Skip to main content

A imagem mostra uma pessoa vestindo um uniforme de trabalho azul com detalhes claros e usando um capacete de segurança amarelo. A pessoa segura um tablet na mão, sugerindo inspeção ou monitoramento. Ao fundo, há estruturas metálicas grandes, possivelmente parte de um maquinário industrial ou equipamento de construção, com cabos e uma grua visível. O cenário é externo, com céu nublado, indicando um ambiente de obra ou instalação industrial. (mineração)

A mineração brasileira vive um momento de forte expansão. No terceiro trimestre de 2025, o setor registrou faturamento de R$ 76,2 bilhões, um crescimento de 34% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). É um resultado que reflete a capacidade do setor de se renovar tecnologicamente. Mas essa mesma transformação que aumenta eficiência também amplia, de forma acelerada, os riscos cibernéticos que atingem diretamente a continuidade operacional.

A mineração moderna não é mais um conjunto isolado de máquinas pesadas. Ela depende de caminhões autônomos, sistemas de ventilação inteligentes, plantas de beneficiamento digitalizadas, sensores distribuídos e centros de controle remoto que, frequentemente, estão localizados a centenas de quilômetros do local da operação. Essa interdependência entre sistemas industriais e redes corporativas cria um ambiente OT altamente conectado e, portanto, altamente exposto.

O ponto crítico é que o setor reúne características que tornam qualquer incidente cibernético especialmente grave. Quando um caminhão autônomo perde comunicação, não há apenas um problema técnico: há risco à vida. Quando um sistema de ventilação subterrânea falha por causa de um malware simples, o impacto é imediato e humano. Quando uma planta de beneficiamento é paralisada por ransomware, o resultado são perdas multimilionárias, descumprimento de contratos e danos reputacionais que se estendem por semanas.

Casos realistas já ilustram essa vulnerabilidade. Em um deles, um fornecedor terceirizado teve suas credenciais comprometidas, permitindo que invasores acessassem remotamente o sistema de britagem de uma mineradora. Basta uma brecha para provocar dias de interrupção, multas contratuais e atraso em embarques internacionais.

Em outro cenário, uma mina que ainda operava com sistemas OT legados teve que evacuar trabalhadores após a paralisação inesperada do sistema de ventilação, tudo causado por um malware propagado por USB. Em ambos os casos, a porta de entrada foi simples; o impacto, gigantesco.

Por que isso acontece? Porque a mineração compartilha, com outros setores críticos, elementos que aumentam a atratividade para atacantes: ambientes remotos e de difícil supervisão, conectividade crescente sem segmentação adequada, cadeias de fornecedores extensas e muito heterogêneas, equipamentos legados sem proteção nativa e uma janela de manutenção extremamente limitada. É um cenário que se repete em diversas indústrias, mas que na mineração ganha uma dimensão ampliada pela dependência operacional contínua.

Leia mais: Série Inovadores pelo Mundo: “O brasileiro precisa descobrir o quão bom ele é”, diz vice-presidente da Ericsson

A resposta passa, inevitavelmente, pela adoção de frameworks maduros como a IEC 62443, hoje a principal referência mundial em segurança de sistemas industriais. Essa norma oferece um caminho estruturado para que empresas possam avaliar riscos, definir níveis de segurança adequados às suas zonas operacionais, exigir componentes desenvolvidos com segurança por design e, sobretudo, criar uma governança clara para ambientes OT. Ela ajuda a transformar a segurança em disciplina, e não em reação pontual, ao integrar operação, engenharia e tecnologia sob uma mesma lógica.

Mas nenhuma norma funciona se a organização não tiver visibilidade do que está realmente conectado à sua rede. Ainda é comum encontrar minas que não sabem quantos dispositivos estão ativos, quais estão desatualizados ou como estão se comunicando.

Sem essa visão, qualquer tentativa de proteção se torna fragmentada. Da mesma forma, monitoramento contínuo, gestão rigorosa de acessos e integração entre times de TI e OT deixam de ser boas práticas e passam a ser pré-requisitos para evitar que uma intrusão se transforme em interrupção.

Outro aspecto que deve ganhar protagonismo é a governança. Em muitas organizações, a responsabilidade pela segurança dos sistemas industriais não está claramente definida. A OT responde à engenharia; o CISO cuida apenas da TI; o SOC não enxerga o ambiente operacional. Esse modelo não acompanha a complexidade atual. A mineração precisa inserir OT na estratégia corporativa de segurança, com orçamento, indicadores e capacidade de resposta integrada. Sem essa visão, não existe resiliência real.

Esse debate é urgente porque estamos entrando em uma era em que ataques deixam de mirar apenas dados e passam a mirar processos físicos. E quando processos físicos são comprometidos, os efeitos extrapolam o digital. Afetam produção, contratos, mercado e, sobretudo, pessoas.

A mineração já entendeu que se tornar digital é inevitável. Agora precisa compreender que defender o digital é indispensável. A aplicação consistente da IEC 62443, o fortalecimento da governança, a qualificação contínua das equipes e a visibilidade total dos ativos conectados são pilares para que o setor opere com segurança, sustentabilidade e previsibilidade.

O setor minerário está caminhando para minas cada vez mais inteligentes, mas inteligência sem defesa cria vulnerabilidade. A próxima fronteira da competitividade passa justamente pela resiliência: a capacidade de continuar produzindo mesmo diante de ataques inevitáveis.

O futuro da mineração será digital. Mas apenas quem combinar inovação com proteção terá condições de operar com confiança em um ambiente global cada vez mais interdependente e desafiador.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!