
Quando Alberto Zafani, head do Google Workspace no Brasil, apresentou os resultados de dois estudos sobre inteligência artificial durante o Google Cloud Summit Brasil nesta quarta-feira (10), ficou evidente um cenário que mistura pioneirismo e preocupação. Os brasileiros estão na vanguarda mundial do uso de IA no trabalho, mas suas empresas ainda não conseguem acompanhar essa demanda.
O primeiro dado impressiona: 74% dos profissionais brasileiros já utilizam assistentes de IA em suas atividades profissionais – índice bem superior aos 64% da média latino-americana. Mas há um porém significativo: 47% deles estão conscientes de que essa prática pode trazer riscos para as empresas onde trabalham.
“No estudo, podemos observar como a relação do brasileiro com os assistentes de IA têm sido positiva, provocando uma proatividade em usar essas tecnologias. Ao mesmo tempo, existe uma oportunidade que não está sendo aproveitada por parte das organizações que é promover essa adoção de forma segura e organizada em prol dos seus próprios negócios”, explica Zafani.
O problema está no que os especialistas chamam de “shadow AI” – funcionários trazendo suas próprias ferramentas de inteligência artificial para o ambiente corporativo. Durante a coletiva, Zafani mencionou que está surgindo até um termo em inglês para isso: “Bring Your Own AI” (traga sua própria IA). A maioria utiliza soluções desenvolvidas para consumo pessoal, não ferramentas corporativas apropriadas.
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Os brasileiros usam IA principalmente para análise de dados (57%), busca por informações (55%), revisar e traduzir textos ou emails (55%) e criar textos com linguagem clara (53%). Identificam benefícios em velocidade (54%), qualidade (55%) e aplicação (47%). Curiosamente, 45% se sentem mais seguros usando seus assistentes pessoais do que as ferramentas fornecidas pelas empresas.
A nova era dos agentes inteligentes
Enquanto os funcionários improvisam com ferramentas pessoais, as empresas brasileiras estão rapidamente adotando uma tecnologia mais sofisticada: os agentes de IA. Esses sistemas são modelos especializados que podem planejar, raciocinar e executar tarefas de forma independente, sem necessidade constante de intervenção humana.
“Esses apontamentos nos mostram que chegamos ao que chamamos de Agentic Era”, afirma Fernanda Jolo, diretora de engenharia de clientes de IA para América Latina do Google Cloud. No Brasil, 62% dos executivos indicaram que suas empresas já aproveitam esses agentes em toda a organização – superando os 52% globais.
Os resultados são impressionantes. Entre as empresas que já adotaram amplamente os agentes de IA, 93% obtêm retorno sobre investimento em pelo menos um caso de uso, contra 79% da média geral. Mais surpreendente ainda: 53% das organizações no Brasil e México relataram aumentos anuais de receita entre 6% e 10% resultantes do uso da tecnologia.
Fernanda destacou que 41% dos executivos reportaram que a produtividade individual dobrou ou mais que dobrou com as novas soluções, principalmente na área de TI. “Quando a gente vê o volume, é muito expressivo”, observou durante a apresentação.
Os exemplos práticos compartilhados durante a coletiva ilustram esse impacto. A Casa Bahia usou IA para enriquecer descrições de produtos com base em manuais técnicos, melhorando não apenas a eficiência, mas também os resultados de vendas. A SAMI criou agentes específicos como o criativamente batizado “Liberador de Din Din”, que automatiza cálculos para liberação de orçamentos.
Um caso aparentemente simples, mas revelador, foi o de um executivo que fazia análises de performance com 12 subordinados diretos. Antes, ele gastava 3 a 4 horas montando relatórios trimestrais após cada reunião. Com IA, a reunião é gravada, o resumo sai automaticamente, e ele gasta apenas 10 a 15 minutos para revisão. “Você pega quanto custa um executivo desse para uma empresa, quanto que ele salva de horas, aí o ROI está feito”, calculou Zafani.
O futuro já chegou
A pesquisa revela que dominar o uso de assistentes de IA tornou-se uma prioridade equivalente a aprender um novo idioma. Para 32% dos brasileiros, essa é uma meta para os próximos dois a cinco anos – exatamente o mesmo percentual que considera prioritário aprender outro idioma.
Atualmente, 47% dos brasileiros buscam conhecimento sobre IA de forma autodidata através de pesquisas na internet, superando os 43% da média latino-americana. Essa proatividade para autoaprendizado reflete o desejo de domínio sobre a tecnologia que já faz parte do cotidiano profissional.
Os estudos também revelaram mudanças nos modelos de trabalho. Apesar de 60% das empresas brasileiras adotarem modelo presencial, 93% dos profissionais demonstram alta satisfação com o modelo híbrido flexível. Mais da metade (56%) está disposta a mudar de emprego para ter o modelo de trabalho desejado – um sinal de que as empresas precisam se adaptar não apenas à IA, mas também às novas expectativas dos funcionários.
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