
Fundada por um brasileiro professor da Universidade de Chicago, a startup Nomo quer ajudar os jovens a reduzirem o tempo que passam nas redes sociais, por meio de uma estratégia que combina incentivos com soluções coletivas. Apesar de ter sede em Los Angeles, na Califórnia, a empresa começou a operar com foco no mercado brasileiro, e agora está ampliando sua atuação nos Estados Unidos e Reino Unido – além de estar testando outros mercados.
Lançada em 2024, a plataforma já tem usuários em mais de 50 países, e vem crescendo principalmente por meio de parcerias firmadas entre a startup e instituições, como escolas públicas.
No Brasil, a Nomo tem uma parceria com a cidade do Rio de Janeiro, que será ampliada para cerca de 500 escolas da rede municipal até agosto. Segundo Leonardo Bursztyn, CEO e fundador da startup, serão anunciadas parcerias com mais três estados do país em breve.
“Quando eu decidi fundar a empresa, eu pensei: se deu certo no Brasil, vai dar certo em qualquer lugar. Agora, com a tese validada, estamos expandindo globalmente. A gente também tem um programa na Inglaterra, que vai expandir para 52 escolas, e alguns programas nos Estados Unidos, que vão ganhar uma escala maior agora no meio do ano”, conta o executivo.
A operação brasileira é comandada por João Vogel, co-fundador da healthtech Cuidas, que foi comprada pela Alice, em 2021.
Da academia para o empreendedorismo
Filho de professores da Universidade de Brasília (UnB), Leonardo Bursztyn também havia imaginado seguir um futuro acadêmico. Depois de se formar e fazer mestrado em Economia na própria UnB e conquistar um PhD em Harvard, ele começou a dar aulas na UCLA, até conquistar o posto de professor de Economia da Universidade de Chicago.
Foi aí que as coisas começaram a mudar. “A academia é uma cadência muito lenta. Você tem estabilidade, é tudo muito previsível. Mas eu estava em um momento da minha carreira em que eu não queria mais só fazer pesquisa. Eu queria gerar soluções e ter um impacto maior”, conta.
A ideia para a Nomo veio da própria pesquisa. Ao longo de quase duas décadas pesquisando economia comportamental, Leonardo se debruçou sobre como o ambiente social molda as decisões humanas. Um dos temas que mais o inquietou foi a relação dos jovens com as redes sociais, e como isso tem impacto na saúde mental e até mesmo na capacidade cognitiva da nova geração.
Em 2025, a Nomo levantou uma rodada de US$ 5,85 milhões com investidores anjo, além de dois fundos ligados à Universidade de Chicago: o Harper Court Ventures, que investe em tecnologias decorrentes de pesquisas feitas na universidade, e o UChicago Medicine Ventures, CVC da Escola de Medicina da universidade.
Também participaram da rodada os fundos brasileiros Positive Ventures, com tese de impacto, e o Valutia.
“Eu queria ter esse embasamento acadêmico com os fundos da universidade. E o fundo da Escola de Medicina investe em soluções de saúde, o que nos deu essa validação na tese de saúde mental da startup”, explica Leonardo.
Como funciona o app
Ao contrário de outros sistemas de redução de tempo de tela, a Nomo não bloqueia aplicativos ou redes sociais. Segundo Leonardo, o bloqueio acaba sendo ineficiente, pois isola o usuário, que no fim das contas busca nas redes sociais um contato com amigos, colegas, familiares e outros usuários. Após anos de pesquisa, ele percebeu que seria fundamental que a solução da Nomo tivesse um apelo ao coletivo.
Por isso, uma das frentes do aplicativo é social, na mesma linha de aplicativos como o GymRats, por exemplo. Ou seja, os usuários competem entre si para ver quem consegue passar menos tempo nas redes socias.
“É um barato, a gente faz essa competição entre os alunos da turma, entre as turmas da escola, e até mesmo entre as escolas. E tem prêmios individuais, como ingressos para o cinema, perfume, tênis. E se a turma vai muito bem, ela ganha prêmios coletivos, como excursões, visitas guiadas a museus, para estimular essa mudança”, conta Leonardo.
A gamificação é uma parte importante do app. Uma das funcionalidades mais populares entre os jovens brasileiros é o “soquinho”: o usuário bate o punho no celular, bloqueia as redes sociais temporariamente e ganha pontos. Nas primeiras duas escolas lançadas no Rio de Janeiro, em uma semana, foram 40 mil soquinhos.
A escolha pelo Brasil como mercado inicial foi estratégica — e tem a ver com desigualdade. Para Leonardo, banir o celular ou limitar o tempo de tela é uma solução que funciona melhor para quem já tem outras opções de atividades e entretenimento.
“Se você fala para uma família rica que seus filhos não podem usar o telefone, os pais arranjam um motorista, levam para o judô. Mas se você é uma família de baixa renda, o telefone é o acesso ao mundo”, argumenta.
Por isso, a Nomo não prega abstinência digital. A parceria com o Duolingo — que doou 3 milhões de assinaturas como prêmios — ilustra essa filosofia: em vez de tirar o celular, o app incentiva a troca do tempo no TikTok, por exemplo, por algo produtivo.
Os números mostram que a abordagem funciona melhor do que proibir. Na primeira semana de operação nas escolas cariocas, 88% dos alunos já estavam no app de forma voluntária. Para comparação, um estudo conduzido por Leonardo sobre o banimento de redes sociais para menores na Austrália mostrou que apenas 25% dos adolescentes pararam de usar as plataformas após a proibição.
Mas a Nomo não mira só os jovens. A startup está desenvolvendo um programa voltado para a terceira idade nos Estados Unidos, em parceria com uma fabricante de wearables de monitoramento de saúde — o nome ainda não foi divulgado. A ideia é avaliar o impacto da redução do tempo de tela em indicadores como qualidade do sono e batimentos cardíacos, expandindo a tese da empresa para além do público adolescente.
A startup também está em conversas com diversas cidades no mundo para garantir uma espécie de passe em transportes públicos e museus como uma opção de premiação. “Nós não somos uma startup focada em parcerias públicas, mas vemos a esfera pública como uma vertical interessante”, observa o fundador.
Rotina de artista
Antes de fundar a Nomo, quando ainda morava em Brasília, Leonardo já havia passado pela experiência de construir algo do zero sem garantia de público. Ele foi um dos fundadores da banda Móveis Coloniais de Acajú, emblemática no cenário indie brasileiro no início dos anos 2000.
A comparação com o empreendedorismo vem naturalmente. “Tem que ir atrás de show, achar patrocínio, convencer as pessoas quando você ainda não tem o público. Tem dias que acha que tá tudo ótimo, tem dias que tá tudo ruim — e você vai crescendo, as coisas vão ficando diferentes”, conta.
O orgulho maior, diz ele, é que a banda sempre se manteve independente. “Foi gerida como uma startup durante muitos anos”, brinca.
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