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Mulher sorridente em close, de cabelos lisos e castanhos, usando brincos de pérola e roupa clara. A legenda informa que é Cintia Scovine Barcelos, do Bradesco.

Cintia Scovine Barcelos não se recorda do momento exato em que escolheu a tecnologia. Talvez porque, no fundo, a disciplina sempre esteve presente. Manifestava-se nos cálculos mentais que fazia com o pai, ainda criança, nas manhãs de feira. Estava na rapidez com que somava preços e devolvia o troco antes mesmo dos vendedores que utilizavam calculadora. E, sobretudo, na forma como compreendia o mundo: por meio da lógica, da curiosidade e da inquietação.

Foi na faculdade de Engenharia Eletrônica da UFRJ que o encantamento se concretizou. A precisão matemática encontrou o brilho da inovação, e Cintia mergulhou de vez nesse universo.

Iniciou sua carreira como estagiária na IBM, na área de infraestrutura, e ali construiu uma trajetória de quase três décadas, passando por diferentes indústrias e especialidades, da arquitetura de sistemas à inteligência artificial (IA). Ao longo do tempo, obteve reconhecimento técnico e de mercado. Tornou-se a primeira mulher da América Latina a conquistar o título de Distinguished Engineer, da IBM, distinção máxima concedida a profissionais com histórico comprovado de inovação, impacto técnico e capacidade de formar novas gerações.

Mesmo após diversas conquistas profissionais, a inquietude que a guiava desde a infância permanecia. Em 2021, aceitou o desafio de migrar para o Bradesco como diretora de tecnologia. Já conhecia bem a instituição, afinal, havia sido CTO da IBM dedicada ao banco. Três anos depois, tornou-se diretora-executiva e CTO do Bradesco, assumindo a liderança em um dos momentos mais relevantes da história tecnológica da organização.

Tecnologia com propósito

Na posição de CTO, Cintia conduz a transformação digital de um dos maiores bancos do País com um olhar que une profundidade técnica, foco estratégico e cuidado genuíno com as pessoas. Sob sua responsabilidade estão áreas como operações de TI, arquitetura, dados, IA, infraestrutura e cibersegurança. Seu papel vai além da execução: envolve-se diretamente na costura fina da estratégia corporativa.

A modernização do Bradesco passa por uma reestruturação ampla, com frentes de negócio e viabilizadores bem definidos, tendo a tecnologia como eixo central. A arquitetura vem sendo renovada, a jornada para a nuvem acelerada, a segurança digital reforçada e a inteligência artificial ganhou posição estratégica em diferentes áreas, como modelagem de crédito e relacionamento com clientes. A BIA Clientes, por exemplo, já interage com 24 milhões de pessoas; a BIA Tech aumenta a produtividade dos desenvolvedores; e a abordagem AI First se consolida com múltiplos agentes inteligentes operando no sistema.

Leia mais: Cibele Cardin: liderança que abraça mudanças e transforma equipes

Apesar dos números grandiosos, o que inspira Cintia são as pessoas. “Ver os resultados tangíveis, como o aumento da capacidade de entrega, a melhoria na experiência dos clientes e o reconhecimento do mercado, reforça que estamos no caminho certo”, afirma. “A tecnologia, hoje, é o fio condutor entre estratégia, inovação, cultura e futuro. E é isso que me move todos os dias.”

Seu estilo de liderança é centrado em formar equipes de excelência, técnicas e diversas, em que o debate e a cocriação são estimulados. Ela aprecia o novo, o que desafia, o que exige aprendizado contínuo. “Quando me torno a melhor em algo, sei que é hora de mudar. Parei de aprender”, diz com serenidade, revelando a bússola que a orienta.

Mulheres na tecnologia

Essa filosofia também a mobiliza na missão de ampliar o espaço das mulheres no setor. Quando ingressou na faculdade, havia apenas duas alunas em sua turma. Ao longo da carreira, muitas vezes foi a única em reuniões e fóruns técnicos.

“O viés de gênero é, várias vezes, inconsciente. Existe um imaginário coletivo de que quem entende de tecnologia precisa ter o perfil do Big Bang Theory”, brinca. “Mas isso está mudando. Ainda devagar, mas está.” Para acelerar essa transformação, ela aposta no poder do exemplo, em políticas inclusivas e em programas de formação como o Wonder TI e a parceria com a Laboratória, que já capacitou milhares de mulheres.

Para Cintia, equilíbrio é escolha consciente. Família, carreira, saúde mental e propósito: tudo é prioridade quando se tem clareza do que é essencial. “Sou extremamente organizada e priorizo o que importa. Minha família, meu marido e minhas filhas fazem parte de quem sou. Preciso deles para ser feliz. Mas também não seria feliz sem trabalhar, sem me sentir desafiada.” Ser mãe, aliás, a tornou uma profissional mais eficaz. Aprendeu a dizer “não”, a delegar, a focar no que realmente conta. “A vida é uma só”, enfatiza.

Fora do trabalho, busca recarregar energias lendo sobre história e tecnologia, indo ao cinema e frequentando bons restaurantes com a família. A academia também faz parte da rotina diária, uma forma de cuidar de si e manter a mente ativa.

Ao refletir sobre o que deseja para outras mulheres que iniciam carreira na área de tecnologia, ela retorna ao princípio: paixão, curiosidade e coragem. “Busque algo que te brilhe os olhos e que te desafie. Você só vai ser bem-sucedida se for feliz e realizada na sua profissão.”

Na matemática de Cintia, o sucesso não se mede apenas em conquistas técnicas ou títulos inéditos. Ele está na soma — precisa, sensível e contínua — entre aprender e ensinar, inovar e inspirar, transformar e se deixar transformar.

*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum.

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