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Ademir Piccoli (Imagem: divulgação)

A organização dos dados é o maior gargalo para o avanço da inteligência artificial (IA) no setor público, e a tecnologia deixou de ser área de suporte para se tornar o centro da estratégia das instituições. Essa avaliação é de Ademir Piccoli, CEO do Judiciário Exponencial, que abriu nesta quinta-feira (5) o IT Forum Na Mata CIO, voltado ao público de setor público e cibersegurança.

Piccoli apresentou a palestra “Dados públicos e interoperabilidade na inteligência de dados”, com foco no sistema de justiça brasileiro. “A jornada dos dados é a pauta atual, não é mais uma pauta de tecnologia, é uma pauta de negócio”, afirmou o executivo.

A história da digitalização

Piccoli lembrou que a Lei 11.419, de 2006, criou o marco legal para a migração do papel para o digital e deu início à modernização da Justiça. Segundo ele, a pandemia acelerou o processo: “foram, no mínimo, dez anos de avanço em dois”, com praticamente 100% dos processos digitalizados em 2020 e 2021.

Ele também destacou o Datajud, base nacional do Poder Judiciário que reúne quase 15 bilhões de documentos e 92 tribunais conectados. Antes, as análises dependiam do relatório Justiça em Números, publicado uma vez por ano. Com a plataforma, o acompanhamento passou a ser em tempo real.

Outro exemplo citado foi a Defensoria Pública de São Paulo, que soma 6 milhões de atendimentos virtuais feitos por WhatsApp, que antes exigiam deslocamento até o balcão.

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75 milhões de processos e R$ 800 bilhões parados

O volume de processos segue como desafio central. De acordo com Piccoli, há 75 milhões de processos em estoque, com tempo médio de julgamento de 1.263 dias. “A grande esperança é a inteligência artificial, mas, para a IA ser efetiva, é preciso organizar os dados”, disse.

Piccoli também chamou atenção para os depósitos judiciais: cerca de R$ 800 bilhões aguardam decisão em bancos públicos. Desse total, 10%, equivalentes a R$ 80 bilhões, correspondem a processos já julgados, cujo dinheiro não chegou à economia porque a informação se perdeu, o advogado morreu, há sucessão em andamento ou a parte não foi buscar o valor.

“É duas vezes o orçamento do Bolsa Família. Esse dinheiro, se liberado, geraria emprego e renda na economia. Não se trata de julgar mais processos, mas de resolver os que já foram julgados”, afirmou.

IA e segurança lideram prioridades

Em pesquisa conduzida pelo Judiciário Exponencial com cerca de 300 instituições do ecossistema de justiça, IA e agentes aparecem como principal prioridade de investimento para 2026, com 85% das menções, seguidas por segurança da informação, com 64%. O setor investe cerca de R$ 20 bilhões por ano em tecnologia, e o Tribunal de Justiça de São Paulo tem orçamento próximo de R$ 3 bilhões. O ecossistema reúne 620 mil membros e servidores e mais de R$ 200 bilhões em despesas.

Na avaliação do palestrante, a segurança deixou de ser tema restrito à área técnica. “Hoje segurança não é mais uma prioridade do CISO, é uma prioridade nacional”, afirmou. Piccoli citou casos recentes de sequestro de dados em tribunais, como o do Superior Tribunal de Justiça, e questionou como instituições públicas podem lidar com pedidos de resgate.

Piccoli, que foi presidente da companhia de tecnologia do Rio Grande do Sul e assessor da presidência do Tribunal de Justiça do estado, disse que só conseguiu contratar seguro de responsabilidade para a instituição no último ano, e que o seguro para o CISO como pessoa física é ainda mais raro.

O perigo da pressa

Piccoli criticou a pressa em lançar projetos de IA sem preparar a base. “Todo mundo está na jornada de IA, mas poucos têm paciência para estruturar os dados adequadamente antes”, disse. Ele citou estudos de consultorias que apontam a qualidade e a disponibilidade dos dados como principal barreira para o sucesso da IA em organizações públicas.

Contudo, ele entendeu essa aceleração como consequência da pressão sobre os líderes de tecnologia. Magistrados e promotores, segundo ele, têm desenvolvido as próprias soluções com ferramentas de IA, o que obriga a área de TI a atuar com governança, e não com bloqueio. “A área de TI não pode mais dizer ‘não pode’. Se os líderes de tecnologia não se posicionarem como protagonistas, serão atropelados pela área de negócio. Isso já está acontecendo”, afirmou.

Por fim, Piccoli apontou três pilares essenciais para que agilidade possa ser desenvolvida sem colocar dados em risco: treinamento, governança e formação de liderança. E deixou um recado sobre postura: “Pessoas boas de desculpa não têm mais espaço em nenhuma empresa. Não fez? Assuma, mas cuide de fazer da próxima vez.”

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