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Leandro de Paula, CTO Latam da Amazon. Foto: Divulgação

A Amazon nunca foi apenas uma empresa de varejo. Ela é, desde o início, um negócio de logística e dados. A verdadeira inovação de Jeff Bezos, fundador da companhia, não foi vender produtos pela internet, mas revolucionar o modo como eles se movem pelo mundo.

Enquanto o mercado tradicionalmente apostava em catálogo e preço, a Amazon percebeu que a velocidade seria o novo diferencial competitivo. Essa obsessão pela entrega rápida pautou toda a sua cultura e tecnologia, fazendo da logística o coração pulsante da companhia. É ela que conecta o clique à experiência física, traduzindo cada decisão em tempo, custo e confiança.

“A inteligência artificial (IA) está presente em todas as etapas operacionais e é fundamental para nossa expansão logística no Brasil”, explica Leandro de Paula, CTO Latam da Amazon. “Desde a escolha do local de cada centro de distribuição até a otimização das rotas de entrega, utilizamos IA para maximizar a velocidade e reduzir emissões.”

Três pilares explicam essa centralidade: tempo, escala e dados. A combinação de inteligência preditiva, infraestrutura física e automação é o que criou a vantagem competitiva da Amazon ao longo das décadas. E, no Brasil, onde a infraestrutura é complexa, esse modelo ganha contornos ainda mais sofisticados. Aqui, a empresa não só aplica tecnologias globais, mas também cria soluções locais que exporta para o resto do mundo.

Desde 2011, a companhia investiu mais de R$ 55 bilhões no Brasil e tem transformado o desafio da geografia e da infraestrutura nacional em um laboratório de inovação logística. “Nosso foco é usar tecnologia para entender profundamente o mercado brasileiro e adaptar nossas soluções às necessidades locais”, afirma De Paula. “A automação e a IA preditiva nos permitem operar com flexibilidade em um país de dimensões continentais e regras fiscais complexas.”

Lógica invisível por trás da velocidade

A redução de 77% no tempo de implantação de novos polos logísticos é apenas o sintoma mais visível de uma reorganização profunda. A Amazon integrou áreas antes isoladas, como tecnologia, operações, transporte, jurídico e até políticas públicas, sob um mesmo sistema inteligente. O resultado é um ecossistema que aprende com cada centro de distribuição, antecipando gargalos e testando automaticamente novos nós da malha.

“Esse ganho foi resultado de um grande projeto estratégico que integrou todas as áreas da empresa para otimizar o processo de lançamento de novos polos, explica o executivo. “Investimos em sistemas flexíveis, capazes de lidar com as diferenças entre estados e tipos de operação, além de testar e validar automaticamente cada novo nó logístico.”

Mas o verdadeiro avanço está na camada invisível de algoritmos. A IA define onde cada armazém deve existir, o caminho que cada pacote vai percorrer e até o momento ideal para bater à porta do cliente. O uso de IA preditiva baseada em dados globais, adaptada para padrões locais, garante que a promessa de entregas no mesmo dia, já realidade em 170 cidades, avance em ritmo acelerado.

“Nosso objetivo é continuar aprimorando a velocidade de todas as entregas no País, garantindo conveniência e eficiência não apenas nos grandes centros urbanos, mas também nas regiões mais afastadas”, reforça o executivo.

Tecnologia global, soluções locais

A Amazon aprendeu que o Brasil não é um país que se traduz com planilhas. Entre leis fiscais fragmentadas e distâncias continentais, padronizar é impossível, mas adaptar é inevitável. Esse passou a ser quase que um mantra por aqui.

Foi dessa compreensão que nasceu o Maestro, sistema criado no Brasil para gerenciar o compliance fiscal da empresa. “O Maestro foi desenvolvido internamente para garantir que todas as operações no Brasil estivessem em conformidade com as regras fiscais”, explica De Paula. “O sucesso foi tão grande que hoje o sistema também gerencia parte do compliance da Amazon em vários países da Europa.”

Essa capacidade de localizar a tecnologia é o que diferencia a Amazon das concorrentes. Enquanto players nativos, como o Mercado Livre, dominam o território com capilaridade regional, a Amazon aposta em sofisticação tecnológica e integração global. “Nosso diferencial é o pioneirismo e o investimento contínuo em IA e machine learning, que estão profundamente enraizados no nosso DNA”, afirma o CTO. “Isso nos permite personalizar a experiência do cliente e otimizar a logística de forma única.”

Corrida pelo tempo e pela experiência

A disputa entre Amazon e Mercado Livre transcende a logística. É uma corrida por soberania da experiência: quem entrega mais rápido, mas também quem entende melhor o consumidor. A Amazon aposta na personalização de ponta, já que a IA que prevê o melhor horário de entrega conforme o padrão de rotina do cliente. É o mesmo motor que decide a sequência das rotas, o estoque e até o layout dos centros de distribuição.

“A experiência do cliente é o centro de tudo que fazemos. Não se trata apenas de velocidade, mas de entender as preferências individuais e adaptar o serviço a elas”, diz De Paula. “Usamos IA para prever o momento ideal de entrega, considerando quando o cliente geralmente está em casa.”

Mas há uma crítica silenciosa embutida nessa eficiência: quanto mais invisível a tecnologia, mais dependente o mercado se torna dela. A automação que acelera entregas também centraliza o poder de decisão em sistemas que poucos compreendem.

Drones, veículos autônomos e robôs de última milha ainda não sobrevoam os céus brasileiros, mas a automação já é onipresente nas esteiras. O foco, por enquanto, está em IA para classificação automática, roteamento inteligente e detecção de defeitos em produtos. “Estamos continuamente inovando para melhorar a experiência do cliente e a eficiência operacional”, explica De Paula. “Nosso foco no Brasil está em tecnologias inteligentes que otimizam rotas e processos dentro dos centros de distribuição.”

A Amazon evita o discurso futurista, mas o faz justamente porque o futuro, em parte, já está implementado. Cada centro de distribuição é um organismo vivo, em que humanos e algoritmos compartilham o trabalho. “Nossa abordagem é desenvolver tecnologias que complementem o trabalho humano, criando novas oportunidades de emprego e eficiência”, diz.

Mapa em constante expansão

Em pouco mais de uma década, a Amazon saltou de 1 milhão para 150 milhões de produtos disponíveis no Brasil, entregando em 100% dos municípios. Por trás dessa escala, há um projeto geopolítico de dados e infraestrutura. A empresa quer não só vender mais, mas redefinir os padrões de expectativa do consumidor brasileiro, um movimento que pressiona todo o ecossistema de varejo a evoluir.

“O Brasil é uma prioridade global para a Amazon há mais de uma década”, afirma De Paula. “Seguiremos investindo fortemente em inovação tecnológica, infraestrutura física e digital, para acelerar a transformação do varejo brasileiro.”

A “nova fronteira”, como define o executivo, é tornar a IA um ativo estratégico da logística nacional, um campo que ainda depende de parcerias públicas, integração multimodal e regulação inteligente. “Estamos animados com o ritmo de inovação no Brasil e continuaremos avaliando quais tecnologias emergentes fazem mais sentido para o mercado local”, conclui.

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