Skip to main content

Marcela Pinori é vice-presidente de Soluções Comerciais da Visa do Brasil, responsável pela estratégia e expansão de soluções de pagamentos para empresas e governos. Com mais de 20 anos de experiência no setor de meios de pagamento, ingressou na Visa em 2013 e assumiu a vice-presidência em 2025. Anteriormente, passou por empresas como BankBoston, Itaú e Alelo, atuando nas áreas de produtos, novos negócios e desenvolvimento comercial. É formada em Economia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com formação complementar em Marketing pelo Insper.

Por muito tempo, analisar o crédito de uma pequena ou média empresa significou olhar para uma fotografia estática de informações: faturamento, histórico de crédito dos sócios, endividamento e garantias. Essa fotografia ajuda a tomar uma decisão inicial, mas é insuficiente para compreender um negócio que está em constante movimento.

Leia também: DB Diagnósticos reduz em 50% custos de TI com nuvem híbrida da Nutanix

Uma PME pode atravessar períodos de sazonalidade, conquistar novos clientes, alterar seus recebíveis e transformar rapidamente seu fluxo de caixa. O comportamento financeiro de hoje pode ser completamente diferente daquele registrado há três meses. Se a empresa muda, a análise de crédito também precisa evoluir.

A dimensão do desafio ajuda a explicar a urgência dessa mudança. Segundo o recente estudo “PMEs em foco: uma nova abordagem para análise de crédito”, realizado pela Visa Consulting & Analytics (VCA), mais de 9 milhões de empresas estão inadimplentes no Brasil, sendo que as micro e pequenas empresas representam 87% desse total.

Ao mesmo tempo, a concessão adequada de limites é estratégica. O limite de crédito é apontado por 29% dos empreendedores como o principal fator para a contratação de cartões e serviços PJ. Quando a análise falha ou é insuficiente, a consequência é direta: 43% das PMEs que têm crédito negado consideram trocar de instituição financeira. Para emissores, portanto, acertar no crédito não é apenas uma questão de gerenciamento de risco.

É também uma forma de ampliar oportunidades de negócio e preservar o relacionamento com a carteira, mas vai muito além disso. Trata-se de uma responsabilidade direta da nossa indústria com o desenvolvimento econômico, pois ao aprimorar a concessão de crédito, impulsionamos o crescimento sustentável das PMEs e aceleramos todo o ecossistema de negócios do país.

A complexidade da análise passa pelas particularidades do segmento. O levantamento da VCA revela que 57% das PMEs misturam finanças pessoais e empresariais. Quando a avaliação do CNPJ depende excessivamente do perfil do sócio ou de balanços defasados, a real capacidade operacional da empresa pode ficar invisível.

Essa dificuldade de enxergar o negócio também aparece na própria gestão financeira das PMEs. Cerca de 46% dos empreendedores ainda utilizam métodos não digitais, como papel e caderno, para controle financeiro, enquanto 44% enfrentam dificuldades na gestão de pagamentos. Ao mesmo tempo, a tecnologia já faz parte da rotina dessas empresas: 82% afirmam já ter tido contato com Inteligência Artificial e 31% utilizam IA na gestão dos seus negócios.

É nesse ponto que entra a inteligência de dados aplicada ao risco. O papel do analytics avançado e da IA não é simplesmente decidir mais rápido, mas ampliar a capacidade de enxergar o comportamento real da empresa.

A aplicação de inteligência transacional, que avalia a consistência, frequência, concentração de vendas e sazonalidade das transações, traz ganhos diretos de precisão. Em simulações apresentadas pelo estudo, a adição de dados transacionais como um score complementar às réguas e inteligências internas já utilizadas pelos bancos de crédito dos emissores elevou a taxa de aprovação de 24,5% para 29,4% (um ganho relativo de aproximadamente 20%), mantendo o mesmo nível de inadimplência.

O resultado demonstra que é possível encontrar bons clientes que os modelos estáticos deixavam de fora. Não se trata de flexibilizar critérios, mas de diferenciar empresas que as réguas tradicionais tratavam de forma idêntica.

Para as instituições financeiras que buscam liderar essa transformação, o estudo aponta três movimentos práticos que podem acelerar essa evolução:

  1. Separar elegibilidade de limite: primeiro, define-se se a empresa atende aos critérios formais para receber crédito; em seguida, estabelece-se o valor de limite mais compatível com sua liquidez e capacidade operacional real.
  2. Criar gatilhos automáticos de reavaliação: movimentações relevantes em vendas, recebíveis e fluxo de caixa devem acionar revisões dinâmicas de limite, reduzindo a dependência de análises periódicas espaçadas.
  3. Incorporar novas fontes de dados: o avanço do Open Finance, somado aos registros da Duplicata Escritural e às mecânicas de Split Payment, trazem novas possibilidades de visibilidade sobre a liquidez e a capacidade financeira em tempo real.

O crédito bem desenhado é uma das principais alavancas para o pequeno e médio empreendedor financiar estoque, atravessar oscilações de caixa e expandir sua operação. Para o sistema financeiro, é uma oportunidade de construir relacionamentos mais duradouros e sustentáveis.

Por isso, a decisão de crédito não deveria começar e terminar na concessão inicial. Ela precisa acompanhar a jornada da empresa à medida que o negócio se transforma. Afinal, na economia atual, CNPJ não é uma foto. É um filme.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!