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Mateus Grings, SAP, IA no esporte, Alemanha

Quando 72% dos clubes da primeira divisão de futebol de um país utilizam a mesma plataforma de inteligência artificial (IA), a tecnologia deixa de ser diferencial e passa a ser pré-requisito. É essa a realidade da Bundesliga hoje: 13 dos 18 clubes que disputam a elite do futebol alemão em 2026 operam com o SAP Sports One, sistema que centraliza dados de atletas, gestão de performance, saúde, scouting e relacionamento com torcedores.

O retrato mais completo dessa adoção está no Bayern de Munique. Mateus Grings, Sustainability Adoption Facilitator da SAP com quase duas décadas de atuação na empresa, visitou a Allianz Arena e acompanhou de perto como a IA permeia cada etapa da operação do clube, da compra do ingresso pelo aplicativo à análise preditiva de cobranças de pênalti em finais de campeonato.

Da cerveja no intervalo ao chute decisivo

A jornada do torcedor começa antes de entrar no estádio. O aplicativo do Bayern registra a compra do ingresso, as preferências de consumo, os itens adquiridos nas lojas e o histórico de visitas. Na Alemanha, diferentemente do Brasil, é comum que os próprios clubes sejam proprietários das cantinas do estádio, o que amplia o interesse em mapear cada transação com precisão.

“O clube consegue monitorar até a quantidade de litros de cerveja consumidos durante o intervalo de uma partida. Tudo traz insights”, afirma Grings. Esse volume de dados alimenta programas de fidelidade e permite personalizar a experiência do torcedor conforme hábitos individuais de consumo. Quanto mais o fã interage com o clube, mais pontos acumula e mais ofertas recebe.

Dentro de campo, a tecnologia opera em outra camada. O SAP Sports One documenta toda a trajetória de um atleta desde as categorias de base: características técnicas, comportamentais, histórico de lesões, condições dos treinos e variáveis climáticas dos jogos. O objetivo é transformar esse acervo em vantagem competitiva concreta.

O exemplo mais emblemático que Grings traz é o da análise de cobranças de pênalti. A plataforma permite cruzar o histórico geral de um atleta com recortes situacionais específicos: jogos decisivos, partidas em casa, momentos de pressão. “Em jogos decisivos, o padrão de cobrança muda. Esses 10% do histórico total são mais significativos nesse momento do que os 80% restantes”, explica. O dado bruto, sozinho, pode enganar. Contextualizado, orienta a decisão do goleiro.

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Scouting com IA e co-inovação com os clubes

Na área de recrutamento de talentos, a IA já atua de forma mais autônoma. Em projeto experimental desenvolvido com o Hertha Berlin, foi possível solicitar à ferramenta relatórios comparativos entre atletas prospectados, cruzando indicadores objetivos e subjetivos registrados pelos olheiros. O sistema ainda traduz os documentos automaticamente, funcionalidade relevante para grupos que administram clubes em diferentes países.

A maturidade de uso é, segundo Grings, o principal diferencial entre clubes que operam na mesma plataforma. Ter acesso às mesmas ferramentas não nivela os resultados: clubes com maior tempo de adoção chegam a colaborar com o próprio desenvolvimento do produto, sugerindo novas funcionalidades a partir de demandas reais. “Quem utiliza o aparato de ponta a ponta está na frente de uma equipe que usa a tecnologia de forma parcial”, avalia.

Fora da Allianz Arena, o Sports One está presente em outros estádios da Bundesliga, como Bayer Leverkusen, VfB Stuttgart, Eintracht Frankfurt e Wolfsburg, além de clubes tradicionais fora da primeira divisão, como Schalke 04, Hertha Berlin e Hannover 96. O sistema também opera em modalidades além do futebol, inclusive no time de basquete do próprio Bayern, que joga na SAP Garden, em Munique.

Prevenção de lesões como próximo passo

Uma das fronteiras mais promissoras da plataforma está na medicina esportiva. O Sports One documenta treinamentos físicos e táticos, condições de campo e dados biométricos dos atletas, permitindo cruzamentos que podem identificar padrões de lesões antes que elas se manifestem.

“Com esses indicadores bem documentados, é possível tomar decisões mais estratégicas e prevenir ocorrências antes que aconteçam”, pontua Grings. Exames que analisam composição do suor ou gota de sangue já são capazes de indicar níveis de fadiga com precisão; integrados ao histórico longitudinal do atleta, esses dados ganham outro valor.

O mercado brasileiro evolui, mas enfrenta um obstáculo estrutural: a dispersão de soluções. Clubes nacionais costumam adotar ferramentas isoladas para scouting, análise tática, saúde e gestão financeira, sem integração entre elas.

“Da mesma forma que uma empresa organiza seus departamentos num ERP, falta aos clubes concentrar esses dados numa única plataforma”, observa Grings. A chegada de capital estrangeiro por meio das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) pode acelerar essa mudança, já que investidores tendem a exigir maior controle e rastreabilidade da gestão.

A visão que o executivo defende é a de uma operação 360 graus, em que desempenho esportivo, experiência do torcedor e gestão corporativa alimentam o mesmo sistema. “Desempenho esportivo e engajamento do torcedor são variáveis conectadas. Quando a equipe performa bem, o torcedor vai ao estádio e consome mais. As coisas não funcionam separadas”, conclui.

*Esta reportagem integra uma série especial que acompanha como a Copa do Mundo 2026 ultrapassa os gramados e redefine modelos de gestão, tecnologia e negócios.

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