
A primeira grande lição de Lúcio Camilo sobre aprender veio de uma máquina. Na videolocadora do pai, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, o controle dos aluguéis passava por um TK3000, computador de monitor de fósforo verde. Havia o ruído da máquina, o teclado, a tela acesa. E havia um menino tentando descobrir o que estava por trás daqueles comandos. Camilo ainda não sabia, mas aquele barulhinho seria uma espécie de trilha sonora para a carreira que viria.
Primeiro veio a vontade de entender como o computador funcionava. Depois, a de fazê-lo funcionar melhor. Começou a escrever pequenos programas para ajudar na administração dos negócios da família. “Sempre fui curioso com tudo, com muita vontade de entender como as coisas funcionavam”, conta ele.
A curiosidade virou profissão. Formado em análise de sistemas, Camilo entrou para o Banco do Brasil pouco antes de concluir o curso e foi trabalhar na diretoria de tecnologia, em Brasília. Depois, passou pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e prestou concurso para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ).
Foi no tribunal que a carreira passou a exigir dele uma habilidade diferente. Camilo chegou ao banco pelo lado técnico, mas logo passou a ocupar posições de gestão. O código, que durante anos havia sido a forma mais direta de resolver problemas, já não bastava. Era preciso convencer, negociar, escolher prioridades, administrar recursos e, sobretudo, lidar com pessoas.
Aprendeu, ele diz, que a tecnologia “não se trata apenas de zero e um”. É sobre entender os negócios e compreender a necessidade por trás de cada sistema. “Comecei a entender que as minhas virtudes como programador e desenvolvedor precisavam ser aprimoradas para alcançar a gestão”, aponta.
É daí que vem uma das ideias que mais aparecem quando ele fala de liderança: ouvir. Para Camilo, uma decisão não deveria começar pela resposta de quem está no comando, mas pelas perguntas feitas a quem vive o problema. Reunir pessoas, conhecer perspectivas diferentes e entender o cenário antes de escolher um caminho fazem parte do método. “Nenhuma pessoa sozinha é mais sábia ou mais inteligente do que um grupo”, sentencia.
É uma virada curiosa para alguém cuja trajetória começou diante de uma máquina que obedecia a comandos. O computador fazia exatamente o que lhe mandavam. Pessoas, não. Talvez por isso a formação tenha se tornado tão importante para ele.
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Camilo começou a escrever livros quando não encontrava respostas que considerava necessárias. O primeiro tratava de programação para Android. Depois vieram mais dois títulos: um sobre governo digital e outro sobre gestão de TI na administração pública. O movimento era parecido com o da infância. Diante de algo que não entendia ou para o qual não encontrava resposta, investigava. A diferença é que, adulto, passou a registrar o que descobria para que outros não precisassem começar do zero.
Em 2024, veio uma decisão que mudaria o rumo da sua carreira. Depois de quase oito anos no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), Camilo deixou a trajetória consolidada no tribunal para assumir a vice-presidência de tecnologia do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj), órgão de tecnologia do governo do Rio de Janeiro. No ano seguinte, tornou-se presidente da instituição. “Foi uma decisão muito arriscada e muito acertada”, lembra.
Poucos meses depois, veio outra mudança. Em 22 de agosto de 2025, Camilo tomou posse como vice-presidente de Tecnologia e Digital da Caixa Econômica Federal. Há uma distância considerável entre a videolocadora do pai, em Nova Friburgo, e a vice-presidência de tecnologia de um dos maiores bancos públicos do País. Algo, no entanto, permaneceu: a curiosidade de entender como as coisas funcionam continua ali. Só mudou o objeto.
Hoje, quando perguntado sobre seu estilo de liderança, Camilo não fala primeiro de sistemas, plataformas ou entregas. Fala de pessoas. Diz que prefere envolver as equipes nas decisões, ouvir diferentes pontos de vista e tratar quem trabalha ao seu lado como gostaria de ser tratado.
O TK3000 ensinou Camilo a prestar atenção aos sinais de uma máquina. A carreira mostrou que pessoas não funcionam assim. Não há comando que resolva tudo, nem manual que dê conta de todas as variáveis. É preciso escutar para captar diferentes perspectivas, rever certezas e seguir aprendendo. “A maior virtude que um gestor pode ter é realmente a capacidade de ouvir”, conclui o executivo.
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