
Nos últimos anos, virou roteiro padrão para o empreendedor brasileiro ambicioso: pegar um voo para São Francisco, montar uma LLC no Delaware e tentar furar a fila do ecossistema mais competitivo – e mais caro – do mundo.
Entendo o raciocínio. O Vale tem capital abundante e redes densas. Mas 2025 mudou o cálculo.
O ambiente político nos EUA tornou a rota americana mais complexa. O visto O-1 exige cada vez mais documentação e tempo de espera. O EB-5 requer um aporte mínimo de US$ 800 mil. A incerteza regulatória criou um ambiente onde founders brasileiros precisam repensar contratações, renovações e planejamento de capital com imprevisibilidade que não existia antes.
Existe outro polo de inovação que está pedindo para ser descoberto por founders latinoamericanos. E quase ninguém está indo.
Os números que poucas pessoas citam
A Suécia tem pouco mais de 10 milhões de habitantes. Menos gente do que a Grande São Paulo.
Mesmo assim, Estocolmo é a cidade com mais unicórnios por habitante do mundo fora do Silicon Valley – mais do que Nova York, mais do que Londres, mais do que qualquer outro hub europeu. É o que mostram dados do Dealroom (agosto de 2025) e do European Investment Bank. Em volume absoluto, o Reino Unido lidera a Europa com cerca de 60 unicórnios – mas com 67 milhões de habitantes. A Alemanha, com 84 milhões, tem cerca de 30 a 40. A França, com 68 milhões, tem entre 26 e 31. O Brasil, com 215 milhões – 20 vezes a população sueca -, tem cerca de 17.
Os nomes falam por si: Spotify, Klarna, Mojang (Minecraft), iZettle, Oatly. E uma nova geração que confirma que não foi sorte: Lovable, a plataforma de “vibe coding” fundada em 2023 e já avaliada em US$ 6,6 bilhões, e Legora, plataforma de IA para escritórios de advocacia que atingiu unicórnio em outubro de 2025 com captação de US$ 150 milhões.
E os ex-founders viraram os próximos investidores: Niklas Adalberth, co-fundador da Klarna, criou o Norrsken. Martin Lorentzon, co-fundador do Spotify, investe via Cervantes Capital. O ciclo virtuoso que o Vale demorou décadas para construir, a Suécia replicou em menos de 20 anos.
O mercado de IPO que ninguém fala
Abrir capital no Brasil é caro, complexo, e o mercado doméstico tem capacidade limitada de absorver IPOs de tecnologia. Muitos founders ficam presos em ativos sem janela de saída clara. Estocolmo resolveu esse problema de uma forma que está chamando atenção global.
Em 2025, a Nasdaq Stockholm foi a maior bolsa da Europa para IPOs – e a quinta maior do mundo. As empresas listadas captaram US$ 7,23 bilhões, com o Verisure respondendo sozinho por US$ 4,26 bilhões, o maior IPO europeu em três anos. No primeiro semestre de 2025, Estocolmo respondeu por 53% de todo o capital captado via IPO no continente – oito vezes o volume de Londres no mesmo período.
O que torna o mercado sueco único não é só o volume – é o modelo. A bolsa de crescimento First North funciona como rampa: empresas menores listam com requisitos acessíveis e transitam para o mercado principal quando estiverem prontas. Liquidez em estágios, algo que os mercados brasileiro e europeu continental raramente oferecem com essa fluidez.
O que a Suécia enxerga no Brasil
Há uma narrativa que circula sobre o Brasil: que o founder brasileiro tem valor porque sobreviveu a um ambiente difícil. Isso é verdade – mas é a metade menos importante da história.
O que o Norte da Europa enxerga no Brasil, mais do que complexidade, é tamanho. O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, com 215 milhões de pessoas e uma classe média que consome tecnologia em escala. Para um founder ou VC sueco, o Brasil não é um mercado difícil a ser tolerado – é uma oportunidade análoga ao que a Índia representa para o ecossistema americano: escala continental, crescimento real e penetração digital acelerada.
Conheço essa dinâmica de dentro. Em 2011, fui parte da equipa fundadora do Bom Negócio no Brasil – o marketplace de classificados construído a partir do modelo do Blocket, o maior site de classificados da Suécia, desenvolvido pela Schibsted. Era literalmente a lógica inversa: uma empresa sueca apostando no Brasil como um dos maiores mercados de expansão do mundo. O Bom Negócio se fundiu com a OLX e se tornou um dos maiores marketplaces da América Latina. O que o ecossistema sueco viu no Brasil em 2011 continua verdadeiro em 2026 – com o mercado significativamente maior e o ecossistema de startups muito mais maduro.
O que ainda falta
Há barreiras reais. A língua, quando o alvo é o mercado local – embora o inglês funcione bem nos hubs de startup. O fuso horário, quando o time está no Brasil. A diferença cultural de ritmo – o ecossistema nórdico valoriza processo e consenso de uma forma que pode frustrar quem está acostumado com a velocidade brasileira.
E há a questão do visto. A Suécia tem o Self-Employed Permit, processado pelo Migrationsverket. O processo existe, mas é mais restritivo na prática do que parece no papel. Comparado à incerteza crescente da rota americana, a equação começa a favorecer quem está disposto a fazer o trabalho de preparação.
Por onde começar
Não existe atalho para entrar num ecossistema novo. O que existe é sequência.
Presença – aparecer onde as conversas acontecem. Eventos como o Slush em Helsinki e a Nasdaq Stockholm Week têm a maior densidade do ecossistema nórdico. Chegar com agenda e visitas a hubs como o Epicenter e o Norrsken House multiplica o retorno exponencialmente.
Estruturas que já existem. As missões organizadas – como as que o Cubo Itaú tem liderado para os países nórdicos, cobertas pelo portal Startups.com.br no final de 2025, ou as chamadas abertas do Centro de Pesquisa e Inovação Sueco-Brasileiro (CISB) – são pontos de entrada com curadoria.
Capital disponível. Fundos como Pale Blue Dot, EQT Ventures e Northzone têm portfólio global e apetite crescente por founders com credenciais em mercados emergentes.
O Vale do Silício continua sendo o Vale do Silício. Este artigo não é um argumento para parar de olhar para lá.
É um argumento para olhar também para o Norte. Um polo de inovação igualmente sério, com mercado de capitais funcionando, menos congestionado, e com uma janela real para quem chegar nos próximos dois ou três anos – antes que a massa crítica feche o ciclo de acesso informal que ainda existe hoje.
Num momento em que a rota americana ficou mais incerta – e mais cara –, o Norte da Europa não é o plano B. Para muitos founders, pode ser o plano certo.
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