurança, segundo a empresa.
“Estamos nos primeiros momentos do uso de IA para automatizar a execução de trabalho laboratorial”, diz Kauderer-Abrams, “uma área com potencial para promover aceleração significativa em processos muito variados.”
Em agosto de 2026, a Anthropic lançou o Model Hardware Standard, uma especificação que permite à IA operar equipamentos de laboratório. A empresa também disponibiliza ferramentas e serviços de IA para grandes farmacêuticas, entre elas a Genentech (braço da Roche), a Bristol Myers Squibb e a Novo Nordisk.
Expansão e aquisições
A empresa anunciou sua intenção de conduzir programas de desenvolvimento de fármacos em um evento em São Francisco, em junho de 2026. Na ocasião, Kauderer-Abrams disse que a Anthropic atuaria na fase pré-clínica em áreas consideradas pouco atraentes financeiramente pelas empresas tradicionais.
Desde então, a companhia lançou o software Claude Science, adicionou ao seu conselho o presidente-executivo da Novartis, Vas Narasimhan, e adquiriu a startup Coefficient Bio por cerca de US$ 400 milhões em ações, segundo informações da imprensa. A Anthropic confirmou a aquisição, cujo objetivo é desenvolver ferramentas para pesquisa farmacêutica, mas não comentou o valor.
“Nosso objetivo é acelerar o progresso nas ciências da vida por uma ordem de grandeza”, diz uma das vagas de emprego recentemente publicadas pela empresa.
Limites ante a concorrência
A Anthropic enfrenta um dilema com seus próprios clientes do setor farmacêutico. As empresas parceiras podem temer que a Anthropic aprenda com os programas de medicamentos que elas desenvolvem, mesmo que a startup afirme manter os dados de cada cliente isolados.
Para lidar com esse problema de confiança, Kauderer-Abrams diz que a empresa definiu um limite claro; não vai conduzir ensaios clínicos por ora e se concentrará em necessidades que a indústria não atenderia de forma independente.
Leia mais: Instituto Eldorado adquire primeiro computador quântico da IQM na América do Sul
“Não estamos competindo com empresas de farmacêutica e biotecnologia que fazem seu negócio em levar medicamentos ao mercado”, afirma.
A decisão de evitar ensaios clínicos também posiciona a Anthropic longe da etapa mais custosa e incerta do desenvolvimento de um fármaco. Uma vez identificada uma molécula promissora, o caminho até a aprovação de um medicamento pode levar anos de testes em humanos, desafio que a empresa ainda não se dispôs a enfrentar.
Leia o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

