Skip to main content

Marlon Menezes, engenheiro sênior de sistemas da Nutanix, IA

Quando as grandes empresas de tecnologia saíram comprando milhares de unidades de processamento gráfico de uma só vez, jogaram o mercado numa espiral que ainda não se resolveu: hardware escasso, preços elevados e projetos de inteligência artificial sendo lançados sem critério de retorno. Para Marlon Menezes, engenheiro sênior de sistemas da Nutanix, o diagnóstico é evidente. “Houve uma irresponsabilidade na corrida de IA”, afirmou durante coletiva de imprensa realizada no .NEXT 2026*, em Chicago.

O problema teve duas origens. A primeira foi estrutural: a concentração de compras de hardware pelas grandes empresas de tecnologia criou um gargalo global de fornecimento que penalizou o mercado como um todo. A segunda foi cultural. O hype em torno da inteligência artificial levou empresas a querer implementar soluções a qualquer custo, sem avaliar se os casos de uso faziam sentido para o negócio. “A gente viu que isso não se sustentava”, disse.

Menezes usou a metáfora do aprendiz de feiticeiro para descrever o momento. A indústria achou que já dominava a ferramenta e passou a empilhar casos de uso sem ter consolidado nem os mais básicos. Para ele, a contenção de danos passa por uma mudança de cultura na adoção da tecnologia, com clareza sobre o que a inteligência artificial pode e não pode fazer dentro de cada organização.

O sinal de maturidade, segundo ele, já aparece nas conversas do dia a dia. “Dois anos atrás, as empresas estavam perdidas. Hoje, quando converso com clientes, são casos de uso que fazem sentido e que vão ter retorno”, avaliou. Como exemplo concreto, citou um projeto desenvolvido em parceria com a CPFL na área de segurança do trabalho. A solução identifica desvios de comportamento em tempo real e alerta trabalhadores sobre riscos antes que se tornem acidentes. Uma análise que antes levava semanas passou a ser feita em horas. “É uma vida que estou salvando. Isso é uso consciente da tecnologia”, afirmou.

Leia também: Nutanix aposta em IA agêntica e soberania digital no .NEXT 2026

Data centers: abundância que pode virar escassez

O mesmo diagnóstico de irresponsabilidade se aplica, na visão de Menezes, à expansão da infraestrutura de data centers no Brasil. O país tem condições naturais privilegiadas, com matriz energética que inclui água, sol e vento, mas segue repetindo um padrão conhecido, crescendo rápido sem planejar as consequências. “A abundância traz uma irresponsabilidade. Enquanto não falta, ninguém se preocupa. Mas com todo o crescimento desordenado, a falta vai acontecer, sim ou sim”, alertou.

O problema se agrava pela concentração geográfica. Cerca de 90% dos data centers brasileiros estão no eixo Rio-São Paulo, uma região que já enfrenta pressão crescente de consumo energético, adensamento urbano e expansão de veículos elétricos. Para Menezes, essa equação exige um debate que vai além do setor privado. “Na hora do investimento é tentador. Vai trazer dinheiro, vai trazer emprego. Mas a médio prazo o impacto pode ser grande”, disse.

Refrigeração e o custo da sustentabilidade

Um dos caminhos técnicos que Menezes defende é a substituição do resfriamento por ar-condicionado pelo resfriamento a água, que pode reduzir em até 60% o consumo de energia, com a água sendo reciclada em circuito fechado. O obstáculo está na cultura do mercado. Não é uma solução que se instala do dia para a noite: exige infraestrutura específica, investimento inicial e uma mentalidade de retorno a médio prazo que o mercado brasileiro ainda resiste em adotar. “A gente sabe que no Brasil somos mais imediatistas”, reconheceu.

A contradição, segundo ele, é estrutural. O mercado diz querer sustentabilidade, mas na hora da decisão de compra escolhe o mais barato. Sem regulamentação que force o padrão, a mudança não acontece por adesão voluntária. A comparação que Menezes usa é a do airbag: ninguém o adotaria espontaneamente se não fosse obrigatório por lei. “Enquanto não tiver regulamentação, não vai andar. Tem que ter regulamentação e multa. A LGPD está em vigor há muito tempo e ninguém é multado. Se não tiver investigação, não tem lei”, concluiu.

*A jornalista viajou a convite da Nutanix

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!