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Geopolítica | Foto: Canva

*Por Franklin Lacerda, economista e CEO da Análise Econômica

A IA na geopolítica tornou-se o eixo central para entender a guerra entre EUA e Irã. A IA na geopolítica não atua apenas no campo militar, mas reorganiza cadeias produtivas, mercados e decisões econômicas. 

A IA na geopolítica acelera conflitos, reduz o tempo de reação e amplia o risco sistêmico global. Ao mesmo tempo, a IA na geopolítica influencia o preço do petróleo, o comportamento do câmbio e as expectativas de juros, criando um ambiente mais volátil e menos previsível. 

Para o Brasil, a IA na geopolítica deixa de ser um tema distante e passa a operar como variável concreta de negócios, afetando desde o custo de capital até a estratégia de crescimento de empresas intensivas em tecnologia.

Quando a guerra deixa de ser local e passa a ser sistêmica

A guerra entre Estados Unidos e Irã, quando observada pela lente tradicional, ainda pode ser interpretada como um conflito por influência regional, segurança energética e posicionamento estratégico. No entanto, essa leitura já não é suficiente. 

A incorporação crescente da inteligência artificial nas estruturas de defesa, monitoramento e decisão desloca o conflito para uma nova dimensão, na qual velocidade, processamento de dados e autonomia operacional redefinem o equilíbrio de poder. A IA não apenas aumenta a capacidade de resposta — ela altera o próprio conceito de resposta.

Isso ocorre porque decisões que antes dependiam de análise humana passam a ser mediadas por sistemas que operam em escalas de tempo incompatíveis com estruturas institucionais tradicionais. 

O resultado é um ambiente em que o risco não está apenas na escalada intencional, mas na interação entre sistemas automatizados que podem amplificar tensões de forma não linear. Nesse contexto, a guerra deixa de ser um evento isolado e passa a funcionar como um catalisador de transformações econômicas globais.

O efeito silencioso sobre os negócios no Brasil

Para empresas brasileiras, os impactos dessa dinâmica vão além dos efeitos mais visíveis, como oscilações no petróleo ou no câmbio. O ponto central está na reorganização das bases de competitividade. À medida que a inteligência artificial se consolida como infraestrutura crítica — assim como energia, logística e capital —, o acesso a essa infraestrutura passa a determinar quem cresce e quem perde relevância.

Grande parte dessa capacidade ainda está concentrada em poucos países e empresas, o que cria uma assimetria estrutural. Negócios no Brasil, especialmente startups, operam dentro de uma camada tecnológica que não controlam integralmente. 

Isso aumenta a dependência e, ao mesmo tempo, exige uma sofisticação maior na forma de competir. Não se trata apenas de adotar IA, mas de integrá-la profundamente à tomada de decisão, à precificação, à gestão de risco e à leitura de mercado.

É nesse ponto que o debate deixa de ser tecnológico e se torna econômico. Empresas que conseguem traduzir dados em ação, antecipar movimentos e operar com maior precisão tendem a capturar valor de forma desproporcional. Em um ambiente mais instável, a capacidade de adaptação se torna o principal ativo competitivo.

Entre o alerta e o exagero: a leitura da Citrini

Nesse contexto, como mostra a análise do relatório da Citrini Research, intitulado “The 2028 Global Intelligence Crisis”, a inteligência tende a se tornar infraestrutura — e não apenas diferencial. 

A inteligência artificial gera ganhos expressivos de produtividade, mas ao mesmo tempo desorganiza a economia ao reduzir empregos e enfraquecer o consumo. A ideia de um “Ghost GDP” — crescimento sem prosperidade distribuída — é poderosa como provocação e cumpre um papel importante ao tensionar o debate sobre os limites da automação.

No entanto, a análise carrega um viés que merece atenção. Ao assumir que a destruição de empregos ocorrerá mais rapidamente do que a criação de novas formas de trabalho e mercado, o relatório adota uma visão excessivamente linear da transformação econômica. 

A história mostra que tecnologias estruturais raramente produzem efeitos unidirecionais. Elas desorganizam, mas também reorganizam. Eliminam funções, mas criam novas cadeias de valor.

Isso não reduz o risco apontado pela Citrini, mas desloca sua interpretação. O cenário descrito deve ser entendido menos como destino e mais como alerta. Ele aponta para a necessidade de adaptação institucional, reinvenção empresarial e desenvolvimento de novas formas de coordenação econômica. O futuro não será definido apenas pela tecnologia, mas pela forma como sociedades e mercados respondem a ela.

Crônica de 2030: o mundo que aprendeu a operar com inteligência

É o início de uma manhã comum em 2030. Em uma cidade brasileira, uma empreendedora inicia seu dia sem abrir planilhas, relatórios ou dashboards. Em vez disso, ela conversa com sistemas que já processaram durante a madrugada milhares de variáveis — do comportamento do consumidor ao custo da energia, passando por dados climáticos e sinais geopolíticos. As decisões que antes exigiam horas agora emergem quase prontas, ajustadas, testadas em simulações invisíveis.

Sua empresa é pequena em pessoas, mas grande em capacidade. Não porque cresceu em estrutura, mas porque aprendeu a operar com inteligência. Cada escolha — preço, investimento, expansão — é resultado de uma combinação entre julgamento humano e processamento algorítmico. Não há substituição completa. Há amplificação.

Em outra região do país, uma indústria tradicional se transformou silenciosamente. Máquinas não apenas produzem — elas antecipam. Contratos são ajustados dinamicamente. Cadeias de suprimento se reorganizam antes que rupturas aconteçam. O tempo deixou de ser apenas uma variável operacional e passou a ser um diferencial estratégico.

Mas o mundo não se tornou mais simples.

A competição por energia e capacidade computacional se intensificou. Data centers ocupam o lugar simbólico que refinarias já tiveram. Países disputam acesso à infraestrutura que sustenta a inteligência global. E, apesar da abundância criada pela tecnologia, as tensões permanecem — agora em novas formas.

A desigualdade não desapareceu. Ela se deslocou. Já não separa apenas quem tem capital de quem não tem, mas quem consegue coordenar inteligência de quem não consegue. Empresas, profissionais e países são medidos pela capacidade de transformar informação em decisão.

Ao olhar para trás, o que se percebe é que a IA não substituiu o mundo.

Ela reorganizou suas engrenagens.

E, ao fazer isso, tornou ainda mais evidente algo que sempre esteve presente: tecnologia não define o futuro sozinha. O futuro é definido pela forma como escolhemos usá-la.

O post IA na geopolítica: guerra EUA-Irã, impacto no Brasil e o mundo até 2030 apareceu primeiro em Startups.