
O mercado de venture capital amadureceu bastante no Brasil nos últimos anos, com empresas alcançando ciclos completos e, por sua vez, gerando novas empresas. Para Arjuna Costa, sócio-fundador da Flourish Ventures, os empreendedores brasileiros estão cada vez mais ambiciosos e dispostos a competir globalmente.
Em entrevista ao Startups durante o VC Day, nesta quarta-feira (16) ele diz estar observando no Brasil o surgimento de uma dinâmica conhecida no Vale do Silício como “máfia”: profissionais que passam por startups de alto crescimento, acumulam experiência e, depois, deixam essas empresas para fundar seus próprios negócios.
“No Vale do Silício, as pessoas falam em máfia do PayPal. Aqui no Brasil e no México está começando a surgir essa próxima geração. A máfia do Guiabolso, a máfia do Rappi, a máfia do Nubank. É esse fenômeno de gerações sucessivas de empresas: jovens que aprendem dentro de uma empresa em crescimento, chegam a um ponto em que dizem: tenho uma ideia e posso fazer sozinho. E têm a confiança de já ter visto essa jornada de perto. É quando o ecossistema realmente decola. E isso está acontecendo no Brasil mais do que em qualquer outra região da América Latina”, observa.
Investindo no Brasil desde 2014, a Flourish viu esse movimento acontecer até mesmo no seu portfólio. A gestora fez sucessivos investimentos no Guiabolso, vendido para o PicPay em 2021. Depois disso, um dos fundadores criou a Kamino, que também se tornou investida da Flourish.
A plataforma de gestão financeira para empresas de médio porte levantou uma rodada de R$ 54 milhões, co-liderada pela Flourish e Quona Capital, em setembro do ano passado.
Fundada oficialmente em 2019, a Flourish nasceu a partir de um spin-off da área de investimentos em fintechs da Omidyar Network, organização filantrópica criada pelo bilionário Pierre Omidyar, fundador do eBay. A casa tem um olhar especial para os mercados emergentes, como América Latina, Ásia e África – que, segundo Arjuna, correspondem a cerca de 50% do portfólio. Na América Latina, o Brasil é o maior mercado.
“O fato de termos um único financiador nos dá uma abordagem e uma flexibilidade muito diferentes para pensar em alocação de capital pelo mundo, porque podemos ser mais pacientes e atravessar ciclos mais longos na América Latina e na Ásia”, explica o investidor.
Para ele, esses mercados têm oportunidades em soluções locais para dores locais, com potencial de resolver problemas reais da população. Ele diz que o Brasil se compara a mercados mais maduros, como Estados Unidos, em termos de talentos e, mais recentemente, do grau de ambição dos empreendedores.
“Eles já estão começando a pensar grande. Os fundadores com quem converso têm essa ideia de que vão reconstruir o sistema e torná-lo melhor. Acho que a qualidade e a ambição dos empreendedores são comparáveis a qualquer lugar do mundo. O que pode limitar isso são algumas deficiências do ambiente de apoio ao empreendedorismo, que ainda é mais escasso aqui”, diz.
O investidor ressalta, porém, que o ambiente empreendedor no Brasil tende a melhorar conforme esse mercado amadurece. O desafio, de acordo com Arjuna, é converter fundos globais oportunistas em presença mais sistemática, e fazer com que os que já estão aqui aumentem sua alocação e seu comprometimento com o Brasil.
Para ele, faltam investidores em mais etapas dos estágios de amadurecimento das startups. No Brasil, a maior parte dos fundos atua no early stage, fazendo com que as startups mais maduras acabem tendo que abrir operações no exterior para levantar recursos com fundos internacionais a partir da Série B, por exemplo.
Apesar disso, Arjuna destaca que o Brasil tem vantagens, especialmente no segmento que a Flourish atua, de serviços financeiros. “Em termos de capital e de perspectiva de IPOs nos últimos anos, os EUA ainda são mais sofisticados nessas duas frentes. Mas, olhando só para serviços financeiros, a qualidade dos empreendedores, a sofisticação do regulador, a infraestrutura digital robusta para serviços financeiros (Pix, open finance) e o nível de digitalização de dados públicos no país são impressionantes”.
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