
Por Miguel Teixeira
Há momentos em que atuam como catalisadores, que nos obrigam a enxergar o cenário com outros olhos. O Fórum Econômico Mundial em Davos este ano, por exemplo, foi um desses momentos. Ver a sintonia entre o setor público, o setor privado e diversas indústrias ao abordar a mudança de paradigma da inteligência artificial (IA) de forma aberta é um sinal muito positivo de maturidade.
Estamos em uma fase de integração. A IA deixou de ser um projeto de inovação para se tornar infraestrutura crítica. Dados recentes do World Economic Forum confirmam que 82% das organizações estão imersas em uma reinvenção profunda de seus processos através da IA generativa. As empresas começam a deixar a fase de experimentação e estão, de fato, dando passos firmes para incorporar a IA ao coração da estratégia para transformar a maneira como servem aos clientes e operam internamente.
De certa forma, estamos construindo o avião enquanto voamos. Essa realidade reforça que o objetivo fundamental é transformar profundamente os modelos de trabalho. Trata-se de criar fluxos, incentivos e mecanismos de controle que mantenham as pessoas no comando, mesmo diante da mudança de paradigma. A IA executará as tarefas com eficiência. Por isso, a liderança agora se concentra em proteger e fortalecer o que é intrinsecamente humano, como o propósito, o discernimento e a responsabilidade.
É aqui que o uso ético e responsável da IA se torna uma prática cotidiana. A ética atua como nossa bússola. Um uso responsável garante que a tecnologia amplifique o potencial humano sem comprometer a transparência nem a equidade. O grande desafio atual está na construção da confiança. A tecnologia responde ao “como” com precisão impressionante, mas o “porquê” continua sendo domínio exclusivo das pessoas. O julgamento ético e o senso de direção são faculdades humanas que ganham ainda mais valor em um ambiente automatizado.
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As organizações precisam transformar as capacidades técnicas em resultados concretos e impacto estratégico. Os desafios são reais — estruturas legadas, silos culturais e uma lacuna de talentos que demanda atenção imediata. Para enfrentar esses desafios, é preciso uma estratégia consistente, que combina aprendizagem contínua com um acompanhamento humano qualificado.
Nossa visão é de que a IA deve ser um motor de progresso que fortaleça o propósito central das organizações. Para entender para onde estamos indo, vale observar previsões que evoluíram de forma inesperada. Há alguns anos, presumia-se que os radiologistas desapareceriam diante da capacidade da IA de analisar imagens. Hoje vemos o oposto: sua demanda aumentou e suas funções foram aprimoradas. A IA realiza a análise técnica da imagem, o que permite ao radiologista concentrar-se no que realmente importa, como entregar um diagnóstico preciso, orientar o tratamento e oferecer um atendimento mais humano e contextualizado. A tecnologia torna o papel mais humano.
Essa abordagem de “human-in-the-lead” (humano na liderança, em tradução literal) redefine as exigências da liderança. O QI (quociente de inteligência) fornece estratégia e precisão técnica. No entanto, em momentos de transição, é o QE (quociente emocional) que define a resiliência, a empatia e a capacidade de gerar influência e confiança. Na era da IA, a liderança mais avançada dedica tempo a escutar e compreender como essa tecnologia impacta a vida e o bem-estar de suas equipes.
Avançamos rumo a um futuro em que a IA é o motor, mas o julgamento humano continua sendo o leme. Fico com a convicção de que manter o foco nas pessoas é a decisão mais estratégica e responsável que podemos tomar para construir um impacto sustentável.
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