
Transformar ciência em negócio é um caminho longo. Envolve anos de pesquisa, validação tecnológica, regulação e capital paciente. Para mulheres que atuam em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática – as chamadas STEM –, o percurso costuma incluir um desafio adicional: ocupar espaços ainda majoritariamente masculinos e provar constantemente sua credibilidade em ambientes altamente técnicos.
“Levei um tempo para aceitar que não era o produto o problema, mas sim o meu gênero”, conta Daniele de Mari, CEO e fundadora da Neurogram, que durante os dois primeiros anos da startup foi empreendedora solo e sentiu na pele a dificuldade de acessar capital sem um rosto masculino ao seu lado no pitch.
Formada em neurociência pela Georgia Tech, nos Estados Unidos, ela desenvolveu uma plataforma online de eletroencefalograma (EEG), capaz de receber exames de diferentes fabricantes, padronizar os dados e centralizar todo o fluxo em um único ambiente. “Cheguei a ouvir de um investidor que eu era ótima CEO, que a dor que eu estava resolvendo era importante, e que os resultados que eu estava apresentando eram muito bons, mas que ele não confiava em uma ‘menina do interior do Paraná’ para fazer acontecer”, conta.
Histórias como a dela são mais comuns do que gostaríamos de admitir, e contribuem para um cenário em que muitas mulheres acabam desistindo do sonho de empreender antes mesmo de começar. No Brasil, apenas 19,9% das pessoas fundadoras de startups são mulheres, segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Quando o recorte se volta para setores mais intensivos em tecnologia, a diferença se torna ainda mais evidente. Em indtechs, que desenvolvem soluções para a indústria, apenas 3,53% das fundadoras são mulheres. Já nas startups de tecnologia de forma mais ampla, elas representam 8,97%.
No caso de Daniele, a empreendedora buscou focar nas críticas construtivas feitas durante a busca por investimento e aprimorar seu negócio, deixando de lado os comentários enviesados. Em 2025, a Neurogram levantou sua terceira rodada de investimento, um seed de US$ 3 milhões liderado pela Headline.
Formação e representatividade
Mesmo antes de chegar ao mercado, porém, a desigualdade já se manifesta nas salas de aula. Em 2023, apenas 26% dos integrantes em cursos de STEM no Brasil eram mulheres, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e do Censo da Educação Superior.
“O viés de gênero desde a infância tem um impacto gigantesco no futuro das mulheres”, afirma Daniella Castro, CTO e cofundadora da Huna, deep tech brasileira que desenvolve soluções que auxiliam na detecção do câncer. Ela cita exemplos simples do cotidiano: nos setores masculinos das lojas de brinquedos, predominam legos, jogos de astronauta e atividades que estimulam a curiosidade e o pensamento crítico. Já nas seções femininas, ainda é comum encontrar ferro de passar roupa e objetos de cozinha.
Os dados confirmam. Uma pesquisa de 2017 publicada pela revista norte-americana Science mostra que, a partir dos seis anos, meninas começam a duvidar de sua própria capacidade intelectual em comparação aos meninos, associando menos “brilhantismo” ao próprio gênero.

Para ajudar a resolver esse problema, institutos voltados para o ensino de carreiras nas áreas de tecnologia e inovação têm promovido programas de incentivo à entrada de estudantes do sexo feminino. É o caso do Impa Tech, o curso de graduação do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio, que reserva 25% das vagas para meninas.
Outro exemplo é o projeto “Meninas e Mulheres na Ciência” do Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações), lançado em 2025, que visa aumentar a representatividade feminina nas áreas de tecnologia (TIC), especialmente em Internet das Coisas (IoT) e IA.
Coordenadora do projeto, Daniely Gomes conta que, quando começou a estudar no Inatel em 2002, dos 125 ingressantes, apenas seis eram mulheres. “Eu me sentia muito sozinha e, até o quinto período, ainda pensava em me mudar para Belo Horizonte. Das seis mulheres que entraram comigo, apenas três ou quatro continuaram”, afirma.
Hoje, ela é exemplo para as meninas que ingressam no instituto, onde atua também como professora. Apesar de reconhecer que o cenário está mudando, com maior proporção de estudantes femininas em relação ao passado, Daniely afirma que ainda há um caminho longo a percorrer.
“Já dei aula em turmas que tinham apenas alunos homens. Além disso, ainda falta, em muitos casos, apoio familiar e das próprias escolas”, diz. Segundo ela, essas foram barreiras encontradas ao levar o projeto “Meninas e Mulheres na Ciência” às três escolas de Ensino Médio de Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, onde está o Inatel.
Uma das escolas nunca chegou a receber os representantes do projeto, e, em outra, as meninas desistiram de participar porque teriam que abrir uma conta bancária em seu nome para receber a bolsa de estudos.

Isis Abbud, co-CEO e cofundadora da Qive (plataforma especializada em automação de documentos fiscais e contas a pagar), conta que o ambiente familiar teve um papel decisivo para que ela enxergasse possibilidades que muitas meninas não costumam visualizar tão cedo. A principal inspiração veio da mãe, que, mesmo tendo uma origem humilde e sem concluir a escolaridade na juventude, construiu uma trajetória empreendedora de sucesso ao abrir uma empresa de materiais cirúrgicos.
Foi quando ingressou na curso de Engenharia de Produção, em 2006, que ela percebeu que a presença feminina era bastante reduzida na área onde escolheu trabalhar. Em uma turma com mais de 50 alunos, havia apenas seis ou sete mulheres.
Ela relata que enfrentou situações em que precisava provar mais sua capacidade, especialmente diante de alguns professores. “Eu sentia que tinha que provar mil vezes mais que era boa naquilo para conseguir visibilidade”, afirma.
A empreendedora também lembra que, para conquistar oportunidades acadêmicas, como uma vaga em iniciação científica e um programa internacional, precisou insistir e demonstrar desempenho acima da média — um esforço que, ao olhar para trás, afirma ter sido maior do que o exigido de muitos colegas homens.
Nara Bobko, gerente acadêmica do Impa Tech, conta que o desempenho das estudantes do sexo feminino que entraram através da reserva de vagas é tão bom quanto o dos alunos homens, muitas vezes superando a média das turmas. Além disso, a retenção dessas meninas também tem tido sucesso.
“Essas meninas se sentem pertencentes ali, e isso tem um efeito estrutural. Muitas são as primeiras nas suas vizinhanças a ingressarem em carreiras de matemática e tecnologia, e acabam fazendo com que outras mulheres vislumbrem possibilidades nessas áreas. A mudança é gradual e temos que persistir para que se aproxime do cenário ideal”, aponta.
Desafios estruturais e o “sócio homem”
Mesmo entre as mulheres que conseguem ingressar em cursos das áreas científicas e de tecnologia, no entanto, ainda existem outras barreiras estruturais que dificultam a ampliação da participação feminina no mercado de inovação. Segundo Cláudia Schulz, CEO da Abstartups, um dos pontos mais recorrentes é o acesso a capital, já que mulheres enfrentam maiores dificuldades para captar investimento em comparação com equipes predominantemente masculinas.
Ela destaca que, além do financiamento, a representatividade e as redes de relacionamento são fundamentais, especialmente nas fases iniciais de crescimento. “Também persistem barreiras culturais e comportamentais, que impactam a percepção de risco por parte de investidores e a própria confiança de mulheres em ambientes tradicionalmente dominados por homens, como tecnologia e venture capital”, completa Cláudia.
Segundo a executiva, a aceleração da participação feminina passa por algumas frentes estratégicas: fortalecimento de redes de apoio e comunidades empreendedoras, aumento de programas de capacitação em liderança e tecnologia, iniciativas de investimento intencionais à diversidade de gênero e maior visibilidade de cases de sucesso. “Políticas públicas e programas de incentivo também podem tornar o ecossistema mais inclusivo e representativo”, diz.
Isis Abbud, da Qive, acrescenta que a captação muitas vezes envolve uma construção de relacionamento gradual, que vai além das reuniões formais. Nesse ponto, barreiras culturais acabam influenciando a interação. Enquanto fundadores homens costumam estreitar esses vínculos em encontros informais, como jantares ou conversas mais descontraídas, esse tipo de aproximação se torna menos natural quando envolve mulheres — tanto pela insegurança das próprias empreendedoras sobre como serão percebidas quanto pela cautela de investidores ao interagir nesse contexto.
“Eu tive uma vantagem porque estava com sócios homens. Isso já ajuda, porque você não está sozinha levantando esse investimento”, afirma.

Verônica Taquette, engenheira de computação formada pela Coppe UFRJ, e CEO da Maravi, conta que apesar de estar acostumada com o estranhamento dos colegas homens na universidade e durante sua trajetória como empreendedora, foi no mercado financeiro onde sentiu que havia, de fato, uma diferença de tratamento por ser mulher. Sua empresa desenvolve softwares voltados para o backoffice das gestoras de investimento.
“Há alguns anos eu fui visitar uma gestora, potencial cliente, e levei um estagiário 10 anos mais novo que eu, que queria assistir a reunião para aprender. Quando terminei a apresentação, todas as dúvidas foram direcionadas a ele, como se eu não estivesse presente”, relata.
A necessidade de ter um “rosto masculino” no pitch foi um dos motivos que levaram Daniele de Mari, fundadora da Neurogram, a buscar um sócio. “Ele tem valores muito alinhados com o meu, é ótimo. Mas parte do motivo foi ter um homem no pitch”, conta Daniele.
A empreendedora diz que em diversas vezes foi questionada se seria a “próxima Elizabeth Holmes”, fundadora da startup de biotecnologia Theranos, que prometia revolucionar exames de sangue, mas acabou se tornando um dos maiores escândalos de fraude do Vale do Silício. “Isso não acontece com os homens. Quantos founders já foram acusados de fraude e presos e nunca é feita essa relação com outros fundadores homens”.
Maternidade como vantagem para a carreira
Um dos mitos que afastam mulheres da trajetória empreendedora e até mesmo de avançar no mercado de trabalho é a ideia de que não é possível ser mãe e profissional ao mesmo tempo, sem deixar um desses papéis de lado. Verônica, da Maravi, é mãe de gêmeos, e discorda dessa afirmação. Para ela, a maternidade foi uma forma de desenvolver novas habilidades de gestão e aprimorar a forma como lida com pessoas.
“Encaro a maternidade como se estivesse fazendo um pós-doc. Estou investindo na minha saúde mental e nas minhas competências”, afirma.
A empreendedora conta que planejou a licença-maternidade com os sócios, organizando esse período de afastamento como se estivesse apenas tirando férias prolongadas.
“Quando voltei, consegui priorizar o que de fato deveria estar na minha mão e o que deveria ter delegado. Minha carreira melhorou muito depois desse momento, porque consegui focar no que era mais estratégico. Muitas mulheres têm essa ideia de que a licença vai prejudicar a carreira, mas o que são seis meses perto da sua trajetória profissional?”, pondera.
Cases de sucesso
Mesmo diante de todas essas barreiras, essas empreendedoras conseguiram transformar conhecimento técnico em negócios inovadores, criando startups baseadas em pesquisa avançada e tecnologias de fronteira. É o caso também de Duda Franklin, engenheira biomédica e neurocientista que fundou a orby.co, deeptech que desenvolve sistemas de neuromodulação cerebral não invasiva voltados à reabilitação funcional, ajudando a aliviar a dor e recuperar o controle motor de pessoas que perderam movimentos.

Desde muito nova, ela transitava entre ciência, tecnologia e negócios. “Sempre fui motivada pela curiosidade e pelo desejo de construir coisas, brinco que é o meu espírito maker. Nunca enxerguei a ciência apenas como produção de conhecimento, mas como um instrumento de transformação”, afirma Duda.
Foi essa visão que a levou a transformar pesquisa em empreendimento. “Em algum momento percebi que, para gerar impacto de verdade, não bastava desenvolver a tecnologia. Era preciso construir uma empresa capaz de levá-la ao mundo, criando produto, mercado e escala”, diz.
Esse movimento, no entanto, traz desafios adicionais quando acontece em áreas altamente técnicas. “Quando você é uma mulher jovem em áreas altamente técnicas, há uma tendência de as pessoas subestimarem seu nível de domínio ou a profundidade da sua pesquisa. Em muitos contextos, você precisa provar sua capacidade repetidamente”, conta Duda.
Além da questão de gênero, a empreendedora também relata ter enfrentado desafios relacionados à cor da pele ao longo da trajetória na ciência e nos negócios. “A invisibilização muitas vezes não é explícita. Ela aparece de forma mais sutil, como quando a sua presença em determinados espaços ainda é percebida como algo surpreendente, fora do padrão esperado”, afirma.
Para ela, a forma de lidar com esse tipo de situação foi manter o foco no rigor científico. “A ciência tem uma característica muito interessante: ela responde com evidências”, pontua.
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