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Humberto Moises, CIO da Ipiranga, paternidade, pai

Quando Humberto Moises recebeu o diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista) do filho Vitor, sua primeira reação foi de um pai preocupado: começou a rever todos os planos. “É como se você estivesse planejando umas férias na praia e, na hora de embarcar, alguém dissesse: ‘não, vocês vão para a montanha’”, conta o diretor de tecnologia e inovação da Ipiranga.

A analogia, que Moises aprendeu em um filme, ilustra perfeitamente o que milhares de famílias brasileiras vivenciam ao receber o diagnóstico de uma criança neuroatípica. Mas a história do executivo mostra como essa “mudança de destino” pode se transformar em algo muito maior do que uma jornada pessoal.

Hoje, 14 anos depois, Vitor não apenas ensinou ao pai lições valiosas sobre paternidade, como inspirou a criação de um dos programas de inclusão mais impactantes do mundo corporativo brasileiro: o Inclusão Tech da Ipiranga, que já capacitou mais de 300 pessoas com deficiência e contratou 25 delas.

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A transformação do olhar paterno

“O Vitor é meu maior professor”, afirma sem hesitar. “Eu sou um pai, um ser humano, um amigo, um filho e um profissional muito melhor pelo quanto eu aprendo com ele.”

A transformação não foi imediata. Como muitos pais, Moises inicialmente baixou suas expectativas. “Você começa a falar: ‘eu quero que meu filho seja feliz, se ele for feliz, para mim já está bom’”, lembra. “Mas há um cuidado: isso pode gerar uma expectativa muito baixa para ele.”

O ponto de virada veio através de pequenas descobertas. Vitor, que é não-verbal, surpreendeu a família ao acertar todas as perguntas em uma prova de inglês. “A gente não sabe o que ele sabe, não sabemos o potencial que ele tem”, reflete o pai.

Essa percepção, tida muito antes do acontecido, mudou completamente a abordagem familiar. Em vez de proteger Vitor de frustrações, Moises e a esposa Vanessa passaram a expô-lo a desafios, sempre respeitando suas particularidades. “Hoje temos recebido notícias da escola sobre coisas que ele sabe e nós nem sabíamos que ele sabia.”

Do aprendizado pessoal ao impacto social

A experiência com Vitor começou a transbordar para a vida profissional do executivo. Como líder de tecnologia e inovação na Ipiranga, ele desenvolveu o que chama de “liderança empática” – uma abordagem que considera as particularidades de cada pessoa da equipe.

“Quando você é pai de uma criança com alguma síndrome ou deficiência, você aprende que cada um está numa jornada diferente”, explica. “No ambiente corporativo, isso se traduz em entender que você tem que gerar condições para que as pessoas estejam no momento de entregar seu potencial máximo.”

Essa filosofia ganhou forma concreta quando a Ipiranga decidiu criar um programa de impacto social. Em reunião com a equipe de RH, ele fez uma proposta: “Eu vou ser o responsável com maior prazer, mas a gente tem que fazer um programa genuíno, olhando para o impacto que causamos na vida dessas pessoas.”

Inclusão Tech: o programa que mudou vidas

O resultado foi o Inclusão Tech, um programa pioneiro que não fez nenhum filtro de experiência prévia ou tipo de deficiência. “Qualquer pessoa, independente de trabalhar em TI ou da síndrome que tivesse, podia participar”, conta.

Dos 300 candidatos capacitados, 25 foram contratados pela empresa. Mas o impacto foi muito além dos números. Ana Clara, uma das analistas contratadas que também tem TEA, exemplifica a transformação. “Ela chegava com o abafador, não conseguia olhar nos olhos”, lembra Humberto. “Depois de um ano, foi ela quem fez a abertura do nosso evento de tecnologia.”

No evento, Ana Clara contou sua história: “Eu fui criada pelos meus pais como uma pessoa que dependia deles. O programa me trouxe o maior entendimento de quem eu sou. Acordo todo dia e agradeço a Deus por essa oportunidade. Na próxima semana já aluguei um apartamento e vou morar sozinha.”

A cereja do bolo: famílias transformadas

Para Moises, o programa confirmou algo que ele já intuía: “Não estamos transformando a vida de 25 pessoas. Estamos transformando a vida de 25 famílias.”

Um dos momentos mais emocionantes veio durante um evento de premiação. Na saída, uma funcionária do evento o abordou: “Você é o Humberto? Sou irmã da Bia [participante do programa]. Obrigada por ter transformado a vida da minha família.”

Lições para além da paternidade

A jornada de Moises ilustra como a paternidade neuroatípica pode ser transformadora não apenas para a família, mas para a sociedade. “Eu sempre convido meu time a entender as pequenas vitórias no contexto de cada pessoa, porque não podemos julgar apenas pela nossa perspectiva.”

Ele conta uma história que marcou essa percepção: no elevador da empresa, um colega reclamava do fim de semana “horrível” porque a filha pequena “não parava de falar”. “Quando fechou o elevador, pensei: ‘o fim de semana dele foi horrível porque ele estava vivendo o meu sonho’.”

O desafio da honestidade

Ele faz questão de não romantizar a experiência. “É uma jornada difícil. Eu trocaria todo esse aprendizado para ver meu filho neurotípico”, admite com honestidade. “Mas não posso. Então, já que não posso, vou aprender e dar para ele o melhor mundo que eu puder.”

Essa construção do “melhor mundo possível” envolveu a família toda. Vanessa, esposa do executivo, abriu mão da carreira para acompanhar as terapias de Vitor – decisão que o executivo reconhece como fundamental. “Eu a admiro mais do que a amo, porque sem ela, eu não seria o pai que sou.”

Um legado em construção

Hoje, Vitor tem 14 anos e sua presença na vida de Humberto Moises se expandiu muito além da relação pai-filho. “Ele me fez ser um outro ser humano”, reflete o executivo.

Para o Dia dos Pais, a história de Moises serve como inspiração não apenas para pais de crianças neuroatípicas, mas para todos aqueles que buscam transformar aprendizados pessoais em impacto social.

“Espero que, um dia, meu filho encontre um programa como esse”, diz o executivo sobre o Inclusão Tech. É essa esperança que move não apenas um pai, mas um líder que entendeu que as maiores lições nem sempre vêm dos livros – às vezes vêm de um menino de 14 anos que, sem falar uma palavra, ensina sobre potencial, superação e amor incondicional.

O programa continua impactando vidas e provando que, às vezes, quando somos forçados a trocar a praia pela montanha, descobrimos paisagens que jamais imaginaríamos encontrar.

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