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Shayan Mohanty, Chief Data and AI Officer da Thoughtworks aconselha CIOs. Imagem: Divulgação

A inteligência artificial entrou nas salas de diretoria e não sai mais. Para Shayan Mohanty, Chief Data and AI Officer da Thoughtworks, essa migração muda não só quem toma as decisões sobre IA nas empresas, mas o que se espera de quem lidera tecnologia. Em entrevista ao IT Forum, o executivo foi direto: CIOs que ainda esperam consenso interno para agir já estão atrasados.

A Thoughtworks, consultoria com presença em 18 países, acompanha esse movimento de dentro. O perfil do cliente mudou. Quem bate à porta hoje não é mais o diretor de TI em busca de software crítico, mas o CEO que quer saber por onde começa e como vai medir resultado.

“Isso exige de nós uma capacidade que nunca precisamos tanto desenvolver: mostrar o que a IA pode fazer por um negócio, hoje e amanhã”, descreve Mohanty.

O que CIOs precisam fazer agora

Mohanty organiza sua recomendação a líderes de tecnologia em três movimentos, nessa ordem.

O primeiro é cultivar a cultura certa e proteger quem a carrega. “Afaste-se de comitês. Você não vai avançar em IA por consenso”, diz. O caminho passa por identificar os profissionais mais animados com o tema dentro da organização e garantir que tenham espaço e cobertura institucional para experimentar. São essas pessoas, e não as estruturas formais, que puxam a transformação.

O segundo movimento é construir governança de dados e de IA de forma integrada, pensando nela como o sistema operacional da empresa. A maioria das organizações, segundo ele, instala um sistema de governança, coloca num canto e raramente volta a consultá-lo, tratando o processo como burocracia obrigatória, não como infraestrutura viva. O executivo dá um exemplo concreto: se um agente de IA acessa uma base com dados pessoais sensíveis, isso deveria restringir automaticamente o que ele pode fazer com essas informações a partir daquele ponto, não como regra escrita num manual, mas como limitação embutida na arquitetura. “Feita do jeito certo, a governança não só mantém a empresa segura como abre uma série de vitórias fáceis no caminho”, afirma.

O terceiro é o mais estrutural: repensar a organização com IA no centro, não nas margens. Mohanty relata que CEOs de empresas de grande porte já fazem internamente uma pergunta que, há poucos anos, soaria radical: o que acontece se mantemos o mesmo quadro de funcionários, mas cada pessoa puder produzir dez ou cem vezes mais? “Estamos vendo essas apostas darem resultado. E essa conversa não é mais só de CIO. Ela já está no board”, diz.

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A era dos agentes autônomos

Se 2025 foi o ano dos copilotos, com assistentes integrados a fluxos de trabalho para editar e-mails ou resumir documentos, Mohanty vê 2026 como o período em que os agentes autônomos de IA saem do piloto e ganham escala. A diferença é de natureza: um copiloto responde a um comando; um agente opera por horas ou dias, cruza fontes e toma decisões intermediárias sem precisar ser acionado a cada etapa.

“A tendência deste ano é expandir esse horizonte de tempo. De uma hora para um dia, uma semana. Um colaborador digital que vive dentro da operação”, descreve. Para isso acontecer, acrescenta, é preciso que avanços ocorram em camadas distintas e simultâneas: nas capacidades dos modelos, na arquitetura que os sustenta e nos protocolos que definem como esses sistemas se comunicam.

O próximo desafio, porém, ainda não tem solução consolidada: como verificar a qualidade do que o agente entregou? Um sistema pode retornar informando que concluiu a tarefa, mas como o operador humano confirma que foi feito corretamente?

“Precisamos de um conceito genérico de prova. Não só de que o trabalho foi concluído, mas de que foi feito bem”, diz Mohanty. A complexidade está no fato de que essa prova assume formas radicalmente diferentes conforme o tipo de tarefa: código tem testes, redação tem métricas de qualidade, análise tem benchmarks. Não existe ainda uma linguagem comum entre esses mundos.

O executivo compara o ritmo de adoção a uma divisão em lei de potências, um grupo menor de empresas vai concentrar adoção acelerada e impacto expressivo, enquanto a maioria seguirá numa curva mais lenta, mas crescente. “As que conseguiram adotar IA de alguma forma no ano passado estão falando em escalar agora. As que não conseguiram estão começando este ano. Mas ainda não é representativo do que a tecnologia é capaz”, avalia.

Brasil no centro da era agêntica

Na leitura de Mohanty, a América Latina parte de uma vantagem que nenhuma regulação consegue criar: cultura. Enquanto a Europa construiu um arcabouço robusto de proteção de dados, mas colheu como efeito colateral uma postura mais cautelosa diante da tecnologia, a região demonstra uma inclinação natural para tentar, errar e corrigir, que é exatamente o que a adoção de IA exige.

“Aqui sinto muito mais disposição para ir em frente. Esse é o combustível certo para a IA. E não vejo muitos lugares no mundo com tanto disso quanto aqui”, diz. A avaliação inclui uma comparação com a Ásia, que o executivo também considera bem posicionada, mas coloca a América Latina à frente no momento atual.

O Brasil ocupa, nessa análise, um papel específico. A Thoughtworks chegou ao País em 2010, pelo Tecnopuc, parque tecnológico da PUC-RS, em Porto Alegre, e expandiu para São Paulo, Recife e Belo Horizonte. Em 2022, adquiriu a Handmade Design, empresa local especializada em experiência do cliente e design de produto. Hoje, parte significativa da equipe global de dados e IA da consultoria está baseada no País.

“São Paulo é o epicentro financeiro da América Latina”, diz Mohanty. “Se acreditamos que a região vai liderar a adoção de IA pelas empresas, grande parte disso vai ser impulsionada daqui. Por isso precisamos ter uma estratégia muito sólida no Brasil.” A meta é que o País funcione como referência do que uma adoção bem-feita de inteligência artificial pode parecer na região, e sirva de modelo para os demais mercados latino-americanos.

Antes de chegar à Thoughtworks, Mohanty construiu a equipe de processamento de fluxo de dados do Facebook, liderou times de machine learning e passou pelo Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos. Vendeu sua própria empresa para a consultoria dois anos atrás. A trajetória importa menos do que a tese que carrega: o que vai definir quem lidera a era dos agentes não é acesso à tecnologia, mas disposição para mudar antes que o mercado obrigue.

“O que separa quem avança de quem fica no lugar é mentalidade”, diz. “Quem ainda espera o consenso interno para começar vai chegar atrasado.”

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