
Por mais de 60 anos, o COBOL foi considerado “intocável” — uma linguagem tão profundamente enraizada nos sistemas corporativos (como bancos, seguradoras, governos e companhias de transporte) que substituí-la não era nem uma possibilidade a ser cogitada. Mas com o avanço da IA, o “vovô da programação” pode estar com os dias contados.
Bastou a Anthropic afirmar, nesta segunda-feira (23), que seu modelo Claude Code é capaz de modernizar sistemas escritos nesse código, algo que durante décadas foi visto como arriscado e extremamente complexo, e o impacto foi imediato.
As ações da IBM, uma das últimas fabricantes de mainframes do mundo e cuja divisão de serviços tem nos sistemas legados uma de suas principais fontes de receita, despencaram 13% em um único dia. Isso corresponde a cerca de US$ 30 bilhões em market cap – a maior queda da empresa desde outubro de 2000, quando aconteceu o estouro da bolha das empresas de tecnologia.
Outras consultorias globais que fizeram seu nome ajudando empresas a lidar com sistemas legados e complexos como o COBOL também sofreram na bolsa nas últimas 24 horas. Accenture, Cognizant e Capgemini viram perdas significativas em seu valor de mercado – 3,8%, 5,3% e 3%, respectivamente.
O fato é que a Anthropic fez o anúncio de sua atualização como um “pé na porta” do tabu do COBOL. Segundo a dona do Claude, antes os altos custos e complexidade para mexer em sistemas legados representavam um risco que poucas empresas estavam dispostas a assumir.
“A IA muda isso. Ferramentas como o Claude Code podem automatizar as fases de exploração e análise que consomem a maior parte do esforço na modernização do COBOL”, escreveu a Anthropic em uma postagem de blog.
Ainda segundo a startup, o Claude Code é capaz de analisar milhares de linhas de código COBOL automaticamente, mapear dependências, reconstruir fluxos de trabalho e documentos esquecidos e identificar riscos que demorariam meses para serem detectados por analistas humanos. “Com a IA, as equipes podem modernizar sua base de código COBOL em trimestres, em vez de anos”, ressaltou a Anthropic.
Menos gente usando COBOL, mais gente usando IA
Criado em 1959 pelo Departamento de Defesa dos EUA para o processamento de bancos de dados, o COBOL (sigla para Common Business Oriented Language) se tornou o alicerce da primeira onda da computação empresarial, fazendo a fortuna dos primeiros grandes nomes da TI, como a IBM. Aliás, reza a lenda que o apelido de “big blue” dado à companhia era em função de seus mainframes, equipamentos massivos pintados de azul.
Apesar de ainda ser responsável por uma parcela significativa da infraestrutura digital global – com 95% das transações em caixas eletrônicos nos EUA rodando em base COBOL, de acordo com a Association for Information Systems (AIS) –, a linguagem enfrenta um problema silencioso: a escassez crescente de profissionais capazes de compreendê-la.
Segundo a Anthropic, embora centenas de bilhões de linhas de código continuem em operação diariamente, muitos dos engenheiros que desenvolveram esses sistemas já se aposentaram, levando consigo um conhecimento que, em muitos casos, nunca foi totalmente documentado.
Na visão de analistas, o cenário cria um risco estrutural para organizações que dependem do COBOL. Ao longo de décadas, esses sistemas foram modificados repetidamente, tornando sua manutenção cada vez mais complexa. Ao mesmo tempo, a formação de novos especialistas não acompanha essa demanda, já que poucas universidades ainda ensinam a linguagem.
A Big Blue rebate
Apesar de não ser a mesma potência que foi até meados dos anos 90, a IBM não baixou a cabeça frente à ameaça apresentada pela Anthropic. Em resposta ao Yahoo Finance, a empresa mandou uma mensagem direta.
Segundo a Big Blue, novas ferramentas de IA aparecem toda semana, mas o que não muda é o desafio fundamental de engenharia que existe em rodar sistemas de missão crítica em grande escala.
“Traduzir COBOL é a parte fácil. O verdadeiro trabalho está no redesenho de arquiteturas, substituição de runtimes, garantir a integridade nas transações e otimização de performance no hardware. Este é o desafio que a IBM levou décadas para resolver, e IA é a ferramenta mais poderosa que já tivemos para isso”, disparou a centenária multinacional.
O fato é que a morte do COBOL é especulada há pelo menos umas duas décadas, mas por sustentar sistemas altamente críticos – mais de 40% dos bancos ainda usam a linguagem em seu core – poucos de seus adeptos querem mexer nesse “vespeiro”. Para muitos, o medo não é se “dá ou não dá para mexer”, e sim se “mexer e der problema”.
Entretanto, se é melhor não mudar a base, pelo menos dá para integrar e modernizar, e pelo jeito é nessa arena que a Anthropic se apresenta para competir. Que vença o melhor.
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