
Em maio de 2024, a água tomou todo o térreo do Instituto Caldeira, num dos episódios mais marcantes da enchente que atingiu Porto Alegre. Foi preciso uma limpeza profunda e uma reconstrução para que o hub voltasse a funcionar. Dois anos depois, a conversa por lá não é mais sobre recuperação. É sobre o que fazer com o espaço que ainda falta ocupar.
Segundo destaca o CEO do hub, Pedro Valério, hoje são 570 empresas vinculadas à comunidade, cerca de 130 delas com escritório dentro do complexo. Uma obra em andamento deve levar esse número a aproximadamente 180 residentes até o fim do ano, com a chegada de mais 50 companhias ao novo prédio, instalado na antiga fábrica de tecidos da Guahyba.
Só esse edifício soma 33 mil metros quadrados, quase 50% a mais que os 22 mil do primeiro, erguido na antiga fábrica das Lojas Renner. Nos últimos meses, nomes como Dell Technologies, IBM e Stefanini já abriram suas salas no prédio Guahyba, compartilhando corredores com nomes mais “cool”, como a gaúcha Noize, clube de assinatura de discos de vinil com mais de dez anos de mercado.
“A gente entendeu que a enchente trouxe a água e também trouxe a atenção. E foi a partir dessa premissa que a gente entendeu: é agora a hora de sentar com as big techs e mostrar o projeto de longo prazo que a gente vem construindo”, afirma Pedro. Segundo ele, relacionamentos que já existiam com Oracle, Nvidia, Salesforce, IBM e Microsoft se acentuaram depois de 2024, e empresas como Vale e iFood, que não habitavam o ecossistema, começaram a mergulhar nesse contexto.
Para bancar essa expansão, há dinheiro carimbado pelas grandes empresas que “apadrinham” o hub e reúnem pesos pesados do ecossistema local, como Agibank, Banrisul, Grupo RBS, Gerdau, Lojas Renner e Panvel, ao lado de multinacionais instaladas no complexo, caso de Dell e Oracle. O plano, divulgado ainda no ano passado, é investir R$ 120 milhões ao longo de cinco anos para modernizar a estrutura.
De acordo com o CEO, a expansão também mudou o tipo de conversa que o Caldeira tem com o mundo. Depois de 2024, o instituto passou a receber mais atenção de empresas, organizações e hubs internacionais interessados em acompanhar a reconstrução do ecossistema gaúcho. Veio uma imersão em Nova York, uma missão à China com 27 empresários gaúchos e acordos de cooperação com três hubs chineses ligados a tecnologia, startups e economia criativa.
Um reflexo dos impactos da enchente de 2024, pautas como segurança hídrica, adaptação climática e regeneração urbana entraram também viraram desafios para o instituto, mas conforme aponta o CEO, tratados como temas de negócio para as startups do hub. “Entre ser lembrada como a cidade que foi devastada pela enchente ou ser a cidade que pode ser case de resiliência climática e de capacidade de resposta, a gente optou pelo segundo caminho”, diz Pedro.
Para saber um pouco mais sobre como o instituto foi impactado pela histórica enchente, o Startups gravou na época um episódio do MVP, em meio ao cenário de reconstrução do local.
Novas réguas
Para completar tudo isso, a régua de inovação deixou de ser apenas tecnológica. A aproximação com empresas de publicidade e indústria criativa, usando espaços do complexo para abrigar obras de artistas e a Bienal do Mercosul, assim como o foco em áreas como robótica e manufatura avançada, mostra um hub que deixou de se definir pelo setor de software e se posiciona como infraestrutura de desenvolvimento econômico do estado.
“A gente acredita que inovação não é somente tecnologia. Inovação é uma lente, é uma maneira de enxergar a realidade, é um jeito de pensar”, explica Pedro. “Um distrito de inovação global só vai ser possível tendo empresas e instituições associadas à nova economia, muito talento e a oportunidade desses talentos conviverem com o ambiente criativo. E aí a arte e a cultura são decisivas.”
A previsão é que o complexo esteja totalmente ampliado e ocupado até 2030, e a demanda por espaço já supera a oferta. O próprio CEO reconhece o risco de correr demais: “O desafio é não acelerar demasiadamente e respeitar que a gente ainda enfrenta nossos desafios internos de recuperação das enchentes.”
Para saber o que vem pela frente para o Caldeira, o que mudou na relação com o ecossistema e como o instituto pretende ocupar novos espaços, tanto no sentido literal quanto no figurado, confira a entrevista completa com Pedro Valério.
Startups — Nos últimos dois anos, o Caldeira não só se reconstruiu como se expandiu. Qual é o balanço que você faz do trabalho do hub neste tempo?
Pedro Valério — Eu diria que o Caldeira é definitivamente antifrágil. A gente conseguiu encontrar benefício no caos. A comunidade entendeu que as enchentes de maio de 2024 foram traumáticas, no sentido literal, um momento que a gente nunca vai esquecer, mas que poderiam ser um divisor de águas para um novo capítulo, em que a gente endereçasse não só a reconstrução e a recuperação, mas principalmente a pavimentação de um futuro. Afinal, que estado a gente quer ser daqui a alguns anos? Que cidade a gente quer ser? Entre ser lembrada como a cidade devastada pela enchente ou ser a cidade que pode virar case de resiliência climática e de capacidade de resposta, a gente optou pelo segundo caminho. Desde setembro de 2024, quando reabrimos a operação, viemos trabalhando incessantemente na ampliação da nossa rede de empresas associadas, no número de escritórios aqui dentro e na diversificação do portfólio de programas, produtos e serviços.
Startups — O plano de expansão do Caldeira já existia antes da enchente. O que esse incidente trouxe de ajuste ou fez o plano ser acelerado?
Pedro Valério — A gente entendeu que a enchente trouxe a água e também trouxe a atenção. Foi a partir dessa premissa que percebemos: é agora a hora de sentar com as big techs e mostrar o projeto de longo prazo que viemos construindo. Relacionamentos que já tínhamos com Oracle, Nvidia, Salesforce, IBM e Microsoft se acentuaram depois das enchentes. Grandes empresas como Vale e iFood, que ainda não habitavam o ecossistema, vieram e começaram a mergulhar nesse contexto. O Caldeira não tem a pretensão de imaginar que o Rio Grande do Sul vai virar o Vale do Silício ou Tel Aviv. A tese aqui é virar a nossa melhor versão, constituir um ambiente pujante, efervescente, que consiga reunir atores do mundo inteiro.
Startups — O instituto é composto tanto de empresas associadas de fora quanto daquelas que efetivamente ocupam o espaço. Como está essa expansão quanto às empresas com operação física no complexo?
Pedro Valério — Hoje a gente está com 570 empresas e organizações associadas ao Caldeira e 140 com escritórios aqui dentro, e temos potencializado a curadoria dessas iniciativas. Abrimos recentemente o laboratório global de design de IA da Dell, uma operação que está aqui junto com o Instituto Eldorado, e o escritório regional da IBM. Mas o que acho legal também é ter o escritório da Miagui, uma empresa maravilhosa do nosso estado que opera globalmente produzindo conteúdo com visão computacional para Netflix, Prime e outras grandes plataformas. Temos a Noize, o maior clube de assinatura de vinil da América Latina, com escritório aqui. E, quando as pessoas perguntam qual é o maior escritório do complexo, hoje é o da AppMax, uma fintech daqui, numa trajetória excepcional de crescimento, que contrata alunos do nosso programa de educação e ajuda a materializar essa ideia de distrito de inovação.
Startups — Nesse crescimento, vocês fizeram movimentos para mostrar que não é só tecnologia. Como a indústria criativa e a arte entraram na pauta do Caldeira?
Pedro Valério — A visão de longo prazo é consolidar aqui um distrito de inovação global. E a gente acredita que inovação não é somente tecnologia. Inovação é uma lente, uma maneira de enxergar a realidade, um jeito de pensar. Para isso, é muito necessária a ampliação de repertórios e a intersecção de diferentes áreas. Um distrito de inovação global só vai ser possível com empresas e instituições associadas à nova economia, alta densidade de talentos e a oportunidade de essas pessoas conviverem com o ambiente criativo. Aí a arte e a cultura são decisivas. A parceria com a Fundação Bienal do Mercosul traz para cá uma galeria que vai ficar no mínimo três anos, com exposições e uma programação forte ligada a entretenimento. Porque não é só nas palestras que a gente cria relacionamento e tem insight. Muitas vezes é no fim do dia, num momento de descontração, ouvindo música, tomando vinho, que se constrói o elo de confiança da comunidade.
Startups — Durante a Semana Caldeira, vocês anunciaram parcerias com Endeavor e inovabra. Como é esse trabalho de rede, e como vocês se movimentam para aproximar os ecossistemas?
Pedro Valério — O Brasil hoje tem picos de excelência inacreditáveis, ambientes muito efervescentes, mas que por muito tempo foram desarticulados. A gente vem construindo uma grande rede, com Cubo, inovabra, Endeavor, Porto Digital, ACATE, a turma do Maravalley e o Instituto 12, no Rio. São pessoas que entendem que o Brasil tem um desafio e uma oportunidade gigantesca no contexto de tecnologia que a gente está vivendo. Quando a maré sobe, sobe para todo mundo, não é um barco só que sobe. A gente quer aprender com todos esses hubs, ajudá-los a ficar mais fortes e aproximar as nossas comunidades. Muito do que fazemos é criar fast track, um canal de comunicação mais fluido, calendários mais bem articulados e intenção de geração de negócio. Como a startup que está aqui se beneficia das pontes que construímos no Brasil e no mundo? Como as grandes empresas daqui se beneficiam das startups que estão dentro desses outros hubs?

Startups — E quanto ao trabalho de trazer mais capital, mais investidores? Como fazer o “pessoal do dinheiro” se aproximar do Caldeira?
Pedro Valério — A gente tem várias frentes. Um projeto bem concreto é o InvestMatch, um programa em parceria com Sebrae, Badesul, BRDE, a Secretaria de Inovação e outros parceiros. A gente ajuda as startups e os empreendedores gaúchos a preparar suas narrativas e seus materiais de investimento, e criou um calendário de atividades em que o Caldeira traz os fundos para cá e faz matchmaking com esses empreendedores. Quando eles têm contato com empreendedores sérios, com projetos competitivos, e observam o que tem aqui de oportunidade, começam a voltar. O InvestMatch já ajudou dezenas de empresas a obter uma porta de acesso ao capital. Além disso, estamos tentando entender como fomentar o investimento anjo, como qualificar a obtenção de crédito e como configurar novos veículos para proporcionar acesso a capital.
Startups — Mesmo depois de sete anos de hub, ainda tem muita gente descobrindo o Caldeira só agora, especialmente fora do estado. Como está esse trabalho de “furar a bolha”?
Pedro Valério — Toda segunda-feira a gente tem uma reunião de equipe em que fazemos um exercício de humildade: pensamos que ninguém conhece nada do que está acontecendo no Rio Grande do Sul, que ninguém sabe onde fica e o que acontece dentro do Caldeira. É por isso que a gente bota tanta intensidade nessa perspectiva. Precisamos fomentar grandes, médios e pequenos eventos, produzir conteúdo, articular conexões, fazer com que as pessoas venham para cá vivenciar um pouco do que acontece no dia a dia. Em média, batemos duas mil pessoas por dia circulando no Caldeira. Em um dos dias da Semana Caldeira, tivemos um recorde histórico, quase seis mil em um único dia. Quando recebo gente de Londres, da China, dos Estados Unidos, e eles falam “não acredito que isso aqui existe”, eles voltam e dizem para outras pessoas: vocês precisam ir para lá.
Startups — E qual é a tese, a motivação por trás de toda essa intensidade?
Pedro Valério — Para além do prédio, o que faz o Caldeira forte é a nossa gente, a rede, a comunidade, essa teia de pessoas que percebem que não é sobre o Caldeira, é sobre o valor que elas são capazes de gerar interagindo dentro dessa plataforma. A gente fala com frequência que o Caldeira não é fim, é meio, é instrumento de fomento. Hubs não são piscinas de bolinha e tobogã, como eu gosto de dizer. Hubs são lugares de negócio, de geração de valor, de criação de eficiência e de conexões. E, como temos uma visão de longo prazo, a gente tem urgência, mas não tem pressa. A criação de ecossistemas de alto impacto demora muitos anos. Não se faz Vale do Silício em cinco anos. São décadas. Essa é a beleza dos fundadores e dos empresários que apoiam a iniciativa: o compromisso de longo prazo.
Startups — Por falar em longo prazo, como está esse plano, essa visão do Caldeira para os próximos anos?
Pedro Valério — A gente fez uma avaliação dos primeiros sete anos, concluímos sete anos de fundação e cinco de portas abertas, projetando até 2030. Ficou muito claro que essa ambição nacional e global, de atrair para cá gente qualificada, com repertório, capital e investimento, é elemento decisivo para a promoção da inovação. O segundo grande pilar é a formação e a capacitação de talentos, pegar os jovens e prepará-los para a nova economia. E o terceiro é o desenho de transformação urbana. O lançamento da praça aqui em frente é um elemento simbólico dessa ambição, que não é só o que acontece da porta para dentro. A gente está olhando para a sociedade e imaginando como contribuir para a cidade que a gente sonha no futuro.
Startups — Como você vê a Semana Caldeira evoluindo?
Pedro Valério — O time do Caldeira é 100% pautado pela execução. A brincadeira aqui dentro é que a quinta edição é muito melhor do que a quarta e muito pior do que a sexta. A intenção é oferecer para a sociedade gaúcha um pouquinho daquilo que acontece no dia a dia aqui dentro, e receber os nossos amigos de fora: são dezenas de delegações internacionais, grupos chineses, europeus, americanos, gente do Brasil inteiro. Por uma semana, a gente vive o mundo aqui em Porto Alegre, e de forma gratuita, que é a “maluquice” disso tudo. Este ano criamos uma dinâmica em que o evento é gratuito, mas, para acessar, você precisa do código de alguém da comunidade. Isso é maravilhoso porque cria uma rede de member get member, com a curadoria da própria comunidade.
Startups — Passada a quinta edição da Semana Caldeira, o que vem pela frente? O que esperar do Caldeira em 2027?
Pedro Valério — A gente tem um plano de investimentos muito robusto para o desenvolvimento do instituto. Em 2027, vamos ter o lançamento de pouco mais de 8 mil metros quadrados a mais. Já em janeiro, lançamos novos escritórios no prédio novo, com mais 3 mil metros, e as empresas já estão confirmadas: AppMax, CMPC e WideLabs, entre outras. Estamos olhando com muita ênfase para a curadoria de empresas, para os investimentos no desenvolvimento da estrutura e, naturalmente, buscando cada vez mais parceiros para ampliar a Semana Caldeira para além dos muros do Instituto, para que a gente consiga se espraiar pela região. Porque, querendo ou não, atividades como essa funcionam como vetores de aceleração do desenvolvimento. É nisso que a gente acredita.
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