
Em meio ao disputado mercado de contas globais para o segmento de alta renda, a fintech ARQ (antiga DolarApp) quer se destacar focando no core da empresa como proposta de valor. Depois de levantar uma rodada de US$ 70 milhões, a empresa agora mira em ganhar mercado no Brasil apostando em taxas mais baixas, investimentos sem corretagem e cashback direto em dólar – em vez de disputar clientes com lounges em aeroportos e benefícios de viagem, como fazem boa parte dos concorrentes no segmento.
“Benefícios são serviços acessórios. Se depois a gente consegue ter um lounge legal, é bônus. Mas se a proposta de valor inteira está baseada em lounge no aeroporto, esse é um problema”, afirma Leonardo Bernini, diretor-geral do ARQ no Brasil, em entrevista ao Startups.
O aporte captado pela fintech chamou atenção não só pelo tamanho, mas pelos nomes envolvidos. A rodada contou com a participação da Sequoia Capital, do Founders Fund, de Peter Thiel, e da Kaszek, que acompanha a empresa desde o início.
“A gente ficou muito satisfeito com a entrada da Sequoia. Fazia tempo que a gestora não atuava de forma ativa em América Latina. Essa foi uma rodada com muita demanda, e os investidores foram escolhidos com muito cuidado”, destaca Leonardo.
Com os recursos da rodada, o ARQ planeja se tornar o banco do dia a dia dos clientes de alta renda no Brasil. Parte dos esforços para atrair esse público foi direcionado ao lançamento do cartão de crédito internacional Prestige, metalizado, com limite de até US$ 50 mil. Além disso, a fintech oferece opções de investimentos nos Estados Unidos, como ações e ETFs.
“Focamos muito na proposta de valor da conversão com taxas até 10 vezes abaixo do mercado e transações imediatas para atrair a alta renda. Mas, na parte de investimentos, oferecemos taxa zero, sem corretagem, remuneração de 120% do CDI no saldo em reais para os clientes Prestige, além do cartão de crédito, que está disponível apenas para esse grupo de clientes”, explica o executivo.
Stablecoins como infraestrutura, não como marketing
Boa parte dessa eficiência de custos vem do uso de stablecoins como infraestrutura bancária. No entanto, a empresa evita colocar a tecnologia no centro da comunicação com o cliente.
“Construímos a infraestrutura bancária em cima de stablecoins por questão de eficiência operacional. As transações são imediatas e revertemos o ganho para os consumidores. É difícil acreditar que esse não seja o futuro”, diz Leonardo. O executivo, porém, é pragmático sobre a escolha: “Nesse momento, a infra mais eficiente é essa. Se amanhã mudar, mudamos.”
Na prática, o cliente abre uma conta em reais com integração ao Pix e, dentro do app, converte o saldo para dólar ou euro digital. Quem recebe pagamentos em dólar pode usar o cartão para pagar em reais sem nenhuma conversão adicional. Por ser emitido no exterior, o cartão já é isento de IOF.
Brasil como principal aposta
O rebranding de DolarApp para ARQ reflete uma ambição maior do que o nome anterior deixava transparecer. A empresa já havia expandido para o euro e queria se posicionar como solução para o dia a dia, não apenas para quem viaja ou faz remessas. “O nome anterior tornou-se limitador”, explica Leonardo.
Hoje, a fintech opera no México, Colômbia, Argentina e Brasil, com 2 milhões de usuários globais e US$ 10 bilhões em volume anualizado de transações. Mas é no Brasil que a empresa concentra suas maiores ambições. A empresa chegou ao país no início de 2025 e acelerou no segundo semestre. Com a rodada e o rebranding, porém, Leonardo considera este momento a entrada oficial da empresa no mercado brasileiro.
A meta é que o Brasil represente ao menos 50% da operação global em breve, considerando base de usuários, faturamento e volume transacionado.
O contexto favorece essa aposta. Dados da Receita Federal mostram que o número de brasileiros que declaram ativos no exterior mais que triplicou entre 2018 e 2023, saltando de 263,5 mil para 861,1 mil declarações. Em 2025, o país registrou o segundo maior saldo negativo de saída de dólares da história, de US$ 33,3 bilhões.
“Nos últimos anos foram lançadas várias contas digitais que resolviam dores da classe média e média baixa. Sentia falta de uma solução para a alta renda – pessoas com finanças globais, que precisam fazer remessa, que têm laços com pessoas no exterior”, diz o executivo.
O principal desafio agora, admite Leonardo, é menos de produto e mais de presença. “A gente tem uma filosofia muito forte de produto, mas isso acaba gerando um problema de awareness. Acreditamos que o produto fala por si mesmo e acabamos deixando a divulgação um pouco de lado. Parte da rodada será usada para resolver esse problema”, afirma.
Para dar velocidade a esse plano, a empresa conta com um time enxuto de 100 funcionários, distribuídos entre Nova York, Buenos Aires, São Paulo, Cidade do México, Bogotá, Cracóvia e Londres.
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