
A São e Salvo, startup fundada em janeiro de 2026, quer usar inteligência artificial para mudar a forma como empresas treinam funcionários em segurança do trabalho. A proposta é substituir os chamados treinamentos “de prateleira” por conteúdos personalizados de acordo com a operação, os equipamentos e os procedimentos de cada companhia. A empresa projeta chegar a 100 mil usuários até o fim de 2026.
A tese parte de uma lacuna nos treinamentos obrigatórios das Normas Regulamentadoras (NRs). Segundo Alexandre Wawruk, CEO e fundador da São e Salvo, os cursos tradicionais ensinam o que determina a norma, mas nem sempre mostram ao funcionário como aplicar aquele conhecimento na prática.
“As empresas têm um olhar para custos de segurança, em especial as NRs, de treinamentos muito genéricos, muito obsoletos. A empresa tem um conteúdo programático que a lei exige e faz aquele treinamento, por exemplo, de espaço confinado. O problema é que esse conteúdo é pré-definido para todas as empresas, seja uma empresa de construção civil, de energia ou de agronegócio, mas as situações, os processos e o tipo de trabalho são completamente diferentes entre um setor e outro”, diz.
O negócio nasceu com recursos próprios, e integra o portfólio da Tired Ventures, venture builder comandada por Marina Proença, que é co-fundadora da Favo e foi COO da ClickBus. A estrutura da holding concentra áreas como administração, produto, tecnologia, marketing e growth, permitindo que a São e Salvo opere inicialmente com uma equipe enxuta.
“Quanto mais gente no time, maior a complexidade. Isso acaba tirando bastante o foco da entrega de valor para o cliente. A Tired é uma venture builder que construímos entre quatro pessoas, todos pais de gêmeos, com bastante experiência de mercado. Hoje somos nós quatro trabalhando até que a São e Salvo consiga criar independência, com a ajuda de um time de agentes de IA”, explica Marina.
IA no core da operação
A startup usa IA para adaptar os conteúdos dos treinamentos em segurança do trabalho à realidade de cada cliente. Um treinamento de espaço confinado, por exemplo, pode utilizar imagens do silo, tanque, equipamentos de monitoramento e sistemas de resgate utilizados por determinada companhia, em vez de recorrer a uma situação genérica. A tecnologia também permite incorporar procedimentos internos e até casos reais de acidentes ou quase-acidentes registrados na operação.
A personalização não fica restrita ao conteúdo visual. A plataforma também pode adaptar a linguagem utilizada internamente pelas equipes. Se os funcionários chamam determinado equipamento de “kit” em vez de “equipamento”, por exemplo, essa nomenclatura pode aparecer no treinamento. A ideia é fazer com que o trabalhador reconheça no conteúdo situações que fazem parte do seu cotidiano.
A São e Salvo também leva a IA para dentro da operação depois do treinamento. A plataforma mantém uma base de conhecimento alimentada pelos procedimentos e documentos do próprio time de segurança da empresa. Com isso, o funcionário pode consultar a ferramenta durante uma dúvida e receber uma resposta baseada nas regras daquela operação, em vez de uma orientação genérica.
O modelo também muda o papel do departamento de segurança na produção dos cursos. Em vez de depender integralmente de fornecedores externos, o time interno passa a orientar e validar o material produzido pela IA. “Atualmente, o mercado, além dos vídeos tradicionais de prateleira, acaba por contratar sempre um fornecedor externo. Quase não há funcionários das empresas envolvidos na produção deste material de NR”, afirma Alexandre.
Com cerca de 15 clientes atualmente, a empresa já atende operações de setores como energia, agronegócio, mineração, varejo, logística, transporte marítimo, alimentos e bebidas, construção civil e saneamento. A meta, segundo Alexandre, é fechar o ano com cerca de 30 empresas.
“Alguns já passaram pela fase de piloto e estão mais avançados, enquanto outros ainda estão pilotando. Os contratos são longos, quase sempre de pelo menos dois anos. A nossa meta é chegar a todos os setores de alto e altíssimo risco. Já estamos em operações de médio e alto risco, e queremos ampliar essa presença ao longo do próximo ano”, acrescenta Marina.
O uso de IA também reduz o tempo necessário para atualizar os treinamentos. Se uma companhia troca um equipamento ou altera um procedimento, o conteúdo pode ser reconstruído sem que seja necessário refazer todo o processo tradicional de produção audiovisual. “Com IA, a gente reconstrói o curso em horas, não meses, então o treinamento acompanha o ritmo da operação, em vez de ficar pra trás”, afirma Alexandre.
Outro componente da plataforma é a gestão de conformidade. O sistema acompanha certificados e cronogramas regulatórios e avisa antecipadamente os funcionários sobre treinamentos que estão próximos do vencimento. Segundo Alexandre, esse controle é uma das principais dores das grandes empresas e ainda envolve processos manuais.
A startup também pretende medir a eficácia dos treinamentos por indicadores de segurança, e não apenas por métricas como conclusão do curso ou satisfação dos funcionários. A plataforma já foi estruturada para cruzar os dados de aprendizagem e engajamento com indicadores como frequência de acidentes e afastamentos. “Boa parte do mercado ainda mede treinamento pela nota de satisfação do colaborador”, diz Alexandre. Para ele, o resultado relevante é saber se o treinamento efetivamente produz impacto na operação.
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