
Foi quase um acidente bem-intencionado que levou a atual CIO da Copa Energia, Claudia Marquesani, à tecnologia. Vinda de Monte Santo de Minas, cidade de 20 mil habitantes no interior de Minas Gerais, a executiva conta que, quando criança, acreditava ter apenas duas opções de carreira: professora ou babá.
Mesmo assim, ela ia constantemente ajudar o pai na oficina onde ele trabalhava. O arranjo servia para impedir que o irmão mais velho de Claudia desistisse do curso de Direito e, ainda assim, o pai tivesse auxílio. E, como ela mesma diz, “como eu era menina, não tinha problema”.
Crescendo cercada de carros e motores, quando chegou a hora de escolher o ensino médio, a CIO optou pelo técnico em mecatrônica, na época chamado de informática industrial. Com humor, ela conta que, apesar de sempre ter sido incentivada a seguir o caminho que quisesse, o choque na família foi grande quando comunicou a decisão. “Nós nunca tínhamos visto um computador na vida, morando no interior e tudo mais. Então, assim, meu pai me olhou como se eu fosse um ET de duas cabeças”, brinca.
Ainda assim, o sonho não era seguir dali para a tecnologia, mas sim para o jornalismo — curso que a mãe tinha verdadeiro pavor que ela fizesse. A escolha pela faculdade de análise de sistemas, ao final, veio de uma mistura de aptidão com oportunidade.
Quando tinha 16 anos, pouco antes de prestar vestibular, sua mãe faleceu. Então, Claudia decidiu seguir outro desejo ainda maior: ter uma carreira. “Lembro que brincava de carimbar, eu queria ter uma carreira. Sempre tive essa ambição.”
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A essa mesma determinação, somada ao apoio familiar e muito estudo, ela atribui o cargo que ocupa hoje. Como mulher, a executiva afirma que o autoconhecimento é essencial para persistir no mercado de tecnologia, além de muita intencionalidade. “Cresci em um ambiente onde fui fortalecida e isso ajuda muito nos contextos que enfrentamos, em que somos questionadas o tempo todo.”
Ao longo de sua trajetória, Claudia fez questão de transformar os desafios em aprendizado, não apenas para si, mas também para outras mulheres. Enquanto vivia seu sonho de ser executiva, por exemplo, aproveitou para ingressar no mestrado com o intuito de lecionar no futuro.
O programa ia bem e o plano era falar sobre o papel dos líderes digitais, mas algo ainda a incomodava em relação à pesquisa. Foi então que, em uma conversa com seu orientador, Claudia percebeu que precisava abordar a experiência feminina no mundo da TI. “Pensei na pergunta que me fizeram a vida inteira sobre como, sendo mulher, cheguei até aqui.”
O trabalho do mestrado logo evoluiu para um livro, chamado Só Podia Ser Mulher, que trata dos desafios vividos pelas mulheres na área de tecnologia. Entre os mais comuns, a executiva cita a necessidade de provar sua capacidade técnica e vencer a chamada “síndrome da corda bamba”. “Estamos sempre nos equilibrando entre o que somos e o que é esperado que sejamos, diante de questionamentos como o que vestir, como se portar, o que falar. Eu mesma precisei aprender a falar sobre futebol e Fórmula 1 para fazer um networking melhor.”
Antes de chegar à Copa Energia, Claudia comandou a área de tecnologia de empresas de diversos segmentos, como Petz, IBM, Sodexo e Santander. E, mesmo não tendo cursado jornalismo quando mais nova, carrega a comunicação como um dos seus traços mais fortes na liderança. “Eu costumo dizer que gosto muito mais de gente do que de computador. E o que eu mais gosto é ver como nós podemos usar a tecnologia como meio para transformar a vida das pessoas.”
Atualmente, além de CIO, é professora e coordenadora da Escola de CIOs, do Instituto Itaqui. Também é mãe e graduanda no curso de jornalismo. “Não se pode deixar nenhum sonho na gaveta”. A fala não vem só de uma convicção pessoal, mas como forma de dar exemplo às próximas gerações.
“Quanto mais a gente sobe numa carreira executiva, mais modelo viramos. E aí existe também a responsabilidade de devolver ao universo aquilo que ele nos deu. Então, eu tenho bastante cuidado com isso.”
*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum.
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