
Por Bruno Leal Magalhães e Alberto Ribeiro
Nos últimos anos, empresas brasileiras investiram fortemente em agendas de inovação, ESG, diversidade e transformação cultural. O ambiente econômico mais favorável, somado à pressão de investidores e consumidores, criou o cenário ideal para iniciativas ousadas — e os resultados vieram. Organizações mais diversas, digitais e sustentáveis demonstraram maior resiliência e atraíram capital, talentos e confiança.
Mas os ventos mudaram. Com a taxa Selic a 15% ao ano, crescimento projetado abaixo de 2% (Boletim Focus) e o endividamento das famílias chegando a 78% em abril de 2025 (Banco Central), a pressão por eficiência voltou ao centro da mesa — não por nostalgia, mas por sobrevivência. Empresas precisam fazer mais com menos: entregar valor real, reduzir desperdícios e operar com inteligência. A eficiência de custos, que por um tempo pareceu obsoleta, retorna como critério de permanência no jogo.
Essa reorientação já é visível: 70% das empresas no Brasil iniciaram programas formais de revisão de custos e produtividade em 2024 (CNI). Mais de três quartos das organizações na América Latina já adotaram projetos com IA generativa, sendo que 43% delas destinaram orçamento específico para iniciativas de transformação operacional, segundo dados da NTT DATA.
Leia também: Do amor à ação: paternidade inspira inclusão tech na Ipiranga
No entanto, diferentemente de ciclos anteriores, o momento exige mais do que cortes pontuais ou contenção de despesas. Trata-se de uma transformação profunda e estrutural: redesenhar processos, reorganizar estruturas, automatizar com inteligência, reaproveitar talentos e colocar a tecnologia no centro da entrega de valor. A eficiência precisa evoluir de uma prática emergencial para uma competência organizacional contínua.
A seguir, seguem sete pilares estratégicos que estão guiando as empresas mais bem-sucedidas na construção de operações mais enxutas, inteligentes e sustentáveis:
- Reorganização de portfólio com foco no core
Rever produtos, serviços e canais com base no valor real gerado, e não apenas na receita bruta. A simplificação reduz complexidade, sobrecarga e custos indiretos — e libera capital e foco para o que realmente importa. - Redesenho organizacional orientado à entrega de valor
Eliminar camadas intermediárias e funções redundantes. Organizações eficientes operam com menos coordenação e mais execução, estruturadas em torno de jornadas do cliente e fluxos de trabalho completos. - Automação inteligente com foco em valor real
Automatizar o que deve ser automatizado, mas só depois de eliminar o que não precisa mais existir. A combinação de RPA, IA generativa e machine learning gera ganhos significativos — com reduções de até 30% em custos operacionais em áreas como finanças, atendimento e jurídico. O objetivo não é substituir pessoas, mas liberar talentos para atividades mais estratégicas. - Gestão orientada a dados e analytics operacional
Decisões precisam ser baseadas em dados atualizados, confiáveis e compartilhados entre áreas. Com governança robusta e uso de analytics preditivo, é possível antecipar problemas e agir preventivamente. Empresas maduras em analytics reduziram em até 20% os incidentes inesperados e aumentaram sua eficiência geral em 15%, segundo estudo da NTT DATA. - Smart CAPEX e disciplina sobre retorno de capital
O investimento produtivo voltou à pauta — mas com um novo critério: impacto real e sustentável. ROI, payback e potencial de escala são analisados com mais rigor. Iniciativas que melhoram a experiência do cliente ou fortalecem a diferenciação estratégica ganham prioridade, mesmo com retornos marginais. - Cultura de produtividade e melhoria contínua
A eficiência precisa estar no DNA da organização. Isso se traduz em metas operacionais claras, ciclos curtos de revisão e responsabilização por entregas. A disciplina na execução deve caminhar ao lado da inovação e do bem-estar — não como opostos, mas como forças complementares. - Redes colaborativas para eficiência escalável
Parcerias com especialistas que operam com tecnologia, escala e metas compartilhadas. Não se trata apenas de terceirizar, mas de redesenhar a operação com foco em valor gerado, transformando custos fixos em variáveis e acelerando a digitalização com controle.
Mais do que uma reação a um cenário adverso, o que está em curso é uma inflexão estratégica. A eficiência deixa de ser um freio e passa a ser vetor de ambição com responsabilidade. Crescer, sim — mas com lucidez, precisão na alocação de capital e inteligência operacional.
Essa reprogramação das empresas não é opcional. O mercado já não perdoa estruturas lentas, processos redundantes ou desperdício mascarado de inovação. Quem entender isso cedo terá mais chances de prosperar no ciclo seguinte. Porque o que está em jogo não é apenas cortar custos — é construir uma nova lógica de operação: mais adaptável, mais inteligente, e capaz de sustentar o crescimento mesmo em tempos desafiadores.
Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!


