
Se aqui no Brasil o consórcio é, há décadas, uma alternativa bastante utilizada para investir dinheiro e fazer um “pé de meia” para comprar algum bem desejado, em outro grande mercado internacional (no caso, os Estados Unidos) ele é praticamente inexistente. Entretanto, três brasileiros estão dispostos a mudar essa realidade. É nesse cenário que surge a Savings.Club, com o objetivo de democratizar o acesso a bens no exterior por meio de um modelo inspirado no consórcio, adaptado à realidade regulatória e financeira americana.
Liderada pelos brasileiros JP Galvão, Adriano Marques e Fernando Lamounier, a fintech criou uma solução proprietária (e patenteada) para lançar um produto de consórcio em terras ianques e, desde então, tem apostado em um público já familiarizado com o conceito para formar sua base inicial de clientes. Focando primeiro no público brasileiro e latino-americano, a companhia já acumulou mais de R$ 25 milhões em contratos.
Segundo o CEO JP Galvão, a quantia pode não parecer tão alta, mas serviu para validar a operação, que ainda não completou um ano. “Atualmente, já estamos movimentando mais de R$ 3 milhões em novos contratos por mês, com mais de 100 clientes ativos e 41 revendedores ativos”, explica. Até o momento, quatro contemplações já foram realizadas.
Hoje, a Savings.Club opera apenas no segmento automotivo, com grupos de crédito entre US$ 20 mil e US$ 40 mil. A próxima frente a ser atacada é a de imóveis comerciais, com créditos a partir de US$ 200 mil. “Quando a gente entra em imóveis, já sobe uma escala relevante, e a diferença de valor em relação ao financiamento é ainda maior”, diz Adriano.
Além do aumento do ticket, a nova licença permitirá atuação em todo o território americano, sem as restrições estaduais do produto automotivo – atualmente, a companhia atua apenas no Texas, Flórida, Massachusetts e Connecticut. Com o novo produto, a Savings.Club espera aumentar agressivamente o volume de contratos, chegando à marca de US$ 1 bilhão em cerca de um ano.
Para chegar à projeção de quase R$ 1 bilhão, a empresa conta com a combinação da expansão para imóveis, a entrada em novos estados e o crescimento da rede de revendedores. “Não estamos jogando números para o alto. São números absolutamente factíveis e que fazem parte do nosso pipeline”, afirma JP.
E se grandes players do mercado financeiro, bancos americanos, montadoras com braços financeiros ou fintechs brasileiras avançando nos EUA quiserem entrar nesse mercado? A empresa está preparada. Além de três patentes pendentes que protegem o modelo tecnológico, Galvão confirma que conversas estão em andamento.
“O que posso dizer é que essas conversas existem. Não só com administradoras, mas também com bancos. O que acreditamos é que estamos criando infraestrutura de negócio para os EUA, e é importante que todos esses players tenham acesso a isso”, destaca JP.
Solucionando um problema
A ideia da Savings.Club partiu de uma observação de JP Galvão, que já vivia nos Estados Unidos e era sócio de uma empresa de assinatura de carros de luxo em três estados. Quando os juros americanos dispararam, ele viu de perto o impacto sobre clientes e concessionárias.
“Se o topo da cadeia de valor da atividade financeira estava perdido desse jeito, o que estava acontecendo com as pessoas da base?”, lembra JP. “Os créditos para financiamento de carro aqui tinham taxas de rejeição pré-pandemia de 4% a 6%. Hoje, está batendo 25%. Quando vi isso acontecer, pensei: vou montar um negócio de consórcio aqui nos Estados Unidos”.
Para entender o produto por dentro e pensar em como adaptá-lo ao mercado norte-americano, Galvão contou com um especialista no assunto: Luiz Otávio Matias, ex-vice-presidente do Itaú e fundador do Itaú Consórcio.
Depois de algumas aulas, ele acabou se conectando com outro brasileiro que também estava tentando “quebrar essa pedreira” regulatória: o engenheiro de software Adriano Marques. Residente nos EUA há 14 anos, ele havia identificado a mesma demanda latente desde 2019 e já desenvolvia uma solução tecnológica e jurídica para viabilizar o modelo.
A parceria entre os dois se firmou e, mais tarde, Fernando Lamounier se uniu ao grupo. Sócio da administradora brasileira Multimarcas e formado em Yale, ele entrou primeiro como investidor e membro do conselho antes de assumir o papel de CRO da operação.
Como adaptaram o consórcio
Levar o modelo de consórcio para os EUA não era simples. A principal barreira estava no mecanismo de contemplação. No Brasil, as formas mais comuns de conseguir uma carta de crédito são o lance ou o sorteio. Se, no Brasil, os sorteios são amparados pela Loteria Federal, nos EUA a loteria é ilegal em quase todos os estados. Os lances, por sua vez, exigem licença específica e variam por estado, tornando a implementação inviável em escala nacional.
A solução foi criar um sistema proprietário de seleção baseado em risco. “Por que não fazer a entrega simplesmente baseada em risco?”, explica Adriano. “Já é uma sociedade que entende o conceito de risco, em que o crédito está atrelado a um número, o credit score. Então criamos um sistema proprietário, com três patentes pendentes, de estimativa de risco individual relativo dentro do grupo.”
Assim nasceu uma tecnologia proprietária – a Rotex IA – um algoritmo de inteligência artificial que combina dados públicos e privados, comportamento financeiro e histórico de pagamentos para gerar o chamado Savings Score, uma espécie de credit score interno do grupo.
Conforme explica Adriano, nesse modelo o cliente consegue visualizar sua posição no ranking pelo aplicativo e realizar ações, como o adiantamento de pagamentos, para subir na fila. “Não é um lance. Ao fazer esse pagamento, o sistema entende isso como uma redução no risco do cliente, e ele sobe no ranking. Periodicamente, liberamos novas cartas, e quem estiver no topo do ranking é contemplado”, destaca.
O mercado, o momento e o público certo
A estratégia de entrada foi deliberada: começar pelos públicos que já conhecem o conceito. “Vamos começar com quem não precisamos explicar o que estamos fazendo. Se você diz a palavra consórcio para o brasileiro, ele entende na hora. Se você fala com um mexicano e explica que é como uma tanda, ele entende imediatamente”, afirma JP.
Com mais de 2 milhões de brasileiros e uma expressiva comunidade latina nos EUA, concentrada justamente nos quatro estados em que a empresa já opera, o público inicial está bem delimitado. “Latinos e brasileiros naturalmente já pagam mais por financiamento, o que torna o nosso produto ainda mais relevante para eles.”
Além dos bens tradicionais
Apesar de os bens mais visados serem carros e imóveis, a Savings.Club tem sua aposta mais disruptiva em outra categoria: robôs autônomos. Na visão de Adriano, à medida que robôs e carros autônomos ganhem mais presença no mercado, mais pessoas vão investir nesses produtos como fontes alternativas de renda.
“Muitas pessoas já estão pensando em como ganhar mais dinheiro sendo donas de robôs. Daqui a algum tempo, será possível ter uma frota de robôs para prestar serviços e ganhar dinheiro com eles. Por isso, criamos um programa para os clientes começarem a financiar isso e comprar esses robôs no momento em que eles chegarem ao mercado”, explica o sócio.
Fernando Lamounier resume a visão com uma analogia direta: “Na Corrida do Ouro, quem fica rico é quem vende a pá. Temos muita convicção de que essa pode ser uma forma de você ser dono de carro autônomo, de robô autônomo, e que a forma de financiar isso não será no modelo tradicional, com juros altos, mas sim via consórcio”, pontua.
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