
*Por Rodrigo Santiago, comunicador especialista em narrativas de tecnologia e futuro e relações públicas do Maravalley
Uma ideia me atravessou durante minha participação representando o Maravalley no simpósio de ciência, arte e cidadania da Fiocruz, que aconteceu na última sexta, 24, no Museu de Arte do Rio: o futuro não nasce apenas da pesquisa, nem apenas da tecnologia. Ele nasce quando instituições, territórios, artistas, cientistas, gestores públicos, comunicadores e empreendedores passam a se encontrar com frequência suficiente para transformar conhecimento em vida pública.
Foi bonito perceber isso no evento que marcou o encerramento do jubileu de 125 anos do Instituto Oswaldo Cruz, realizado fora de Manguinhos, em diálogo direto com a cidade. Como disse Tania Araújo-Jorge, diretora do IOC/Fiocruz, “pela primeira vez, nós fizemos uma saída para ir ao encontro da sociedade”. Essa frase, para mim, sintetiza muito do que está em jogo quando falamos de ciência hoje: não basta produzir conhecimento; é preciso criar pontes para que ele circule, seja compreendido, desejado, apropriado e transformado em confiança pública.
Essa é uma das grandes questões do nosso tempo, porque em um mundo atravessado por inteligência artificial, mudanças climáticas, crises sanitárias, disputas geopolíticas e novas formas de desigualdade, a ciência precisa estar próxima da sociedade. Mas essa proximidade não acontece sozinha, ela precisa de linguagem, de território, de escuta, de mediação e de comunicação.
Quando falamos de saúde, por exemplo, falamos também de tecnologia. Mas falamos, sobretudo, de confiança. Estamos lidando com dados sensíveis, decisões críticas e impactos diretos na vida das pessoas. Não basta desenvolver soluções: é preciso comunicar essas soluções, torná-las compreensíveis e confiáveis.
Essa foi uma das provocações que levei para a mesa ao representar o Maravalley. Segundo o AI Index 2026 de Stanford, existe um descompasso entre quem produz tecnologia e quem será impactado por ela: muitos especialistas estão animados com a inteligência artificial, mas uma parcela muito menor da população demonstra interesse ou compreensão real sobre o tema. Esse descompasso é ainda mais grave quando pensamos na saúde, porque todos nós somos usuários de algum sistema de cuidado. Todos nós, em algum momento, dependeremos de dados, diagnósticos, instituições, políticas públicas e tecnologias aplicadas à vida.
Por isso, a comunicação não pode ser um acessório da inovação, a comunicação deve ser vista como uma infraestrutura de confiança.
A fala de Elika Takimoto, da Comissão de Ciência e Tecnologia da ALERJ, reforçou esse ponto quando ela afirmou que não consegue ver uma diminuição da desigualdade sem ciência, tecnologia e inovação caminhando juntas. E foi ainda mais direta ao lembrar que “não tem autonomia nem soberania neste país se não for valorizando a comunidade científica”. Em tempos de desinformação, descrédito institucional e disputas narrativas, valorizar a ciência também significa cuidar da forma como ela se apresenta, se explica e se conecta com a população.
O Rio de Janeiro tem uma responsabilidade especial nesse debate. Como lembrou Gabriel Medina, secretário municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, a saúde pode ser uma nova âncora de desenvolvimento da cidade. Ele também destacou que o Rio precisa diversificar sua economia para além do óleo e gás e do turismo, reconhecendo a força da ciência, da cultura e da inovação como vetores de futuro. Essa visão conversa diretamente com o que temos construído no Maravalley.
Eu costumo dizer que venho do turismo. Durante muitos anos, eu vendia o Rio como entretenimento, como destino, como lugar para passear. Hoje, de certa forma, eu vendo a cidade como um lugar para viver, trabalhar e produzir futuro. Essa mudança de narrativa é fundamental, porque o Rio não pode ser visto apenas como paisagem. O Rio também é inteligência, pesquisa, criatividade, tecnologia, saúde, cultura e potência econômica.
O papel do Maravalley entra exatamente aí: aumentar a frequência dos encontros. Um hub não é apenas um prédio bonito, uma agenda de eventos ou um conjunto de startups residentes. Um hub é uma infraestrutura relacional. É um lugar onde academia, startups, investidores, empresas e governo começam a ocupar o mesmo ambiente com regularidade. E, quando essas pessoas se encontram todos os dias, a inovação deixa de ser uma abstração e começa a acontecer no esbarrão.
No Maravalley, isso já aparece de forma concreta, passamos de 107 residentes e as startups conectadas ao hub captaram R$ 250 milhões em investimento e faturaram R$ 1 bilhão em 2025. Mas, para além dos números, o mais importante é perceber a mudança de densidade: ideias começam a circular mais rápido, pesquisadores encontram empreendedores, empresas encontram soluções, jovens talentos encontram oportunidades e a cidade começa a se reconhecer como ecossistema.
O Rio não precisava provar que tem capacidade criativa. Isso nunca faltou. O que faltava era um ponto de encontro capaz de organizar essa potência. Nesse sentido, o Maravalley não substitui instituições como a Fiocruz, o IMPA, a CBPF, o Parque Tecnológico da UFRJ ou o próprio MAR, onde foi realizado o simpósio. Pelo contrário: ele ganha força quando se conecta a elas. O futuro do Rio depende justamente dessa capacidade de articulação entre instituições que já produzem conhecimento, espaços que formam cidadãos, empresas que escalam soluções e políticas públicas que criam condições para que tudo isso aconteça.
Marcelo Velloso, diretor executivo do MAR, trouxe uma imagem muito bonita ao dizer que o museu é “um museu que tem uma escola e uma escola que tem um museu”. A Escola do Olhar, como ele lembrou, é um espaço de formação para a vida e de articulação territorial. Essa ideia também ajuda a pensar o que ciência, arte e inovação podem fazer juntas: formar novas formas de olhar.
Porque talvez seja exatamente isso que esteja em disputa agora. Não se trata apenas de criar novas tecnologias, mas de formar novas capacidades de leitura do mundo. Ler os dados. Ler os territórios. Ler as desigualdades. Ler os sinais do tempo. Ler as possibilidades de futuro antes que elas se tornem urgências incontornáveis.
A Fiocruz, ao escolher sair de Manguinhos e ocupar a cidade, reafirma que ciência também é presença pública. O MAR, ao se afirmar como museu-escola enraizado no território, mostra que arte também é um método de formação. A Prefeitura, ao articular saúde, tecnologia e inovação como estratégia de desenvolvimento, aponta para uma cidade que precisa organizar melhor suas inteligências. E o Maravalley, ao reunir atores diversos em um mesmo ecossistema, demonstra que o futuro não se constrói apenas por grandes planos, mas pela repetição qualificada dos encontros certos.
No fim, talvez essa seja a grande síntese: comunicar a ciência é construir confiança no futuro. E confiança não se decreta, confiança se constrói. Com presença, linguagem, escuta, dados, cuidado, território e continuidade.
O Rio já tem os cérebros, as instituições, a criatividade e a história. O desafio agora é organizar essa potência para que ela deixe de ser uma exceção, um caso isolado ou uma promessa dispersa e se transforme em projeto de cidade.
Porque uma cidade que aprende a comunicar sua ciência, sua arte e sua tecnologia não está apenas contando melhor a própria história. Está aumentando sua capacidade de imaginar, disputar e construir o próprio futuro.
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