Skip to main content

Imagem de um smartphone exibindo a mensagem "Welcome to the Gemini era" na tela. A palavra "Gemini" destaca-se com a letra "G" em azul, remetendo à identidade visual do Google. O dispositivo está sobre uma superfície de madeira, e a tela tem fundo preto com texto em branco, conferindo um design moderno e minimalista

O Google está consolidando suas apostas em inteligência artificial corporativa numa única plataforma. O Gemini Enterprise, anunciado nesta quinta-feira (9), representa uma guinada estratégica da companhia para enfrentar concorrentes que avançam rapidamente no mercado empresarial, como Microsoft Copilot e startups especializadas em agentes de IA.

A jogada unifica o que antes eram produtos dispersos: modelos de linguagem, ferramentas de orquestração e agentes especializados sob uma marca e interface únicas. O movimento responde a críticas de que as soluções de IA da Google estavam fragmentadas, exigindo que empresas costurassem manualmente diferentes peças tecnológicas.

“Algumas companhias oferecem modelos de IA e kits de ferramentas, mas estão entregando as peças, não a plataforma”, afirmou Thomas Kurian, CEO da Google Cloud, em clara referência aos concorrentes. “Elas deixam suas equipes para juntar tudo, e você não pode montar uma transformação com pedaços.”

Leia também: “As instalações mais avançadas do mundo”: a aposta da Intel para devolver liderança de chips aos EUA

Disputa pelo bolso corporativo se acirra

O preço inicial de US$ 21 por usuário ao mês coloca a Google em competição direta com a Microsoft, que cobra valores similares pelo Copilot voltado a empresas. A diferença, segundo a estratégia da Google, está na integração completa: da infraestrutura de chips personalizados (TPUs) até os modelos Gemini e a camada de aplicação.

A companhia aposta que empresas preferirão uma solução integrada a depender de múltiplos fornecedores. É uma estratégia arriscada num momento em que grandes corporações frequentemente optam por abordagens multicloud e evitam amarração a um único provedor.

Para reduzir essa resistência, a Google adotou uma postura de abertura incomum para seus padrões. A plataforma funciona com dados armazenados em serviços da Microsoft, como Office 365 e SharePoint, e suporta protocolos abertos que permitem agentes de terceiros se comunicarem com os da Google.

“O futuro da IA deve ser aberto, flexível e interoperável”, declarou Kevin Ichhpurani, presidente da organização global de parceiros da Google Cloud. A empresa conta com mais de 100 mil parceiros no ecossistema e já validou mais de 1.500 agentes de terceiros compatíveis com a plataforma.

Casos de uso buscam provar retorno sobre investimento

A estratégia da Google passa por demonstrar ganhos financeiros concretos, não apenas eficiência operacional abstrata. Os casos divulgados pela companhia têm números específicos de retorno: 28% de aumento em vendas na Virgin Voyages, 40% de redução em alertas falsos de fraude no Macquarie Bank, 70% de resolução automática de atendimentos no Commerzbank.

Essa abordagem contrasta com o primeiro momento da IA generativa, quando empresas enfatizavam capacidades tecnológicas sem comprovar impacto nos resultados. A mudança reflete pressão crescente de CFOs e conselhos administrativos por justificativas financeiras para investimentos em IA, que frequentemente ultrapassam milhões de dólares anuais.

A Virgin Voyages exemplifica a aposta da Google em ferramentas que não exigem programadores. A equipe de marketing da companhia de cruzeiros criou sozinha o agente “Email Ellie”, treinado no tom de voz da marca, sem escrever uma linha de código. É uma tentativa de democratizar a criação de automações e reduzir a dependência de equipes técnicas escassas.

Desde a implementação do assistente virtual, a Virgin Voyages reduziu em 40% o tempo gasto na criação de textos para campanhas. “O que mais me entusiasma nessa parceria com a Google Cloud é como ela devolve tempo para nossas equipes fazerem o que fazem de melhor: criar alegria, construir conexões e dar vida à nossa marca”, declarou Nirmal Saverimuttu, CEO da companhia.

Corrida pela definição de padrões técnicos

Além da disputa comercial imediata, a Google trava uma batalha menos visível pela definição dos protocolos que vão reger a comunicação entre agentes de IA. A empresa trabalhou com a indústria no Agent2Agent Protocol (A2A) e lançou o Agent Payments Protocol (AP2), desenvolvido com mais de 90 parceiros incluindo American Express, Mastercard e PayPal.

Quem define os padrões técnicos costuma sair com vantagem competitiva duradoura, uma lição que a Google aprendeu ao perder o domínio de sistemas operacionais móveis para a Apple, apesar do Android.

A companhia também anunciou o programa GEAR (Gemini Enterprise Agent Ready), com meta de capacitar um milhão de desenvolvedores na plataforma. É uma estratégia de criação de ecossistema: quanto mais profissionais treinados, maior a probabilidade de empresas escolherem a tecnologia da Google.

Entre os parceiros que anunciaram agentes compatíveis estão Box, Salesforce, ServiceNow, Workday, Dun & Bradstreet e S&P Global. A Google criou ainda um localizador de agentes com busca em linguagem natural, conectado ao Google Cloud Marketplace, onde clientes podem descobrir e adquirir soluções validadas.

A disputa pela IA corporativa está longe de definida. Enquanto a Microsoft tem penetração estabelecida via Office 365, a Google conta com infraestrutura técnica considerada superior por desenvolvedores e startups de IA. O Gemini Enterprise é a tentativa de traduzir essa vantagem técnica em adoção corporativa em larga escala, um desafio histórico para a companhia fora do segmento de busca e publicidade.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!