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ROI, inteligência artificial, América Latina

A rápida expansão dos investimentos em inteligência artificial (IA) colocou o tema no centro das discussões econômicas globais. Seja classificado como uma bolha especulativa ou como um ciclo de crescimento mais saudável, o consenso entre muitos economistas-chefes é que este movimento caminha para um momento de ajuste.

A avaliação aparece na mais recente análise publicada pelo World Economic Forum, que detalha como uma correção de preços ligada à IA poderia se desenrolar ao longo do tempo e quais seriam seus impactos econômicos.

Segundo o estudo, o risco de exuberância irracional acompanha praticamente toda grande inovação econômica. Da tulipomania do século XVII ao entusiasmo em torno do comércio eletrônico no auge da bolha pontocom, novidades tecnológicas tendem a atrair expectativas desproporcionais. A IA não foge a esse padrão. Caso o ciclo atual seja de fato uma bolha, seu processo de formação e eventual estouro teria consequências reais para investimento, emprego e crescimento.

Na fase inicial, descrita como os meses que antecedem o pico, os efeitos já começam a aparecer. À medida que o entusiasmo cresce, recursos financeiros, humanos e materiais são direcionados de forma intensa para projetos ligados à IA. Esse movimento encarece o capital para iniciativas fora desse universo e pode atrasar investimentos em setores considerados menos “novos”. Projetos não relacionados à IA passam a disputar profissionais e insumos com empresas que se posicionam como parte desse ecossistema.

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Durante essa etapa, startups capazes de se apresentar como “AI-first” tendem a captar recursos com maior facilidade e menor custo. Elas passam a liderar o ciclo de investimento real da economia. Já empresas consolidadas do setor costumam ser mais cautelosas na captação, evitando levantar capital em um ambiente inflado. A construção de data centers e infraestrutura digital impulsiona o PIB no curto prazo, ao gerar empregos e atividade econômica. No entanto, a produtividade efetiva desses investimentos costuma ficar abaixo do prometido em um cenário de bolha, fazendo com que o crescimento dependa mais da expansão contínua da infraestrutura do que do seu uso eficiente.

Estouro da bolha da IA?

O momento do estouro, que pode se concentrar em poucos dias, tende a ser inicialmente um evento financeiro e midiático. O impacto macroeconômico imediato costuma ser limitado, com foco principal na estabilidade dos mercados. Bancos centrais entram em cena como provedores de liquidez para evitar disrupções mais graves. Como grande parte do investimento em IA está concentrada nos Estados Unidos, a atuação do Federal Reserve seria central, ainda que não necessariamente por meio de cortes de juros.

A narrativa pública nesse momento tende a se fragmentar. Reações emocionais, leituras alarmistas e disputas de interpretação ganham espaço nas redes sociais e na mídia, muitas vezes ampliando a percepção de risco além do impacto econômico real. Investidores passam então a mapear exposições diretas e indiretas à IA, com atenção especial a instituições financeiras menores que tenham concedido crédito relevante a empresas do setor ou dependam delas como depositantes. Episódios recentes mostram que respostas rápidas e claras de reguladores são decisivas para conter efeitos de contágio.

Após o choque inicial, os efeitos passam a se manifestar na economia real. A queda abrupta nos preços de ações gera perdas patrimoniais para parte dos investidores, ainda que o impacto sobre o consumo tenda a ser mais limitado do que em bolhas amplamente distribuídas, como a imobiliária. Empresas altamente dependentes de capital barato podem se tornar inviáveis, levando a demissões concentradas em regiões e perfis profissionais específicos. Já grandes companhias de tecnologia, com receitas diversificadas, tendem a absorver melhor o ajuste.

Com a liquidez mantida pelos bancos centrais e a contenção de crises bancárias mais amplas, o crédito para empresas fora do setor de IA deve continuar disponível, ainda que sob critérios mais conservadores. A aversão ao risco aumenta, mas o foco relativamente estreito do boom de IA reduz a probabilidade de uma crise sistêmica.

Passados alguns meses, o cenário tende a se normalizar. Ativos não diretamente ligados à IA começam a se recuperar, e investidores voltam a priorizar fundamentos econômicos. O discurso corporativo também muda: referências explícitas à IA se tornam menos frequentes, substituídas por narrativas mais amplas de eficiência e estratégia. O ritmo de investimentos em tecnologia continua, porém de forma mais gradual e menos disruptiva.

A análise destaca que, apesar do ajuste, a IA possui valor econômico real, o que ajuda a limitar os danos de longo prazo. O impacto esperado seria inferior ao da crise financeira de 2008, ainda que mais relevante do que o colapso de modismos de consumo. A avaliação é assinada por Paul Donovan, economista-chefe da UBS Global Wealth Management, e integra o panorama apresentado no relatório Chief Economists’ Outlook, de janeiro de 2026.

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