
O Brasil figura entre os maiores mercados consumidores de tecnologia do mundo. Ainda assim, continua distante de ser reconhecido como um polo global de inovação. O Índice Global de Inovação (IGI) 2025, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), indica que o Brasil ocupa o 52º lugar entre 139 países avaliados.
Por aqui, as subsidiárias das big techs operam majoritariamente como estruturas comerciais, voltadas a vendas e marketing, enquanto os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) permanecem modestos diante do potencial do País.
A Lenovo é uma das poucas exceções que insistem em transformar o discurso em prática. Desde 2012, a companhia já investiu R$ 950 milhões em P&D no Brasil. Apenas entre 2019 e 2024, foram R$ 125 milhões aplicados no laboratório de Indaiatuba (SP). O centro é hoje um dos pilares de inovação da empresa fora da China, responsável por desenvolver tecnologias que já estão embarcadas em mais de 800 milhões de PCs Lenovo em todo o mundo.
Na fábrica de Indaiatuba, a Lenovo mantém uma infraestrutura de ponta dedicada ao desenvolvimento de soluções de inteligência artificial (IA), automação e novos conceitos de design. Ao todo, 36 projetos de P&D estão em andamento no País neste ano, entre eles o TRAdA, plataforma de IA criada em parceria com o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (InCor).
O sistema combina dispositivos de internet das coisas (IoT) vestíveis e algoritmos de inteligência artificial para identificar eventos de arritmia cardíaca em tempo real, um exemplo de como inovação e impacto social podem caminhar juntos. Em 2025, a solução começou a ser testada também em atletas de alto rendimento, em um projeto piloto com o time Primavera SAF, de Indaiatuba, voltado à saúde e segurança esportiva.
Outro caso de inovação “made in Brazil” é a Karakuri, sistema de automação que deu origem ao Sushi Box, usado hoje em outras fábricas da Lenovo pelo mundo. A solução organiza automaticamente os materiais necessários para a montagem de equipamentos, otimizando o processo produtivo e reduzindo desperdícios.
Entre burocracia e talento
Apesar de avanços pontuais, o país ainda enfrenta uma série de barreiras para consolidar um ecossistema robusto de inovação. “O principal desafio é o baixo investimento em ciência e tecnologia em relação ao PIB, muito inferior ao das economias líderes”, observa Hildebrando Lima, diretor de P&D da Lenovo Brasil.
Além disso, burocracia, carga tributária elevada e custos altos de operação atrasam pesquisas e dificultam a importação de insumos. A competição acirrada por talentos especializados em áreas críticas, como IA, segurança cibernética e engenharia de hardware, também é um entrave.
“Superar esses obstáculos exige políticas públicas consistentes, incentivos à inovação e maior integração entre empresas, universidades e centros de pesquisa”, completa Lima.
A dependência de tecnologias importadas, segundo o executivo, é um risco concreto à soberania tecnológica brasileira. “O desafio não é apenas produzir tudo localmente, mas construir uma base sólida de conhecimento e capacidade de desenvolvimento aqui”, afirma.
Para a Lenovo, soberania significa autonomia para adaptar e evoluir soluções globais de acordo com as necessidades locais, algo que o Brasil tem potencial para alcançar. A empresa vem apostando em transferência de conhecimento e colaborações acadêmicas, como o programa de residência em Segurança Cibernética desenvolvido com a Universidade Federal do Ceará, que capacita profissionais para atuar em instituições públicas e privadas.
Brasil no mapa global da inovação da Lenovo
Globalmente, a Lenovo investiu US$ 2,02 bilhões em P&D no ciclo 2023/2024, com mais de 16 mil profissionais dedicados à pesquisa. No Brasil, a operação envolve 79 colaboradores diretos, 10 parceiros estratégicos e 512 profissionais em parcerias com centros de P&D distribuídos por Manaus, Fortaleza, Recife, Brasília, Campinas, Sorocaba, Florianópolis e São Paulo.
Esse esforço já começa a gerar frutos. Já são 51 patentes em andamento no País e soluções criadas aqui ganham o mundo, consolidando o Brasil como um hub de relevância crescente na estratégia global da empresa. “Temos um time altamente qualificado, criativo e comprometido. O próximo salto tecnológico pode, sim, começar daqui”, observa Lima.
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