
Quando Marisa Reghini tinha 12 anos, o pai chegou em casa com um computador CP200. Naquele Brasil, em que um computador doméstico custava entre sete e dez salários mínimos, o patriarca da família economizou por alguns meses para comprá-lo. Bancário e curioso por natureza, fez um pequeno programa para mostrar à filha. Na tela, uma pergunta trivial sobre a família. Marisa ficou fascinada com a ideia de conversar com uma máquina.
Pouco depois, em Bauru, no estado de São Paulo, uma prima quis prestar o “vestibulinho” para um curso técnico de processamento de dados. O pai sugeriu que Marisa estudasse junto. Ela passou. Na primeira aula de lógica, a curiosidade pela tela virou certeza. “Naquele momento, entendi que queria estudar tecnologia.”
No fim do curso, imprimiu cinquenta currículos e foi atrás de estágios pela região. Conseguiu trabalho numa escola de informática. O pai comemorou e profetizou: “Que bom que você conseguiu o estágio, mas você nunca mais vai parar de trabalhar”. Ele estava certo.
Para entrar em Sistemas de Informação na Universidade Estadual Paulista (Unesp), Marisa precisava de um cursinho que a família não podia pagar. Pai e filha foram negociar uma bolsa. “Garanto que vou passar”, disse ela. Conseguiu 50%. Estudava o dia inteiro e, à noite, lecionava informática. Sem carro, ela pegava um ônibus para retornar e encontrava o pai em um ponto parada, de onde caminhavam juntos para casa. Marisa passou.
No primeiro ano da faculdade, em 1998, o pai surgiu com outra ideia: o concurso para trabalhar no Banco do Brasil (BB). Ela resistiu. “Pai, não quero trabalhar em banco. Quero trabalhar com TI.” Para Marisa, banco era “agência e balcão”. Ainda assim fez a prova e, em 1999, aos 19 anos, foi chamada para Barra Bonita, a 80 quilômetros de Bauru. O salário não comportava o pedágio diário. Parte do trajeto feito pelo pai, passava entre canaviais e estradas de terra.
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Duas semanas depois da posse, em um treinamento, uma instrutora mostrou o organograma do banco. De um lado, a diretoria de Tecnologia, em Brasília. Marisa se agarrou àquela informação. Voltou à Barra Bonita dizendo a clientes, colegas, ao guarda e a quem servia o café que um dia trabalharia lá.
O plano demoraria. Perto de concluir a faculdade, pegou um carro com um amigo e percorreu cerca de 900 quilômetros até Brasília sem conhecer ninguém na área. Na recepção do prédio, perguntaram com quem queria falar. “Com todas as pessoas”, respondeu de forma inocente. A primeira tentativa de ir à cidade satélite foi frustrada. Depois de outra agência em Bauru e de um processo seletivo em 2004, chegou à tecnologia do BB em 31 de janeiro de 2005. “Faria tudo de novo.
Em Brasília, segundo ela, a ambição nunca foi subir a ladeira corporativa. “O cargo era só uma consequência.” Vieram projetos, liderança e funções executivas. Vieram também o casamento e os filhos. Quando assumiu a primeira função de gestão, a filha tinha pouco mais de um ano e não havia avós por perto. O casal encontrou uma creche que funcionava das sete da manhã às sete da noite: o marido levava a menina; Marisa negociou sair a tempo de buscá-la. Quando o trânsito frustrava o plano, uma amiga entrava em cena. A conta nunca fechou perfeitamente. Recentemente, depois de passar oito dias fora do País, ouviu do filho de 11 anos que ele já tinha aprendido a lidar com a saudade. “Decidi ter essa profissão e ter essa vida.”
Ser mulher na tecnologia trouxe outro aprendizado. Ela lembra de reuniões com 17 homens, de ideias ignoradas até serem repetidas por um colega, de piadas sobre a sala ficar “mais cheirosa” quando entrava e de ocasiões em que pediram para ela fazer a ata apenas por ser mulher. Por muito tempo, diz ter criado um “escudo”. Hoje, abre espaço para outras mulheres e procura referenciá-las. Ao lado de colegas, criou o movimento Mulheres na TI, que já alcançou mais de 15 mil pessoas.
Quando veio o convite para ser vice-presidente, Marisa achava que participaria de uma conversa para sugerir nomes. Só entendeu quando ouviu de Tarciane Medeiros, presidente e primeira mulher a comandar o Banco do Brasil em 200 anos de instituição: “Gostaria que fosse você”. Ela não sentiu medo como esperava. Uma frase veio à mente: “Já que você vai viver isso, vai mudar a vida de uma mulher por dia.”
Marisa não conta a própria história como uma sequência inevitável de vitórias, mas um caminho percorrido entre canaviais, aviões, encontros e despedidas perpassados pela curiosidade e perseverança herdadas do pai, a força e resiliência da mãe e a certeza, repetida ainda jovem, de que um dia chegaria a Brasília.
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