
A B3 anunciou esta semana a nova versão de sua plataforma de dados ESG, o ESG Workspace. Desenvolvido em parceria com a Atos, o portal permitirá que investidores acessem informações sobre índices de sustentabilidade de empresas brasileiras listadas na bolsa de forma padronizada, e conta com uma inteligência artificial (IA) generativa para que o usuário faça perguntas específicas sobre os documentos da plataforma.
A ideia do projeto é permitir que investidores internos e externos possam identificar riscos e oportunidades de forma mais simples. Além disso, o espaço permitirá que as próprias empresas listadas na B3 meçam e comparem suas performances com outras organizações.
“Esses dados sempre existiram, mas a falta de padronização impossibilitava a comparação de informações. O que fizemos foi uma grande coleta com base em IA para padronizar. Agora você consegue comparar o consumo de energia, por exemplo, em gigajoule, igual para várias organizações. Você escolhe a quantidade de empresas que você quer e vê quem está consumindo mais, e por aí vai”, explica Jéssica Rosani, gerente de sustentabilidade da B3 e uma das idealizadoras do projeto.
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Versão 3.0
Esta não é a primeira versão da solução. Concebido inicialmente em 2022, o ESG Workspace já nasceu como uma plataforma centralizadora de dados ESG, mas no começo operava apenas como um espaço digital de transparência da B3, que divulgava o índice de sustentabilidade empresarial da companhia, o IziB3.
A versão 2.0, lançada dois anos depois, trouxe uma proposta mais colaborativa entre investidores, empresas listadas e academia. Segundo Jéssica, nessa fase os usuários já acessavam os índices das organizações, mas todos os relatórios eram feitos de forma manual, o que tornava o processo de disponibilizar as informações moroso.
“Levávamos cerca de duas semanas para coletar cerca de 80 dados de dez companhias. Queríamos criar um hub, um ambiente colaborativo, para as empresas que queriam prestar contas, mas o processo era bem desafiador”, conta.
Foi nesse momento que a B3 decidiu buscar um parceiro para automatizar o processamento de informações. A parceria com a Atos foi fechada ao final de 2024 e deu início a uma série de etapas para tornar o ESG Workspace uma plataforma funcional.
A primeira delas, de acordo com Pétala Tuy, líder de IA e Machine Learning da Atos na América do Sul, foi implementar um extrator de dados e organizar o banco de dados. “Começamos por algo que pudesse extrair informações dos documentos PDF que empresas enviavam à B3. Essas informações eram colocadas no banco de dados da B3, mas já fomos organizando tudo isso porque uma das maiores preocupações era construir uma base confiável para alimentar a IA depois.”
O objetivo era construir uma base de dados altamente confiável. O processo durou cerca de dois meses e, segundo Pétala, exigiu uma grande equipe de profissionais. O resultado: a coleta de dados passou de duas semanas para uma hora, com mais de 80% de assertividade na informação coletada.
Desde seu lançamento, o portal conta com informações de 82% das empresas listadas na B3, sendo 251 companhias de um total de 306. Não foram consideradas organizações em recuperação judicial e extrajudicial, conforme o índice de negociabilidade de janeiro de 2025. Para construir a solução, foram criados 85 indicadores, com 84 mil pontos de dados coletados.
Com os dados organizados, a próxima etapa foi implementar inteligência artificial. “A informação, estando no banco de dados, não serve de nada se não for utilizada por algum usuário, e foi aí que começamos a pensar na IA”, afirma Pétala. Como a demanda da B3 era por um sistema capaz de fornecer insights e cruzar informações, a Atos optou por uma arquitetura multiagente, que executa partes do processo de forma especializada, prevenindo possíveis alucinações.
A construção dos agentes durou cerca de cinco meses, com os chats ainda operando em fase beta para os usuários finais. “Hoje ainda estamos entendendo qual é o padrão de uso do cliente final da B3. Treinamos o chatbot com base no nosso entendimento e no da B3, mas agora vamos ver quais tipos de perguntas os clientes costumam fazer para validar esse padrão”, explica Pétala.
Tecnologia brasileira
Apesar de ser inspirada em plataformas de outras bolsas de valores, como a Nasdaq, esta é a primeira solução do gênero desenvolvida com parâmetros adaptados à realidade brasileira, o que, segundo Jéssica, permite que as companhias nacionais sejam avaliadas de forma mais justa e facilita o investimento externo e interno.
“Temos leis que são diferentes e, por consequência, indicadores diferentes de mercados como o europeu ou o americano. Muitas vezes a empresa acaba não indo bem em um índice externo porque a avaliação não está condizente com o que é aplicado no Brasil. Agora conseguimos ajudar com isso.”
Além disso, com o novo chat presente na plataforma, investidores externos poderão obter dados antes disponíveis apenas em português, o que dificultava aportes estrangeiros. Para Daniel López, VP de Operações da Atos na América do Sul, adaptar soluções à realidade local é etapa indispensável em qualquer projeto desenvolvido no país. “Ter uma solução nativa, nacional, criada com todo o arcabouço e as idiossincrasias brasileiras é um passo enorme para o país”, disse ao IT Forum.
Próximos passos
Apesar de já registrar engajamento entre empresas e investidores, a B3 pretende ampliar a plataforma. O próximo passo é que o ESG Workspace passe a incluir, ainda este ano, empresas não listadas na bolsa. “Já temos 3.700 usuários ativos desde o lançamento, mas queremos começar um engajamento com esse público das não listadas também, para que façam parte desse ecossistema colaborativo”, declarou Jéssica.
Durante o evento de lançamento, realizado na sede da Atos em São Paulo, o CEO da companhia, Nelson Campelo, reforçou a continuidade da parceria com a B3. “Essa parceria tem tudo para ser fortalecida, ainda mais quando a nossa transição com a Semantix for completada. Estamos chegando ao mercado com um posicionamento ainda mais forte e dinâmico”, afirmou.
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