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Ilustração conceitual sobre inteligência artificial e gestão de pessoas. Em um fundo azul-claro, três blocos empilháveis exibem ícones de perfil profissional. Dois blocos estão empilhados verticalmente no centro, enquanto um terceiro bloco com um ícone em vermelho aparece inclinado ao lado. Na parte superior direita, uma mão segura um bloco decorado com símbolos de inteligência artificial e a sigla “AI”, como se estivesse posicionando a peça sobre a estrutura. Um círculo claro ao fundo destaca os elementos centrais da composição. A imagem representa a integração da inteligência artificial em processos de trabalho, recrutamento, formação de equipes ou tomada de decisões relacionadas a recursos humanos. (revolução industrial)

Um levantamento da Talenses Human Capital, consultoria do Talenses Group especializada em potencializar a dimensão humana da transformação organizacional, mostra que 65% dos profissionais ouvidos consideram a capacidade de orquestrar o trabalho entre pessoas e inteligência artificial (IA) uma das principais competências dos próximos anos. Mais do que apontar uma nova habilidade, o dado revela uma mudança na própria natureza do trabalho do CIO. À medida que a IA passa a participar de processos, análises e decisões, o líder de tecnologia deixa de ser apenas quem entende de tecnologia e passa a ser também quem ajuda a organização a decidir o que fazer com ela.

Durante muito tempo, a autoridade do CIO esteve associada ao domínio técnico. Era esperado que esse profissional conhecesse sistemas, infraestrutura, segurança, dados e projetos e fosse capaz de garantir que a tecnologia funcionasse de acordo com as necessidades da empresa. Esse conhecimento continua indispensável. O que mudou é que ele deixou de ser suficiente.

A IA aumenta a complexidade das escolhas porque amplia rapidamente o número de possibilidades. Há cada vez mais ferramentas capazes de executar tarefas, analisar informações, gerar conteúdo e apoiar decisões. O problema, portanto, já não é apenas descobrir o que a tecnologia consegue fazer. É entender onde ela faz sentido, quais riscos estão envolvidos, o que precisa mudar na operação e quais decisões não deveriam ser delegadas a uma máquina.

Esse deslocamento exige do CIO uma capacidade que nem sempre esteve no centro da função: julgamento. Em um ambiente de mudanças rápidas, não basta ter respostas prontas. É preciso saber formular perguntas, interpretar o contexto, confrontar alternativas e decidir mesmo quando não existe um caminho claramente estabelecido. A experiência ganha valor justamente por oferecer repertório para reconhecer situações, antecipar consequências e aprender com decisões anteriores.

O próprio levantamento mostra que as empresas ainda estão construindo essa maturidade. Embora 59% dos líderes afirmem utilizar IA diversas vezes ao dia, 44% dizem que suas organizações ainda estão na fase de experimentação individual. A diferença é importante: uma coisa é o profissional incorporar uma ferramenta à própria rotina; outra é a empresa transformar esse uso em uma capacidade organizacional.

É nesse espaço que o CIO ganha uma responsabilidade diferente. Ele precisa ajudar a transformar experimentos dispersos em escolhas coerentes para o negócio, identificando processos que podem ser redesenhados, onde a automação realmente gera valor e quais limites precisam ser estabelecidos. Isso também exige compreender as pessoas: 52% apontam a falta de conhecimento como principal barreira à adoção da IA, enquanto 62% afirmam ter aprendido a utilizar essas ferramentas por iniciativa própria.

O CIO precisa, portanto, fazer uma ponte entre a experimentação individual e a estratégia da empresa. De um lado, existe a pressão por produtividade e inovação. De outro, estão os processos, a governança e a responsabilidade sobre os resultados. Seu papel é conectar esses pontos, evitando tanto o excesso de cautela que paralisa a inovação quanto a adoção acelerada sem clareza sobre as consequências.

É isso que torna a ideia de liderança orquestradora relevante. Orquestrar não significa controlar cada movimento nem conhecer profundamente todas as ferramentas disponíveis. Significa entender como diferentes capacidades podem trabalhar juntas e decidir quando cada uma deve entrar em cena. No caso do CIO, isso significa combinar tecnologia, conhecimento de negócio e capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma direção comum.

A competência técnica continua sendo a base, mas o diferencial passa a estar na capacidade de construir boas decisões, reunir diferentes perspectivas e assumir a responsabilidade pelas escolhas. Uma decisão sobre automação pode afetar a estrutura de uma equipe; uma decisão sobre dados pode mudar a relação com clientes; uma ferramenta de IA pode alterar um processo inteiro. Por isso, o CIO precisa participar dessas discussões antes que elas cheguem à etapa de implementação.

À medida que a IA reduz o custo de executar e experimentar, o diferencial migra cada vez mais para a capacidade de decidir. Ferramentas podem ser acessadas por diferentes áreas, mas definir prioridades, avaliar consequências, estabelecer limites e mobilizar pessoas continua sendo uma responsabilidade de liderança. O CIO do próximo ciclo continuará sendo um líder de tecnologia, mas sua contribuição será medida menos pelo que consegue implementar sozinho e mais pela qualidade das decisões que consegue construir com o restante da organização.

Orquestrar pessoas, tecnologia e estratégia, portanto, não significa colocar o CIO no centro de todas as decisões. Significa colocá-lo no ponto de conexão entre aquilo que a tecnologia permite, aquilo que o negócio precisa e aquilo que as pessoas conseguem executar. O CIO não perde sua identidade tecnológica, mas passa a exercer seu valor justamente quando transforma conhecimento técnico em direção, critério e escolhas para a organização.

Alexandre Benedetti é diretor-geral da LANDtech, unidade de negócios do Talenses Group especializada em recrutamento de profissionais de TI e Digital