
Por Dimas Augusto
Em empresas que crescem rápido, sustentar valores exige escolher, todos os dias, quem a organização decide continuar sendo, mesmo quando isso custa conforto, tempo ou resultado no curto prazo.
Teve um dia, e talvez você já tenha vivido algo parecido, em que fiquei observando as pessoas numa reunião online de equipe. Os olhares. As câmeras habilitadas. As expressões. Quem ouvia, quem mexia no celular, quem entendia os dados apresentados, quem estava ali de verdade e quem não estava.
A empresa ia bem. Números positivos. Crescimento. Reconhecimento. Ainda assim, no meio daquele cenário, surgiu uma pergunta difícil de ignorar: estamos crescendo do jeito certo? Não era uma questão sobre faturamento nem estratégia. Era sobre valores. Sobre o jeito. Sobre aquilo que dizemos acreditar e que só se revela quando a pressão aperta.
Crescer é vitória. Mas crescimento não é neutro. Ele exige escolhas. E escolhas cobram coerência. Cultura organizacional raramente se perde em um grande evento; ela não se rompe de uma vez. Ela se desloca, silenciosamente, quando exceções passam a ser justificáveis, quando atalhos parecem inevitáveis ou quando conversas difíceis são adiadas porque “agora não é o momento”. Pequenas concessões acumulam normalidades.
Existe um conforto perigoso na crença de que cultura forte se sustenta sozinha. Bastaria contratar bem, repetir valores e criar rituais. Na prática, cultura não vive de discurso, ela vive de decisão, principalmente daquelas tomadas quando ninguém está olhando.
Esse tema deixa de ser abstrato quando confrontado com dados. A Gallup indica que apenas 21% dos profissionais globalmente se declaram engajados no trabalho, enquanto o restante permanece desconectado ou desmotivado, um cenário associado a perdas de produtividade que superam US$ 438 bilhões por ano. O próprio estudo aponta queda no engajamento de gestores, justamente quem traduz valores em decisões cotidianas. Lideranças pressionadas tendem a operar em modo sobrevivência e cultura não se sustenta em sobrevivência.
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A PwC reforça essa tensão: quase metade dos profissionais relata aumento significativo de carga de trabalho, e dois terços dizem enfrentar mudanças rápidas demais. Em ambientes de crescimento acelerado, a pergunta deixa de ser filosófica: em que momento exatamente a cultura continuaria se mantendo sozinha?
O enfraquecimento costuma começar em escolhas aparentemente pragmáticas, quando a pressa vira valor, quando promoção por resultado pesa mais que promoção por exemplo, quando delegar significa repassar tarefas sem repassar critérios, ou quando comportamentos inadequados são tolerados porque “entregam”. O que é tolerado por performance acaba institucionalizado por padrão.
O impacto não é apenas emocional. Estudos citados pela McKinsey, com base em pesquisas do MIT, mostram que ambientes percebidos como tóxicos estão entre os principais fatores de desligamento voluntário, muitas vezes acima de salário ou benefícios.
Mas, no fundo, essa discussão não é apenas organizacional, é humana. Pessoas não constroem empresas exclusivamente por retorno financeiro. Constroem porque acreditam em um jeito, porque desejam orgulho no que estão criando, porque querem que família e filhos reconheçam ali reflexos dos próprios valores.
No início, cultura é quase artesanal, presente nas conversas, no exemplo e nas decisões diárias. O crescimento amplia a distância entre intenção e execução. E quando essa distância aumenta, a cultura não desaparece, ela se dilui em simplificações: de processo, de cuidado, de escuta e de coragem. Até que a pergunta retorna, não como estratégia, mas como inquietação pessoal: isso ainda representa quem somos?
Muitas organizações tentam responder reforçando comunicação. Mais frases, símbolos ou rituais. Mas cultura não se repara com narrativa; ela se sustenta com escolha. E sustentar escolhas exige custo: dizer não a oportunidades, bancar decisões impopulares, aceitar ineficiência momentânea para preservar coerência futura, assumir responsabilidade.
Crescer é escolher. Algumas escolhas revelam quem se decide não priorizar: mercado, pessoas ou valores. Com o tempo, alguns sinais se tornam claros. Valores que não aparecem em agendas ou orçamentos viram decoração. Culturas saudáveis dependem de conversas difíceis. Gestores funcionam como sistema operacional cultural e sistemas exaustos falham. O que se normaliza hoje se transforma no legado explicado amanhã.
O maior risco não é perder a cultura. É perdê-la sem perceber. É acordar um dia com uma empresa maior, mais eficiente e vazia de significado. Nesse ponto, a pergunta deixa de ser como crescer e passa a ser outra: o que estamos construindo vai se tornar legado ou apenas escala?
Cultura não se perde no crescimento. Ela se perde nas decisões que ninguém quer discutir. Talvez o próximo passo não seja acelerar, mas pausar, observar as pessoas na próxima reunião e decidir, com honestidade, quem escolhemos continuar sendo.
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