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Educação

Por Marcos Braga Stahl

Participar do SXSW foi, antes de tudo, um mergulho em um debate que ainda está longe de se esgotar: o papel da inteligência artificial na educação e, de forma mais ampla, na sociedade. Não por acaso, cerca de 70% das discussões giraram em torno desse tema. Ao observar o cenário de perto, ficam evidentes as diferenças entre Estados Unidos e Brasil no que se refere à adoção prática de tecnologia.

Visitei duas escolas de Ensino Médio em Austin, uma pública e outra particular, as chamadas High School, onde o ensino é estruturado com base em projetos. As salas de informática não são apenas espaços de acesso, mas ambientes que provocam o aluno a construir, testar e criar a partir da tecnologia. Em outras instituições, o modelo vai ainda mais longe: os alunos praticamente não têm aulas expositivas tradicionais. O professor assume um papel de apoio, enquanto o conteúdo é desenvolvido de forma online, com autonomia por parte dos estudantes.

Ao trazer essas percepções para a realidade brasileira, especialmente em organizações de ensino, fica claro que a tecnologia na educação não deve ser vista apenas como tendência, mas como uma alavanca concreta de geração de valor, tanto para o aprendizado quanto para o próprio negócio. A inteligência artificial, por exemplo, já pode ser aplicada para mapear padrões de comportamento dos alunos, identificando suas principais dúvidas, dificuldades e interesses a partir de dados de uso e pesquisa. Com isso, educadores e instituições ganham insumos mais precisos para desenvolver planos de ação mais assertivos, com impacto direto no desempenho acadêmico e no desenvolvimento social desses estudantes.

Ainda assim, uma conclusão se reforça: o professor não será substituído. Pelo contrário. O que se observa nas escolas mais inovadoras é uma ressignificação do seu papel, cada vez mais essencial na mediação humana, no acompanhamento emocional e no desenvolvimento social dos alunos, aspectos que a tecnologia, por mais avançada que seja, não é capaz de replicar plenamente.

O uso da inteligência artificial em sala de aula segue sendo um tema em aberto, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, com dúvidas e receios semelhantes. A diferença está no ritmo de experimentação. Se na educação o cenário é de construção, no mercado a sensação é de ruptura.

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A realidade da automação e seus impactos profundos

Um outro ponto marcante dessa experiência foi observar o avanço da robotização de humanoides em maior escala. Durante muito tempo, falou-se sobre automação como tendência. Agora, ela já é realidade, e em um nível que redefine a lógica de produção e trabalho.

A experiência de andar em um táxi autônomo deixa isso muito claro. Em uma única cidade, cerca de 200 carros operam sem motorista. O uso é simples, como qualquer aplicativo de transporte, e o impacto vai além da conveniência. Não existe a incerteza sobre o trajeto, não há interrupções, o serviço funciona 24 horas por dia. E, mais do que isso, o nível de segurança impressiona. O sistema toma decisões com precisão, reagindo a riscos no trânsito com uma lógica que simula o comportamento humano, muitas vezes, de forma mais eficiente.

Esse mesmo princípio se aplica à indústria. Em fábricas altamente automatizadas, a produção deixa de estar limitada à jornada humana, uma vez que o funcionamento contínuo, 24 horas por dia, cria um fluxo praticamente infinito. E isso muda tudo.

Países que antes enfrentavam limitações por falta de mão de obra passam a enxergar uma nova possibilidade: investir em tecnologia para gerar valor, independentemente do tamanho da sua força de trabalho. É uma mudança estrutural e profundamente disruptiva. Diante disso, a pergunta inevitável surge: estamos falando de ferramentas que auxiliam ou que substituem o ser humano?

Não é apenas sobre tecnologia, mas sobre identidade, sobre o papel social, sobre o futuro das relações de trabalho. Contudo, talvez o ponto central não seja escolher entre substituição do ser humano ou apoio da tecnologia. E sim entender como essas tecnologias podem, de fato, melhorar a vida em sociedade.

O que é possível de se vivenciar no SXSW não é um futuro distante. Foi um presente em construção, cheio de possibilidades, incertezas e, principalmente, escolhas a serem feitas.

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