
O uso de exames genéticos para tratamentos preventivos ainda não é algo tão difundido. Ainda na parte diagnóstica, se trata de uma tecnologia de alto custo, concentrada em áreas mais críticas como oncologia, por exemplo. Entretanto, uma healthtech brasileira aposta em uma tese diferente para crescer, focando na genômica preventiva e IA para ajudar médicos a descomplicar o assunto.
Fundada no fim de 2023, a Ciera Genomics montou em São Paulo um laboratório que faz genômica, metabolômica, lipidômica e microbioma (bactérias do intestino) dentro de casa, com sequenciamento de nova geração. A cadeia é inteira da empresa, da coleta da amostra até a conduta entregue ao médico.
A tese, porém, não está no equipamento, que ainda gera boa parte da receita do negócio. Está no que acontece depois que o laudo fica pronto. Para Raphael Pelegrino, fundador e CEO da companhia, o diferencial é destrinchar esse volume de dados para médicos que antes não incluíam a camada genômica na análise clínica.
“Exame nutrigenético tem 80 páginas, metabolômica tem 30, microbioma tem 30. O médico que já tem 10 anos de formado tem família, tem outros compromissos, não vai parar pra ficar estudando coisas tão novas. Não é curso de final de semana, são duas ou três pós-graduações”, diz.
O produto resultante desse desafio é o Co-Doctor, lançado no fim de julho. O médico descreve o caso clínico na plataforma (fenótipo, alergias, medicamentos, suplementação), sobe os exames genômicos feitos na Ciera e os bioquímicos de outros laboratórios. A partir disso, a IA cruza tudo e devolve uma leitura contextualizada.
“O sistema que faz a análise é um modelo treinado internamente, alimentado com milhares de arquivos multiômicos, com especialistas internos validando respostas por mais de um ano. Não é algo que dá para jogar no ChatGPT”, dispara o executivo.
Inicialmente, os produtos miravam um público estreito: nutrólogo, endócrino, nutricionista e gastro. Porém, a demanda evoluiu, com mais especialistas querendo análises focadas em suas áreas. “Neurologistas queriam o nutrigenético sem a parte de dermatologia; ginecologistas e obstetras queriam só o recorte de saúde da mulher”, explica o CEO.
Para a Ciera, a saída foi “fatiar” a solução. Em vez de um painel generalista, a empresa passou a montar exames com genes específicos por especialidade, ampliando o público-alvo e abrindo novas linhas de receita.
“Saúde da mulher já está no ar. Em um mês e meio deve sair uma metabolômica para oncologia, não diagnóstica, mas pós-tratamento, para medir o que a quimioterapia comprometeu no metabolismo do paciente”, revela o CEO. “Para os próximos meses, já estão em desenvolvimento painéis de neurossuplementação com recorte em autismo, dermatologia e pediatria.”
Há uma escolha deliberada por trás disso. A Ciera evitou oncologia e doenças raras, justamente os nichos que concentram os grandes laboratórios. “É o mercado onde estão os tubarões. Se eu olhar pra oncologia e doenças raras no Brasil, vou brigar com Fleury, Alta, Dasa. Sempre fugi disso”, afirma. Como exames preditivos não são categorizados como diagnóstico, carregam menos exigência regulatória, atalho relevante para quem quer escalar.
Para levar o Co-Doctor a mais médicos, o plano segue no boca a boca, como tem sido até agora. Raphael também aposta nos recém-formados como público-alvo, mais propensos a incluir essa camada de exames no atendimento. “Essa molecada nova já nasce na IA e tem a ela como ferramenta de apoio”, completa.
Espaço para expandir
Apesar da ambição do mercado que mira, a Ciera não levantou um centavo de capital externo até o momento. Tudo o que está montado saiu do bolso dos sócios, incluindo o laboratório na região da Berrini, avaliado em cerca de US$ 1 milhão.
Segundo Raphael, a empresa usa hoje cerca de 20% da capacidade instalada, e o sequenciador processa mil amostras a cada sete horas. A projeção do CEO é levar cinco anos para ocupar os 100%. “Temos um bom espaço para escalar sem precisar comprar máquinas novas”, pontua.
Quanto ao mercado endereçável, o CEO acredita que o Brasil está apenas engatinhando. Pelo cálculo da companhia, o país faz cerca de mil exames de metabolômica por mês, e os Estados Unidos, que também estão na mira da healthtech, fazem de 25 mil a 30 mil. “Se a gente chegar a 5% desse mercado, já é um baita crescimento”, diz.
Além do Brasil, a healthtech já tem representantes em Portugal e no Paraguai, e o faturamento internacional já responde por 6% a 8% da empresa.
A curva de crescimento projetada pela Ciera é de R$ 12 milhões em 2026, R$ 24 milhões em 2027 e algo entre R$ 30 milhões e R$ 48 milhões em 2028. Pelegrino faz questão de se descolar da margem otimista, sem deixar de lado a confiança no produto. “Prefiro manter os pés no chão”, frisa.
Por falar em confiança para crescer, ainda neste ano a empresa deve fazer uma pequena rodada institucional para trazer dois sócios minoritários e montar um conselho consultivo — um deles é Rodrigo Rocha, da família fundadora da Amil, que ficou como executivo da UnitedHealth em Minnesota depois da aquisição. “Ele é muito bem relacionado no Vale do Silício e deve abrir porta pra gente”, diz o CEO.
O movimento maior fica para o início de 2028, quando a Ciera pretende sentar com VCs americanos, tendo como referência declarada a Tempus AI, que abriu capital na Nasdaq em 2024 avaliada em mais de US$ 6 bilhões, cerca de 12 vezes a receita. “O principal é esticar um pouco mais o faturamento para buscar um cheque maior, abrindo menos da empresa”, resume.
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