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Imagem de um ambiente interno de escritório moderno e bem iluminado, com várias pessoas reunidas em torno de mesas de trabalho equipadas com múltiplos monitores. Em primeiro plano, duas pessoas estão sentadas diante de telas de computador; uma delas utiliza um teclado e mouse, enquanto a outra observa a tela. Em uma das telas centrais aparece um aviso em destaque com o texto “CRITICAL ERROR”, sobreposto a gráficos e códigos em tons de vermelho e preto. Outras pessoas estão em pé ao redor, observando os monitores e apontando para as telas, sugerindo análise conjunta do conteúdo exibido. Os monitores mostram linhas de código, interfaces técnicas e painéis de dados em fundo escuro. O ambiente conta com mesas pretas, cadeiras de escritório, luminárias grandes suspensas, plantas decorativas e paredes claras. Ao fundo, há janelas amplas que permitem a entrada de luz natural, reforçando o aspecto contemporâneo e tecnológico do espaço.

Por Conrado Schlochauer

Existe um tipo de aprendizado que não acontece em sala de aula, nem em plataformas digitais, nem em trilhas cuidadosamente desenhadas. Ele acontece no próprio trabalho, no momento em que uma decisão é tomada, uma hipótese é testada ou um problema real precisa ser resolvido. O trabalho é, por natureza, um ambiente de aprendizagem. Mas, na prática, muitas organizações lidam com essa aprendizagem cotidiana de forma ambígua: dizem valorizar a experimentação, ao mesmo tempo que mantêm culturas em que o erro é interpretado como falha individual.

Esse é um dos maiores paradoxos das organizações contemporâneas. Fala-se muito em inovação, agilidade e aprendizagem contínua, mas esses conceitos dependem de uma condição básica: a possibilidade de testar, ajustar e aprender ao longo do caminho. Quando errar envolve perda de reputação ou exposição excessiva, o comportamento mais racional para qualquer profissional passa a ser o oposto da experimentação. Por que testar ideias incertas?

Assim, por mais que as organizações continuem trabalhando intensamente, aprendem menos do que poderiam. Muito esforço é investido, mas parte dele se perde porque os erros, inevitáveis em qualquer processo complexo, não se transformam em aprendizado coletivo. Nesse contexto, a inovação depende de episódios isolados de acerto ou de sorte.

A virada cultural começa quando o erro passa a ser analisado como um evento de aprendizagem. Em vez de perguntar “quem errou?”, a pergunta relevante passa a ser “o que aconteceu aqui e o que isso nos revela sobre nosso sistema de trabalho?”. Esse deslocamento altera profundamente a dinâmica organizacional. Empresas que conseguem fazer essa transição experimentam mais, em ciclos mais curtos, e com maior qualidade de reflexão sobre o que funciona e o que não funciona.

Nem todo erro é igual

Para que isso aconteça, no entanto, é preciso distinguir dois tipos de erro que muitas vezes aparecem misturados no discurso organizacional. De um lado, estão os erros que surgem de processos legítimos de exploração. Eles aparecem quando equipes testam hipóteses, experimentam novos caminhos ou lidam com problemas para os quais ainda não existem respostas consolidadas. Esses erros fazem parte do processo de descoberta. São esperados em contextos de inovação, novos produtos, mudanças de processo ou entrada em mercados desconhecidos. Quando bem conduzidos, com hipóteses claras, experimentos controlados e reflexão posterior, eles ampliam o repertório da organização.

De outro lado, existem erros que resultam de negligência, descuido ou repetição de práticas que já se mostraram problemáticas. Eles aparecem quando padrões essenciais são ignorados, quando processos conhecidos deixam de ser seguidos ou quando atalhos perigosos são tomados em nome de rapidez ou conveniência. Esses erros costumam revelar fragilidades de sistema, lacunas de processo ou, claro, problemas de gestão.

Uma cultura organizacional madura não confunde essas duas coisas. Ela não celebra o erro de forma ingênua, como se qualquer falha fosse automaticamente virtuosa. O que ela faz é criar condições para que erros exploratórios aconteçam cedo, com baixo impacto e com rápida capacidade de análise. Ao mesmo tempo, busca reduzir drasticamente erros negligentes por meio de bons processos, clareza de padrões e disciplina operacional.

Esse equilíbrio é, em grande medida, uma expressão prática da aprendizagem contínua nas organizações. Explorar onde ainda não há respostas requer liberdade para testar. Da mesma forma, operar com qualidade onde já existe conhecimento consolidado exige disciplina para repetir o que funciona.

Nenhuma dessas dinâmicas, contudo, se sustenta sem um ingrediente que ganhou destaque crescente nas pesquisas organizacionais: a segurança psicológica. É ela o que permite que profissionais expressem dúvidas, levantem discordâncias ou compartilhem problemas antes que eles se tornem crises.

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Sem segurança psicológica, uma parte importante da informação simplesmente deixa de circular. Os sinais de alerta são ignorados e os problemas só aparecem quando já cresceram demais para serem facilmente corrigidos. Em ambientes psicologicamente seguros, por outro lado, ouvimos frases simples que fazem enorme diferença para a qualidade do trabalho coletivo: “não tenho certeza de que isso vai funcionar”, “talvez exista um risco aqui”, “testamos essa hipótese e ela não se confirmou”.

Essas pequenas manifestações de fraqueza intelectual são o que encurta a distância entre realidade e adaptação. Elas permitem que as organizações ajustem rotas mais rapidamente e aprendam enquanto trabalham, em vez de apenas depois que algo já deu errado.

Transformar erros em aprendizado exige método

Organizações que levam a aprendizagem a sério costumam transformar erros e problemas do dia a dia em rituais simples de reflexão. Post-mortems, after-action reviews ou pequenas pausas de reflexão ajudam as equipes a reconstruir decisões: qual era o contexto, que sinais estavam disponíveis ou o que faríamos diferente.

Testes em pequena escala cumprem papel semelhante. Quando as ideias são prototipadas cedo, os erros ficam menores (e o aprendizado, mais rápido). A conversa sai do campo da opinião e vai para o da evidência.

Mas, no fim, é sempre importante lembrar que a cultura do erro é definida pela postura da liderança quando algo sai do trilho. A reação a um problema manda o sinal: procurar culpados ou examinar decisões. Com o tempo, essas respostas constroem – ou bloqueiam – um sistema de aprendizagem no próprio trabalho.

Aprender com os erros é aprender mais rápido com o que inevitavelmente acontece todos os dias.

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