
O Brasil entrou definitivamente na corrida global por infraestrutura digital, mas ainda corre o risco de largar atrás. No centro desse debate está o Redata, regime tributário voltado à atração de investimentos em data centers para o País, que é pauta no Congresso. Mais do que uma discussão fiscal, o tema se tornou estratégico para o posicionamento do Brasil na economia de dados e inteligência artificial (IA).
Na proposta do Redata, a desoneração de investimentos em infraestrutura, maior previsibilidade fiscal e estímulos à atração de grandes operadores globais. No entanto, a medida provisória que estruturava o Redata perdeu a validade ao não ser votada dentro do prazo legal e, com isso, caducou no Congresso. Na prática, o tema não saiu da agenda, mas volta à estaca zero do ponto de vista legislativo.
Os próximos passos passam pela rearticulação do governo e do setor privado para reapresentar o tema, seja por meio de um novo projeto de lei ou de outra medida provisória, além da construção de consenso em torno do impacto fiscal e dos incentivos necessários.
Para Atilio Rulli, vice-presidente de Relações Institucionais da Huawei no Brasil, o momento atual é menos sobre ausência de oportunidade e mais sobre o risco de perder timing. “Existe uma janela clara. Ela não foi fechada, mas foi postergada”, afirma.
Apesar do discurso recorrente sobre um possível “apagão de investimentos”, Rulli adota uma leitura mais precisa. Segundo ele, o cenário atual não aponta para uma paralisação, mas para um deslocamento gradual de capital.
“Não vejo um apagão, mas um vácuo. Os investimentos podem diminuir ou ser direcionados para outros países e isso já é suficiente para comprometer a competitividade do Brasil”, explica ele.
Em um contexto em que gigantes globais aceleram a construção de data centers, especialmente voltados à inteligência artificial, o fator tempo se torna decisivo. Projetos não esperam indefinições regulatórias. E, nesse jogo, perder meses pode significar perder anos.
Data centers no centro da política industrial
A discussão sobre data centers evoluiu. O que antes era visto como infraestrutura de suporte passou a ocupar o centro da estratégia econômica dos países. Isso acontece porque essas estruturas concentram a capacidade de processamento que sustenta desde serviços digitais até modelos avançados de IA.
No Brasil, essa relevância já se materializa. “O país tem um sistema financeiro altamente digitalizado e serviços públicos que são referência global. Tudo isso roda em data centers e essa demanda só cresce”, afirma Rulli.
A consequência é que sem capacidade instalada local, o país passa a depender de infraestrutura externa, o que impacta competitividade, segurança e autonomia.
Se há alguns anos a soberania digital era tratada como conceito abstrato, hoje ela se traduz em decisões concretas sobre onde os dados são armazenados e processados. E o Brasil começa a estruturar essa agenda.
Rulli destaca iniciativas como a construção de uma nuvem soberana, liderada por órgãos como Serpro e Dataprev, como um movimento relevante nesse sentido. “A discussão deixou de ser fragmentada. Cada vez mais vemos uma abordagem holística sobre soberania digital, conectando dados, infraestrutura e governança”, afirma.
Essa mudança de abordagem acompanha uma tendência global. Ele explica que países que querem liderar na era da IA precisam controlar não apenas os dados, mas a capacidade de processá-los.
Vantagem brasileira
Apesar dos desafios regulatórios, o Brasil carrega um conjunto raro de vantagens estruturais. A principal delas é energética. Com mais de 80% da matriz baseada em fontes renováveis, o País se posiciona como destino potencial para data centers sustentáveis, um diferencial relevante em um setor cada vez mais pressionado por metas ambientais.
Além disso, a expansão da conectividade, especialmente via fibra óptica, também reforça esse posicionamento. “Hoje, mais de metade da banda larga fixa no Brasil já é operada por provedores regionais. Isso amplia a capilaridade e cria um ambiente favorável para expansão da infraestrutura digital”, explica Rulli.
Outro ponto que ajuda a desfazer mitos é o consumo de recursos. Os data centers modernos reduziram significativamente a dependência de água, o que amplia ainda mais a viabilidade de instalação em diferentes regiões.
Papel da Huawei
No desenho desse ecossistema, o executivo explica que a Huawei atua a partir de quatro pilares que, juntos, sustentam a expansão de data centers e da economia digital no país: conectividade, cloud, energia e infraestrutura corporativa. “A Huawei não é investidora em data center. Somos fornecedores de soluções e equipamentos, e isso nos conecta diretamente a essa agenda”, afirma o executivo.
Na base, está a conectividade, especialmente a expansão da fibra e das redes móveis, que garante capilaridade e acesso. “O Brasil hoje está cada vez mais forte em banda larga fixa, com grande cobertura fibrada e participação relevante dos provedores regionais”, diz.
Sobre ela, a camada de cloud e inteligência artificial (IA) com serviços voltados ao ambiente B2B, que transformam infraestrutura em capacidade de processamento e valor de negócio. “Nossa linha de IA é muito voltada para aplicações empresariais, em setores como mineração, energia e governo”, explica.
O terceiro eixo é energia, com soluções voltadas à eficiência e à transição para fontes renováveis, ponto crítico em um cenário de alta demanda computacional. “O Brasil tem uma matriz energética extremamente favorável, com mais de 80% de energia limpa, o que é um diferencial importante para data centers”, afirma. Por fim, a infraestrutura enterprise, que inclui redes, armazenamento e Wi-Fi de última geração, fecha o ciclo, permitindo que empresas e governos operem, de fato, em escala digital.
Juntos, afirma ele, esses pilares posicionam a companhia como uma das engrenagens que viabilizam esse mercado, uma camada essencial na corrida global por capacidade computacional.
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