
Em um passado não muito distante, o Brasil chegou a fazer ondas no cenário global do entretenimento digital e 3D. Empresas como a WildLife, que chegou a virar unicórnio, e a Aquiris, que depois veio a ser adquirida pela Epic Games (dona do Fortnite), mostraram que é possível fazer produtos globais em terras brasileiras. Apesar deste cenário ter esfriado um pouco nos últimos anos, a Greydot Lab quer reacender essa chama, misturando inovação em 3D e um storytelling ambicioso para isso.
Fundada há menos de dois anos, a Greydot nasceu da reunião de dois empresários que não são estranhos ao meio “startupeiro”. Vinicius Gusmão foi um dos fundadores da healthtech MedRoom, vendida para a Anima em 2020. Já Gabriel Hidd foi partner na ACE, e conheceu Vinicius quando foi COO da MedRoom.
Quando os caminhos se reencontraram, junto com o terceiro sócio Filipe, a decisão foi montar o que queriam ter feito desde o início: um estúdio de animação 3D com pipeline completo, do roteiro até o render final. Para isso, eles investiram alto, montando um estúdio de captura de movimentos com 10 câmeras do mesmo tipo usado em produções como Avatar e O Senhor dos Anéis.
Sediado em Barueri, o estúdio hoje tem um time de 25 pessoas e acumula R$ 5 milhões em receita e mais de 20 projetos executados, incluindo trabalhos para longa-metragens que estão no Disney+ e no Prime Video. A empresa também assina as animações cinemáticas do jogo Trigger Warning, baseado na série The Boys, do Prime Video.
IP própria e rodada
Toda essa receita, por enquanto, vem em sua maior parte de prestação de serviços, o modelo de outsourcing que domina o mercado de animação no Brasil. É exatamente esse ponto que os fundadores querem mudar. “O outsourcing tem características de negócio que, para a gente que vem desse mundo de startup, são muito limitantes, principalmente a falta de previsibilidade de receita”, avalia Vinicius.

A saída que a Greydot encontrou mistura lógica de venture capital com a experiência de quem entende de produção audiovisual. A ideia dos sócios é tratar o desenvolvimento de propriedades intelectuais (IPs) como um portfólio.
“A visão que a gente tem para IP é muito parecida com o que o venture capital tem para startup”, resume Vinicius. “Você investe em número de IPs sabendo que de todos eles um vai dar tão certo que vai pagar o prejuízo nos outros e ainda dar o retorno”.
O primeiro IP da empresa é o Fendara: um jogo de corrida onde fendas interdimensionais se abrem na pista e, do outro lado, a física muda completamente. A ideia foi apresentada ao público pela primeira vez em novembro do ano passado, na Expo Comics, em São José dos Campos.
A Greydot desenvolveu um simulador de movimento integrado a óculos de realidade virtual que, segundo os fundadores, resolve dois problemas ao mesmo tempo: gerar audiência garantida para o IP e produzir receita independente da história que estiver rodando dentro dele.
A lógica é simples: levar o simulador de forma itinerante para shoppings e eventos, cobrar ingresso, estudar o engajamento do público com a história e ajustar. Se a história funcionar, vender camiseta e boneco junto, elevando o ticket médio de R$ 50 para algo próximo de R$ 150. Se não funcionar, trocar a história e testar de novo, com o mesmo equipamento.
“O hardware é o meio para um fim mais ambicioso”, explica Gabriel. “O simulador nunca foi visto como produto final, e sim como o caminho mais barato e eficiente para levar nosso universo e storytelling para a cabeça do público”, completa.
Para colocar o plano em movimento, a Greydot está captando R$ 1 milhão em uma rodada seed. Do total, 30% vai para melhorias na pipeline de outsourcing e para buscar projetos internacionais. Os outros 70% financiam a construção do simulador em versão itinerante e autônoma, pronta para rodar em praças e gerar receita por conta própria.
A projeção dos fundadores é atingir o break-even em 18 meses com o simulador rodando. A partir daí, uma rodada Série A para escalar o modelo, mais simuladores, mais praças, mais IPs sendo testados em paralelo. “Validando isso, seguimos para outras etapas como um jogo do Fendara, algo que nos dará mais escala, mas é algo para um horizonte de cinco anos – ou menos, se o funding certo aparecer antes”, destaca Vinícius.
Para os fundadores, a aposta maior é que o mundo esteja pronto para histórias que vêm de fora do eixo Estados Unidos-Europa. “As pessoas querem comprar histórias brasileiras, latino-americanas, e a gente quer oferecer isso para o mercado”, diz Vinicius.
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