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O mexicano Julián Ríos começou a desenhar a empresa quando tinha 16 anos, ao buscar uma forma de contribuir com o cuidado da mãe durante o diagnóstico de câncer de mama | Foto: Divulgação
O mexicano Julián Ríos começou a desenhar a empresa quando tinha 16 anos, ao buscar uma forma de contribuir com o cuidado da mãe durante o diagnóstico de câncer de mama | Foto: Divulgação

A empresa que hoje tenta redesenhar a forma como a radiologia funciona na América Latina nasceu, literalmente, de dentro de um hospital. Foi convivendo com diagnósticos tardios, sistemas desconectados e a repetição de erros que atravessaram a própria família que Julián Ríos decidiu transformar uma sequência de tragédias pessoais em uma solução tecnológica para um dos pontos mais críticos da medicina: o acesso a exames de imagem de qualidade. É dessa experiência, marcada tanto por sobrevivência quanto por perda, que surge a Eden, healthtech que agora aposta no Brasil como peça central da sua expansão.

“Minha vida é uma combinação de milagres e tragédias médicas. Eu nasci de inseminação artificial e fui salvo no parto pela tecnologia, mas perdi pessoas da minha família para tumores não diagnosticados. Nasceu a partir daí em mim uma missão de poder levar respostas clínicas precisas a toda a humanidade”, afirma Julián.

Ainda adolescente, Julián percebeu que não se tratava apenas de um problema clínico, mas de infraestrutura. A mãe recebeu, ao longo de quase duas décadas, três diagnósticos diferentes de câncer. No meio desse percurso, o fundador passou a conviver de perto com atrasos na liberação de exames, perda de informação entre sistemas, dependência de estruturas locais e a dificuldade de acessar especialistas quando eles simplesmente não estavam disponíveis.

Foi nesse contexto que, aos 16 anos, ele saiu da escola e começou a desenhar o que mais tarde se tornaria a Eden. Em 2016, entre a América Latina e o Vale do Silício, a empresa foi formalmente criada a partir de uma escolha técnica e estratégica: começar pela imagem médica. “Sem imagem, não existe diagnóstico. E sem diagnóstico, não existe tratamento”, resume.

Enquanto a maior parte do mercado ainda operava – e, em muitos casos, continua operando – com sistemas instalados localmente, dependentes de servidores dentro das próprias clínicas e hospitais, a Eden nasceu com um PACS (Picture Archiving and Communication System) nativo em nuvem. O desenho permite que exames sejam acessados com qualidade diagnóstica completa por radiologistas credenciados, de qualquer lugar, sem a necessidade de cópias, fotos de tela ou exportações degradadas.

Expansão para o Brasil

Esse ponto é central para um país como o Brasil, onde a falta de especialistas fora dos grandes centros segue sendo um gargalo estrutural. A leitura de uma tomografia feita no interior da Região Norte, por exemplo, não precisa mais estar condicionada à presença física de um especialista naquele hospital — pode ser realizada remotamente por um radiologista em outro estado, com acesso ao exame original e às ferramentas de análise.

Em outubro do ano passado, a Eden divulgou a captação de US$ 22 milhões, em uma rodada liderada pela Sierra VenturesLiquid 2 Ventures e Daniel Servitje, CEO do Grupo Bimbo. O novo aporte elevou a US$ 32 milhões o valor levantado pela healthtech, considerando uma rodada de US$ 10 milhões liderada pela Sierra em 2024, com participação de Kaszek, Alt Capital, Y Combinator e Khosla Ventures.

Segundo Julián, parte significativa desses recursos será usada para a expansão no mercado brasileiro. A operação no país começou em 2025, já conta com escritório físico em São Paulo — exigência regulatória — e um time local em crescimento. Parte do plano envolve a contratação de engenheiros e especialistas médicos no Brasil e a adaptação da plataforma às exigências regulatórias e operacionais do mercado.

“O Brasil é o país mais importante estrategicamente para a Eden na América Latina. Já fechamos acordos com mais de 100 departamentos de imagens e estamos em conversas com os hospitais mais avançados do país. Apesar de os avanços serem mais rápidos no setor privado, também queremos chegar ao SUS”, afirma o empreendedor.

Julián destaca que o país concentra uma parcela relevante dos exames realizados na América Latina, convive com forte desigualdade regional na distribuição de radiologistas e ainda opera, majoritariamente, com plataformas on-premise, o que torna o país um mercado-chave para a empresa.

Inteligência artificial

Nos últimos anos, a Eden passou a reposicionar seu produto para um segundo eixo: tornar a inteligência artificial parte do próprio fluxo de trabalho do radiologista — e não uma camada paralela.

É nesse momento que entra o reforço da liderança clínica no Brasil, com a chegada de Felipe Kitamura como Chief Medical Officer. Professor afiliado de Radiologia da Universidade Federal de São Paulo, ele construiu a carreira exatamente no ponto em que pesquisa acadêmica e operação clínica se encontram. Ao longo dos últimos anos, ele concentrou seu trabalho no desenvolvimento e na implementação prática de modelos de IA em ambientes reais de diagnóstico, inclusive durante sua passagem pela Dasa.

Segundo ele, boa parte das soluções de IA lançadas na radiologia nos últimos ciclos acabou criando um efeito colateral pouco discutido: mais etapas no fluxo.

“A IA que existe hoje acrescenta mais trabalho à rotina do radiologista, que além de continuar tendo que olhar a imagem, tem que conferir o que a IA fez. A tecnologia da Eden permita que a IA entregue uma espécie de pré-laudo. É como se outro médico tivesse feito o exame e você só confere. Ou seja, muito mais rápido do que ter que fazer tudo do zero”, diz.

Para Felipe, o ponto crítico não é substituir o especialista, mas reduzir o cansaço cognitivo e operacional de quem está na linha de frente. A própria rotina de validação dos laudos cria, segundo ele, um ciclo contínuo de melhoria dos modelos, alimentado diretamente pelos médicos.

Hoje, a Eden está presente em 18 países, trabalha com mais de 2.600 instituições, processa cerca de 5 bilhões de imagens por ano e atende aproximadamente 19 milhões de pacientes.

O post Depois de levantar US$ 22M, Eden fortalece expansão no Brasil apareceu primeiro em Startups.