
A Rare Earths Americas (REA), empresa de mineração norte-americana focada em terras raras, iniciou os estudos de viabilidade do projeto Constellation, em Poços de Caldas (MG). Em comunicado divulgado nesta quarta-feira (07), a companhia com sede em Manchester, no estado da Geórgia (EUA), disse que espera concluir o estudo em meados de 2027.
O objetivo, de acordo com a empresa, é avaliar a viabilidade econômica do empreendimento, incluindo um plano preliminar de mina, potencial de produção, processamento, infraestrutura, licenciamento e estimativas econômicas.
O projeto tem um recurso mineral inferido de 266,2 milhões de toneladas. Isso significa que, com base nos dados geológicos disponíveis, a empresa estima a existência desse volume de material contendo terras raras. Estudos e novas sondagens ainda serão necessários para determinar quanto desse recurso poderá ser efetivamente aproveitado.
Entre os minerais identificados estão neodímio e praseodímio, usados na fabricação de ímãs permanentes de alta potência. Esses componentes são importantes para motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, robôs e drones, entre outras aplicações. Disprósio e térbio também são usados nesses ímãs e ajudam a manter seu desempenho em temperaturas elevadas.
O projeto Constellation fica em Poços de Caldas, no sul de Minas Gerais, uma região conhecida pela presença de terras raras em argilas de adsorção iônica, um tipo de depósito em que esses minerais ficam presos às partículas de argila e podem ser extraídos por processos relativamente mais simples.
A área do projeto soma cerca de 59,9 km², distribuídos em 21 direitos minerários. Até o momento, a empresa identificou recursos minerais em aproximadamente 16 km² dessa área.
Esse é apenas um dos três projetos de terras raras que a REA possui no Brasil, ao lado do Projeto Alpha, na Bahia, e do projeto de exploração em estágio inicial Homer-A, em Goiás.
“O Constellation reúne características que consideramos mais importantes nas terras raras de argila iônica brasileiras: escala, bom teor, presença relevante de terras raras pesadas e localização em uma região que vem atraindo cada vez mais capital estratégico”, disse o CEO da Rare Earths Americas, Donald Swartz, em comunicado enviado ao mercado.
Ele acrescenta que a atividade recente envolvendo o Projeto Caldeira, da Meteoric, e a Serra Verde ajuda a contextualizar o crescente interesse pelo Brasil e por projetos de argila de adsorção iônica “capazes de fornecer terras raras para a fabricação de ímãs fora da China e de Mianmar”.
Em seu site, a Rare Earths Americas (REA) se descreve como uma empresa em estágio de exploração que desenvolve um portfólio de projetos de minerais críticos, com foco em ativos de terras raras pesadas de alto teor nos Estados Unidos e no Brasil.
O portfólio da REA inclui três projetos que, segundo a companhia, podem posicioná-la futuramente como uma fonte importante de terras raras fora da China, “em linha com as prioridades industriais e de segurança nacional dos países ocidentais”.
Em apresentação a investidores divulgada em agosto, a REA afirma que China e Mianmar respondem por 91% da produção global de disprósio e térbio. A empresa descreve a cadeia mianmarense como frágil, por causa da guerra civil e da instabilidade política, e defende que a nova oferta venha de países como o Brasil. O documento cita ainda um relatório do Morgan Stanley, segundo o qual o Brasil tem 14% das reservas globais, atrás apenas da China, com 54%.
A companhia lista, como sinais do apetite norte-americano pelo setor, o financiamento do governo dos EUA ao projeto da mineradora brasileira Serra Verde, em Goiás, e a compra dessa mesma mineradora pela USA Rare Earth, avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, anunciada em abril deste ano.
O lado político das terras raras
Até então pouco conhecidas do grande público, as terras raras ganharam visibilidade nas eleições presidenciais deste ano no Brasil. Tanto Lula quando Flávio Bolsonaro defendem o potencial desses minerais estratégicos para a indústria brasileira. No entanto, os candidatos têm visões opostas no que se refere à soberania.
Formadas por um grupo de elementos químicos usados na fabricação de tecnologias de alto desempenho, como robôs e drones, as terras raras possuem uma cadeira de produção hoje concentrada na China.
É aí que entra o Brasil. O país possui grandes recursos de terras raras e vem tentando transformar esse potencial geológico em uma cadeia produtiva. Os depósitos brasileiros de argilas de adsorção iônica, como os explorados em projetos em Minas Gerais e Goiás, são particularmente interessantes porque podem conter terras raras pesadas, como disprósio e térbio.
Em março, na CPAC, conferência conservadora realizada nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro disse que o Brasil é a solução para os EUA quebrarem a dependência da China por minerais críticos. Ele argumentou que sem terras raras a segurança nacional americana fica vulnerável e a produção militar avançada pode cair nas mãos de adversários.
Já Lula, em setembro, ao sancionar a lei que criou a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras, afirmou que o Brasil não será “colônia de quem quer que seja”. Na mesma ocasião, criticou adversários internos que, segundo ele, prometeram entregar os minerais em estado bruto e a preço de banana. A lei tem entre seus objetivos a pesquisa, a produção, o beneficiamento e a transformação desses recursos em território nacional. O presidente não descarta parcerias, e já disse que o Brasil pode negociar com outros países, desde que o valor agregado fique aqui.
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