
Passado o primeiro turno das Eleições 2026, os candidatos à Presidência da República agora vão começar a se aprofundar em temas que possam ajudar a ganhar votos entre os indecisos. Lula e Flávio Bolsonaro retomam suas campanhas nesta segunda-feira (05), e tudo indica que a briga não será pelo lugar de favorito, mas sim pela menor rejeição entre a população.
Para o ecossistema de startups, alguns temas das campanhas são especialmente importantes, como os incentivos à inovação e ao empreendedorismo, a política fiscal e a taxa de juros. Para ajudar o eleitor a fazer a sua escolha no próximo dia 25 de outubro, o Startups analisou os programas de governo de Lula e Flávio nesses temas. Confira.
Incentivos à inovação
Os dois candidatos colocam inovação e tecnologia como instrumentos de desenvolvimento econômico, mas partem de estratégias diferentes. Lula aposta em uma política industrial mais ativa, com integração entre ciência, tecnologia, inovação, indústria e comércio exterior. O programa prevê a continuidade da Nova Indústria Brasil (NIB), com foco em áreas como inteligência artificial e minerais críticos, além do fortalecimento dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação.
O programa petista também prevê a continuidade do uso de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e de instrumentos de financiamento direcionado, combinados a compras públicas, concessões, regulação e incentivos condicionados a conteúdo local e valor agregado nacional.
Flávio também defende maior apoio à pesquisa e desenvolvimento, mas com uma abordagem mais voltada à iniciativa privada. O programa prevê compras públicas, investimentos em pesquisa, parques tecnológicos, incubadoras e apoio a startups de base tecnológica. Também propõe uma legislação voltada à “liberdade de criar e inovar”, com o objetivo de reduzir entraves regulatórios que possam afastar investimentos.
Soberania tecnológica
A soberania tecnológica é um dos pontos em que os programas mais se aproximam, embora com enfoques diferentes.
Lula propõe uma política de soberania digital que dê ao Brasil capacidade de desenvolver, operar, regular e governar tecnologias estratégicas e infraestruturas críticas. Entre as propostas estão o fortalecimento de empresas brasileiras de IA, investimentos em data centers e serviços de nuvem, supercomputadores desenvolvidos e operados por instituições nacionais e modelos de linguagem em português.
O programa também prevê que novos data centers tenham contrapartidas de conteúdo local e capacidade computacional para o mercado brasileiro, além de investimentos em hardware e software de alto desempenho produzidos no país.
Flávio também defende que o Brasil deixe de ser apenas consumidor de tecnologia. O programa cita a combinação entre energia limpa, minerais críticos e formação de talentos como uma vantagem para produzir tecnologia no país. A proposta inclui elevar a participação brasileira nas patentes de IA e apoiar startups de base tecnológica, parques tecnológicos e incubadoras.
A diferença está no papel atribuído ao Estado. Lula fala em construir uma infraestrutura tecnológica nacional e usar o poder de compra público para induzir o desenvolvimento. Flávio defende o Estado como indutor, mas enfatiza a atração de capital e tecnologia estrangeiros e um ambiente regulatório que não afaste investimentos.
Juros
Nenhum dos dois programas promete uma taxa Selic específica. As propostas, portanto, tratam dos juros principalmente pelas condições econômicas que, segundo os candidatos, poderiam permitir uma redução.
Lula afirma que pretende criar condições para uma redução sustentada das taxas de juros, combinando inflação controlada e responsabilidade fiscal. Para isso, propõe manter o atual arcabouço fiscal, controlar o crescimento do gasto primário, melhorar a eficiência do gasto público e ampliar a justiça tributária.
O programa também prevê o aprofundamento do mercado de capitais, com instrumentos como debêntures de infraestrutura, fundos de investimento em participações e mercado secundário de recebíveis, além da ampliação da participação de investidores institucionais no financiamento de longo prazo.
Flávio faz uma associação mais direta entre dívida pública e juros. O programa afirma que juros menores seriam consequência da organização das contas públicas e estabelece como objetivo estabilizar e depois reduzir a relação entre dívida e PIB, levando os juros para a média internacional e a inflação para o centro da meta.
Política fiscal
Aqui está uma das maiores diferenças entre os dois programas.
Lula pretende manter o arcabouço fiscal criado no atual mandato e afirma que a regra permitiu controlar o crescimento das despesas sem interromper políticas sociais.
A estratégia inclui aumento da arrecadação por meio de justiça tributária, com maior cobrança sobre os mais ricos, além da redução de benefícios fiscais considerados ineficientes. O programa também defende a continuidade da reforma tributária do consumo.
Flávio propõe uma política fiscal mais contracionista. O programa fala em equilíbrio fiscal duradouro, superávits primários, controle de gastos discricionários dos três Poderes e redução da relação dívida/PIB. Também prevê reforma administrativa, revisão de despesas e um “Tesouraço” para reduzir o tamanho da máquina pública.
Na área tributária, a proposta é revisar a reforma do consumo aprovada no atual governo, reduzir o IVA projetado e diminuir impostos sobre produção e consumo. O programa também defende desoneração de exportações e investimentos.
Incentivos ao empreendedorismo
Os dois programas prometem reduzir barreiras para quem quer abrir um negócio, mas novamente com instrumentos diferentes.
Lula trata as micro, pequenas e médias empresas como parte central da política de desenvolvimento. O programa prevê simplificação do ambiente de negócios, ampliação do acesso de pequenas empresas às compras governamentais e continuidade de mecanismos de garantia e crédito.
Também propõe ampliar o acesso das MPMEs a fundos de participação estruturados pelos bancos públicos em parceria com gestores privados. O Brasil Mais Produtivo deverá ser ampliado, com linhas de crédito voltadas à digitalização e ao aumento de produtividade.
Flávio apresenta propostas mais diretamente voltadas à abertura de empresas. Entre elas está o Minha Primeira Empresa, que pretende reduzir a burocracia para formalização, oferecer capacitação e orientação pelo Sistema S e criar uma esteira de crédito e serviços da Caixa.
O programa também prevê crédito para empreender e apoio à internacionalização de pequenas e médias empresas por meio do BNDES e da Apex Brasil. A proposta é combinar essas medidas com redução de tributos e desburocratização.
E as startups?
Lula não dedica um programa específico às startups, mas inclui o ecossistema dentro de uma estratégia mais ampla de política industrial, ciência, tecnologia, IA e apoio às MPMEs.
O programa petista prevê investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento, fortalecimento de empresas brasileiras de tecnologia, compras governamentais e aproximação entre universidades, centros de pesquisa e empresas. Também fala em fundos de participação e crédito para empresas de menor porte.
Flávio cita as startups de forma mais direta. O programa prevê explicitamente apoio às startups de base tecnológica, além da expansão de parques tecnológicos e incubadoras. A estratégia é associada à criação de um ambiente regulatório que favoreça a inovação, à formação de talentos e à aproximação entre universidades e empresas.
No conjunto, portanto, Lula apresenta uma agenda mais baseada na atuação do Estado como financiador, indutor e comprador de tecnologia. Flávio propõe um Estado mais enxuto, com foco em desburocratização, crédito, redução de impostos e criação de condições para que o setor privado invista.
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