
*Por Ubiratan Lima
O cenário de acesso ao crédito para a indústria brasileira em 2025 foi desafiador. Dados recentes da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em parceria com a ABDE (Associação Brasileira de Desenvolvimento), pintam um quadro preocupante: 80% das indústrias enfrentaram dificuldades para acessar crédito de curto e médio prazo, e 71% para o de longo prazo. Juros elevados, exigência excessiva de garantias reais e a falta de linhas de crédito adequadas são os vilões recorrentes.
Contudo, o ponto mais crítico e paradoxal revelado por essas pesquisas não é a falta de demanda, mas, sim, uma falha intrínseca na forma como o risco está sendo avaliado pelo sistema financeiro tradicional. Muitas empresas, mesmo adimplentes e com projetos de investimento robustos, desistem de buscar financiamento não por ausência de necessidade, mas por anteciparem que as condições oferecidas tornarão a operação inviável. Isso não é um indicador de alto risco para o tomador, mas sim um reflexo de uma postura excessivamente conservadora por parte das concedentes de crédito.
Os modelos de avaliação de risco baseados apenas em histórico e colateral – o “mais do mesmo” – já não atendem à complexidade e dinamismo do mercado atual. Embora protejam o balanço no curto prazo, eles estrangulam o investimento, a inovação e, em última instância, o crescimento da produtividade no médio e longo prazo. O crédito, que deveria ser uma alavanca de desenvolvimento, transforma-se em um gargalo.
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É neste contexto que a tecnologia deixa de ser um diferencial e se consolida como infraestrutura crítica para o setor financeiro. Ferramentas avançadas de inteligência artificial (IA), análise de dados alternativos e sistemas de decisão automatizada não são um discurso futurista há bastante tempo. Elas permitem uma avaliação de risco infinitamente mais granular e preditiva.
Ao invés de depender apenas do passado, podemos integrar e analisar, em tempo real, uma vasta gama de informações: comportamento do tomador, contexto econômico macro e micro, dinâmica setorial, sinais preditivos de mercado e, até mesmo, dados ESG. Essa abordagem permite uma melhor precificação de risco, adaptada à realidade de cada empresa, e a ampliação responsável do crédito para um universo de negócios que, hoje, está subatendido. As decisões se tornam não apenas mais rápidas e consistentes, mas também mais justas e alinhadas ao potencial de cada empreendimento.
O crédito não pode se dar ao luxo de ser apenas defensivo. Com a aplicação inteligente de tecnologia e dados, ele pode (e deve!) retomar seu papel essencial como motor de desenvolvimento econômico e industrial, sem abrir mão da indispensável disciplina de risco. O momento do setor financeiro abraçar essa transformação é agora. Assim, será possível construir pontes sólidas para o futuro da indústria nacional.
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