
O Brasil pode perder espaço na corrida por infraestrutura de inteligência artificial na América Latina se não avançar em ajustes regulatórios e fiscais. A avaliação foi compartilhada por executivos durante o Capacity LATAM 2026, que discutiram o ritmo de expansão dos data centers na região.
O debate se concentrou menos na evolução da tecnologia e mais na capacidade de os países sustentarem o crescimento da demanda por processamento de dados. Em um cenário de expansão acelerada da inteligência artificial, o principal desafio passa a ser físico e regulatório.
Disputa por data centers ganha escala
A América Latina entrou no radar de investimentos em infraestrutura digital, impulsionada pela demanda por inteligência artificial, serviços em nuvem e processamento em tempo real.
Nesse contexto, cidades como Rio de Janeiro, Campinas, Santiago e Querétaro aparecem como candidatas a receber novos projetos de grande porte, especialmente campi de data centers com alta densidade energética.
Um dos exemplos citados no evento é um projeto em Campinas, com área prevista de 1 milhão de metros quadrados, capacidade inicial de 300 MW e potencial de expansão até 1 GW. O porte coloca o Brasil na disputa por investimentos de escala global, mas também expõe a complexidade para viabilizar esse tipo de iniciativa.
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Energia garante vantagem, mas não resolve
A disponibilidade de energia, sobretudo de fontes renováveis, é apontada como um dos principais diferenciais do Brasil na atração de data centers.
No entanto, executivos destacam que essa vantagem não é suficiente para garantir a execução dos projetos. O ambiente regulatório e o tempo de aprovação de licenças seguem como entraves relevantes.
O adiamento da renovação do Reidi, regime que reduz a carga tributária para projetos de infraestrutura, foi citado como um dos principais pontos de atenção para investidores.
Sem previsibilidade sobre incentivos e custos, parte dos projetos pode ser direcionada a outros mercados da região, com processos mais rápidos.
Pressão por velocidade
A velocidade de execução se tornou um fator decisivo na escolha de onde investir. Durante o painel, foi citado o exemplo do México, onde um site de data center foi entregue em cerca de dez meses.
A comparação reforça a diferença de ritmo em relação ao Brasil, onde projetos semelhantes enfrentam prazos mais longos devido a etapas regulatórias e burocráticas.
Elena Winters, vice-presidente de negócios internacionais da Elea Data Centers, afirma que o desenvolvimento de projetos de IA depende de coordenação entre diferentes frentes. “Precisamos manter nossa competitividade. Vimos a Índia aprovar recentemente incentivos fiscais de longo prazo, e esse é o tipo de horizonte que o mercado busca”, diz.
Risco de descompasso
A combinação entre crescimento da demanda e limitações estruturais levanta preocupações sobre a capacidade futura da região.
Ivo Ivanov, CEO global da DE-CIX, reforçaram que a infraestrutura local será determinante para sustentar a próxima fase da inteligência artificial. “É sobre construir uma infraestrutura em que o dado brasileiro seja processado localmente. O dado brasileiro tem que ser treinado no Brasil”, afirma.
Sem ajustes, o Brasil corre o risco de ver sua vantagem competitiva, baseada em energia e escala de mercado, ser neutralizada pela dificuldade de execução.
Janela aberta, mas condicionada
O Capacity LATAM 2026 indica que o Brasil segue como um dos principais candidatos a liderar a infraestrutura de IA na América Latina. No entanto, essa posição depende menos do potencial e mais da capacidade de implementação.
A disputa por investimentos já está em curso, e a velocidade de resposta tende a definir quais países vão concentrar os próximos ciclos de expansão da infraestrutura digital.
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